Novas cultivares de pastagem

Ainda há muitas cultivares por vir, cada uma com vantagens específicas. A tendência é que sejam liberadas espécies menos generalistas, ou seja, adaptadas às demandas específicas do setor produtivo.

 

 

Histórico das pastagens no Brasil 

As pastagens cultivadas no Brasil ocupam cerca de 116 milhões de hectares e são compostas, na maior parte, por gramíneas de origem africana, introduzidas a partir do século 19, que se adaptaram muito bem aos nossos sistemas de produção. São várias espécies de pastagens, cada uma com um histórico de entrada no país e um histórico de adaptação.

No século 20, apesar de muitos pesquisadores terem introduzido individualmente materiais disponíveis à época, a grande revolução na pecuária se deu na década de 1980, após a introdução de grandes coleções de germoplasma de forrageiras amplamente coletadas na África, em seus locais de origem, e que hoje estão disponíveis aqui para nosso uso.

Assim, após o estudo detalhado e o lançamento de cultivares destas coleções, com destaque para Panicum maximum cv. Tanzânia-1, Mombaça e Massai, Brachiaria cv. Xaraés e Piatã houve grande progresso tanto na lotação animal quanto na produção de carne por hectare. A cultivar Marandu ou Braquiarão, gramínea mais cultivada no Brasil, já havia sido introduzida antes da entrada da coleção e foi lançada em 1984, ano de entrada da coleção no país.

A partir da década de 1980, todo o programa de desenvolvimento de cultivares de forrageiras da Embrapa foi reestruturado. Cada espécie passou a ser analisada em um Centro de Pesquisa, coordenador daquela espécie, incluindo outros como avaliadores dos melhores materiais visando lançamento. Assim, vários centros formaram uma rede de avaliação e desenvolvimento de cultivares.

A partir de 2002, entrou no cenário a Unipasto (Associação para o fomento à pesquisa de melhoramento de forrageiras), uma associação de empresas produtoras de sementes, que se reuniram para apoiar a pesquisa em desenvolvimento de novas cultivares forrageiras em troca da comercialização das cultivares liberadas no mercado. Isso alavancou a pesquisa e vários excelentes produtos puderam ser colocados no mercado.

Novas cultivares

O desenvolvimento de cultivares se inicia pela avaliação da variabilidade natural da espécie, geração de novos híbridos por meio de cruzamentos, avaliação dos híbridos em pequenas parcelas, avaliação dos híbridos selecionados em rede nacional, avaliação para diversos estresses bióticos e abióticos e, por fim, avaliação dos poucos selecionados sob pastejo.

Esse processo todo pode levar até 20 anos, culminando no lançamento da cultivar final após seu registro (e sua proteção, quando desejado) no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Sem o registro, a cultivar não pode ser comercializada no país. É bom lembrar que mesmo após o lançamento das cultivares, a pesquisa continua, principalmente em relação ao manejo da pastagem, para orientar o uso eficiente do material e esclarecer eventuais problemas que possam surgir nas fazendas.

 Recentemente, novas cultivares melhoradas foram disponibilizadas para os pecuaristas. Entre as braquiárias, foram a B. Brizantha BRS Paiaguás, em 2013, e a braquiária híbrida BRS Ipyporã, em 2017. Entre os Panicuns, foram disponibilizadas as cultivares BRS Zuri, em 2014, BRS Tamani, em 2015, e BRS Quênia, em 2017.

BRS Paiaguás

A cv. BRS Paiaguás foi selecionada a partir de uma B. brizantha, coletada em Nairobi, no Quênia, em 1984. Ela apresenta porte semelhante à braquiarinha (B. decumbens) (0,65 – 0,80 m), folhas finas, eretas e abundantes e colmos finos. Suas folhas e bainhas são glabras (sem pelos). Apresenta o florescimento mais precoce dentre as cultivares de B. brizantha e sementes menores que Marandu, Piatã e Xaraés.

