A alta do dólar e o peso nos custos de produção na pecuária

Em anos de incertezas políticas, econômicas, cambiais e climáticas, o pecuarista deve ficar de olho na variação da cotação.

O dólar saiu de um patamar de R$ 3,20 no começo deste ano e chegou a ficar cotado acima de R$ 4,00 ao longo de julho. A valorização acompanhou a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos, que em patamares maiores tendem a atrair investidores para aplicações mais seguras, como os títulos da dívida norte-americanos. De maneira geral, a moeda norte-americana se valorizou frente às principais moedas mundiais.

Figura 1
Evolução da cotação do dólar em real.

Para a pecuária, os reflexos da alta do câmbio foram sentidos nos custos de produção da atividade, especialmente no quesito nutrição.

A soja e os produtos do complexo soja (farelo e óleo) foram os mais afetados. Nesse caso, além da valorização do dólar, a seca na Argentina e a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos favorecem a demanda pelo grão brasileiro.

Figura 2
Preço da soja grão em Paranaguá-PR (eixo da esquerda, em R$/saca 60 kg) e dólar (eixo da direita, em R$/US$).

O farelo de soja acompanhou a alta da soja grão e a demanda aquecida, fato que deu sustentação também às cotações dos outros alimentos concentrados, como o farelo de algodão e o caroço de algodão.

Segundo levantamento da Scot Consultoria, a tonelada do farelo de soja ficou cotada, em média, em R$ 1.464,67 em julho, em São Paulo, sem o frete, 29,0% mais, na comparação com o mesmo período do ano passado.

As cotações do milho, dos fertilizantes e dos suplementos minerais também foram influenciadas pelo câmbio e pesaram mais no bolso no pecuarista em 2018, principalmente para quem não se planejou e antecipou as compras.

Segundo o Índice Scot de Custo de Produção da Pecuária de Corte, que mede a variação de preços dos principais itens que compõem essa cesta, os custos da atividade subiram, em média, 2,3% este ano, frente a 2017 (Figura 3).

Figura 3
Índice Scot Consultoria de Custo de Produção da Pecuária de Corte (alta tecnologia). Base 100 = agosto de 1994.

Considerações finais e expectativas

Em anos de incertezas (políticas, econômicas, cambiais, climáticas, etc.) como em 2017 e 2018, o planejamento da atividade pecuária e as estratégias de compras de insumos são fundamentais para o resultado da atividade. Muitas vezes pode significar a diferença entre lucro e prejuízo.

Para o farelo de soja, o pecuarista que antecipou as compras ou fechou contratos para entrega futura pagou entre R$ 1.000,00 e R$ 1.100,00 por tonelada nos primeiros meses de 2018, frente aos valores atuais mais próximos de R$ 1.500,00 por tonelada.

No caso do câmbio, o produtor pode utilizar ferramentas de proteção no mercado futuro, por meio de contratos de câmbio, de uma forma mais geral, ou da própria commodity.

No dia 27 de julho, o Banco Central do Brasil estimou a taxa de câmbio em R$ 3,70/US$ para o final de 2018 (Boletim Focus – https://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20180727.pdf ). Para o final de 2019 e 2020, a estimativa atual aponta para um dólar também em R$ 3,70.

Isso significa que o câmbio continuará como fator de sustentação dos preços de commodities (milho, soja, fertilizantes, entre outros) e influenciando também nos custos de produção da atividade pecuária em 2018 e 2019. Por outro lado, o câmbio valorizado colabora com os embarques de carne bovina e ajuda no escoamento da produção nacional, diante desse quadro de demanda interna patinando.

Por fim, considerando as eleições presidenciais no Brasil neste segundo semestre, o câmbio poderá assumir rumos diferentes dependendo do candidato eleito. Ou seja, as incertezas em relação ao câmbio deverão continuar a curto e médio prazo.

Autor: Rafael Ribeiro – Zootecnista, msc.

 

 

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