A BRS Paiaguás é uma B. Brizantha com grande destaque na adaptação e produção na época seca do ano. Há muitos relatos de produtores de que essa braquiária permanece verde na época seca, enquanto outras secam. Além dessa vantagem, ela é de fácil manejo animal. Essa braquiária é indicada para solos de média fertilidade, sendo a mais rústica dentre as cultivares de B. Brizantha. É recomendada também para plantio na integração lavoura-pecuária e apresenta excelente cobertura do solo.

Quando em pastejo em Campo Grande-MS, a BRS Paiaguás resultou, na média de três anos, em ganho de peso/animal/dia de 650 gramas nas águas e 280 gramas na seca, sem suplementação, com uma taxa de lotação de 3,4 e 1,5 UA há, respectivamente. A produtividade animal/ha/ano foi de 685 kg.

BRS 331 Ipyporã

O mais novo lançamento de braquiária foi a BRS 331 Ipyporã. Essa braquiária é um híbrido obtido na Embrapa Gado de Corte, em 1992, por meio de um cruzamento entre uma B. Brizantha e uma B. Ruziziensis, ambas não comerciais. O nome Ypiporã significa “belo começo” em guarani, simbolizando o primeiro excelente híbrido lançado pela Embrapa.

A BRS Ipyporã é uma planta de porte baixo (0,4 a 0,6 cm), menor que a BRS Paiaguás. Suas folhas apresentam pilosidade na face superior e inferior e as bainhas são muito pilosas. Suas espiguetas, entretanto, não apresentam pilosidade. Suas inflorescências apresentam de 3 a 4 ramos, e as sementes são menores que a cultivar Xaraés, porém de tamanho semelhante às cultivares BRS Piatã e Marandu.

A cultivar BRS Ipyporã é recomendada para o plantio em solos bem drenados, de média fertilidade, com 35% a 40% de saturação de bases. Ela não apresenta resistência a solos encharcados, portanto, não pode ser recomendada para áreas com problemas de drenagem ou onde haja incidência da síndrome da morte do capim-marandu.

As vantagens dessa cultivar são a elevada resistência a todas as espécies de cigarrinhas-das-pastagens, incluindo a cigarrinha-da-cana-de-açúcar, Mahanarva spp. Além disso, apresenta elevado valor nutritivo, superior às demais braquiárias, o que confere uma elevada engorda individual.

Animais em pastagem de BRS Ypiporã na Embrapa Gado de Corte em Campo Grande-MS engordaram 675 g/animal/dia durante dois anos, devido ao seu altíssimo valor nutritivo, com 10% e 13% maior digestibilidade e proteína bruta, respectivamente, que a cultivar Marandu.

Sua produtividade por área, entretanto, foi semelhante a cultivar Marandu, devido à sua menor produção e consequente taxa de lotação. Graças ao seu alto valor nutritivo, ela é recomendada para diversificar os sistemas de produção de bovinos de corte, resultando em maior desempenho por animal e consequente redução da idade de abate. Resultante disso, tem-se carne de melhor qualidade e menor emissão de gases de efeito estufa, ou seja, um sistema de produção mais sustentável. Pode ainda ser recomendada para as categorias de exigência nutricional mais elevada, tais como bezerros desmamados, vacas em terço final de gestação e em lactação.

BRS Zuri

Em 2014, a Embrapa lançou a cultivar BRS Zuri, uma cultivar de P. Maximum, que entrou no sistema de produção de gado a pasto devido à sua alta produtividade aliada ao alto valor nutritivo e elevado grau de resistência ao fungo foliar causado por Bipolaris Maydis. Essa cultivar é de porte médio-alto, com folhas muito largas e glabras. Apresenta rápida rebrota após o pastejo. Seu nome significa “bom” e “bonito” em suaíle, a língua falada no Quênia, em homenagem a um dos países de origem da espécie.

Ela é indicada para uso em solos de média a alta fertilidade e para manejo rotacionado com altura de entrada de 80 cm e de saída de 40 cm. Sob pastejo, foram obtidos 25,3@ e 29,5@ de ganho em peso animal por hectare por ano no Mato Grosso do Sul e no Acre, respectivamente.

BRS Tamani

Com um porte baixo, totalmente distinto da BRS Zuri, a Embrapa colocou no mercado em 2015 outra cultivar de P. Maximum, a BRS Tamani. Essa cultivar veio para o mercado para atender a uma demanda por uma forrageira de alto valor nutritivo e de manejo fácil e flexível. Ela apresenta porte baixo, abundância de folhas longas e finas e de perfilhos, o que confere excelente cobertura do solo. Essa cultivar é híbrida, resultante do cruzamento de dois genótipos pré-selecionados da espécie realizado em 1992 na Embrapa Gado de Corte. Seu nome significa “precioso” e “desejado” na língua suaíle.

Essa cultivar é recomendada para solos de média a alta fertilidade no bioma Cerrado ou após o cultivo de lavouras anuais, quando em solos de baixa a média fertilidade. Ela é uma opção para solos bem drenados, pois apresenta baixa tolerância ao encharcamento do solo e, portanto, não é indicada para áreas sujeitas a alagamentos, mesmo que temporários.

A BRS Tamani apresentou um desempenho individual dos animais de 808 gramas/animal/dia na estação chuvosa e 275 gramas/animal/dia na estação seca, sem suplementação, quando avaliada por dois anos no bioma Cerrado, em Planaltina-DF. O sistema de pastejo foi o alternado com ciclo de pastejo de 56 dias (28 dias de ocupação e 28 de descanso) e adubação nitrogenada variando de 100 kg a 150 kg N.ha-1 ano no período chuvoso. Seu florescimento precoce, no início de fevereiro, em Campo Grande-MS, confere outra vantagem que é a entrada no período seco ainda com alto valor nutritivo, pois as plantas continuam vegetando bem nessa época.

BRS Quênia

Em 2017, a Embrapa colocou no mercado a cultivar BRS Quênia, outro P. Maximum híbrido, resultado do cruzamento entre dois genótipos pré-selecionados realizado em 1992, em Campo Grande-MS. Essa cultivar vem para o mercado para suprir uma demanda por uma cultivar de P. Maximum de porte intermediário, alta produtividade e qualidade de forragem, com folhas macias e colmos tenros, alto perfilhamento e fácil manejo.

A BRS Quênia é uma opção para solos bem drenados de média a alta fertilidade, em todos os estados dos biomas Cerrados e Amazônia, com mais de 800 mm de pluviosidade anual e até seis meses de estação seca. A cultivar não é indicada para áreas sujeitas a alagamentos, mesmo que temporários, por apresentar baixa tolerância ao encharcamento do solo.

A cv. BRS Quênia é uma planta de porte médio com folhas longas, de largura estreita-média e glabras. Os colmos são finos e tenros. Seu grande destaque é a abundância de folhas de alto valor nutritivo aliada à alta produtividade. Isso resultou em ganhos em peso animal de 32,5 e 28,7 arrobas por hectare por ano, sem suplementação, em Campo Grande-MS e Rio Branco-AC, respectivamente.

Considerações finais

Ainda há muitas cultivares por vir, cada uma com vantagens específicas. A tendência é que sejam liberadas cultivares menos generalistas, ou seja, adaptadas às demandas específicas do setor produtivo. Em breve, a Embrapa colocará no mercado mais seis cultivares de forrageiras de outras espécies de gramíneas e leguminosas, visando à perfeita exploração da propriedade para que o pecuarista possa beneficiar sua terra e favorecer seu gado com lucros cada vez mais elevados.

Autores:

Liana Jank, doutora em melhoramento de plantas e pesquisadora na Embrapa Gado de Corte.
Mateus Figueiredo Santos, doutor em melhoramento de plantas e pesquisador na Embrapa Gado de Corte.
Cacilda Borges do Valle, doutora em melhoramento de plantas e pesquisadora na Embrapa Gado de Corte.
Sanzio Carvalho Barrios, doutor em melhoramento de plantas e pesquisadora na Embrapa Gado de Corte.

 

 

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2 respostas para “Novas cultivares de pastagem”

  1. Sou técnico agrícola, se for possível, me mande novidades sobre ração balanceada, para gado, vaca leiteira, obrigado tudo de bom.

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