Análise de solo, o início de tudo

O pasto é uma cultura e deve ser tratado como tal. Por isso o acompanhamento do solo e as correções durante todo o ciclo são essenciais para uma boa produção.

análise de solo

No texto “técnicas para calcular a produtividade das pastagens”, um leitor comentou, com muita propriedade, que parte dos pecuaristas se perdem logo no começo de tudo, iniciando a recuperação de suas pastagens sem fazer o mais importante, que é a análise de solo.

Dúvidas sobre esse tema são muito comuns, por isso, vamos mais a fundo nesta questão.

Fazer a análise de solo é sinônimo de economia e evita erros!

O corretivo e o fertilizante são remédios para o solo e para planta, porém, para que a recomendação do remédio da dosagem seja feita da forma correta, o agrônomo necessita da análise de solo. O uso de calcário e fertilizante feito de forma errada, por exemplo, podem piorar a situação do solo e a produção de gramínea forrageira, mas vamos iniciar pela coleta da amostra do solo.

1. Quando coletar?

A amostragem deve ser feita antes do início do revolvimento do solo, pois assim será obtido a real disponibilidade de nutrientes das diferentes camadas.

A amostragem pode ser feita em qualquer época do ano, tanto na época das chuvas como da seca, de preferência com antecedência suficiente para obter a recomendação das quantidades de corretivo e fertilizantes e transportá-los até a propriedade.

Lembrando que, em pastagem, não é necessário coletar amostra de solo anualmente como é feito na agricultura, mas se o uso da pastagem for intensivo e com alta taxa de lotação, aí sim é recomendável uma análise anual.

2. Qual a importância da análise física do solo?

Por meio da análise física do solo, podemos determinar se ele é arenoso, argiloso ou misto e, dependendo de como for, o técnico irá recomendar um tipo diferente de Fósforo, que pode ser mais ou menos solúvel.

Isso irá fazer uma grande diferença e proporcionar mais sucesso com a sua pastagem, portanto, não deixe de fazer.

3. Quais os locais ideais para a coleta?

Esse é um ponto muito importante, pois, se a coleta não for representativa, de nada adianta a análise.

Normalmente, não é recomendado coletar uma amostra de cada pasto, mas agrupá-las dependendo do tamanho da área, do tipo de solo e do capim usado.

Vamos imaginar uma propriedade com várias situações: uma chapada, uma parte com declividade e uma baixada. Ao menos, uma amostra de cada local desses seria recomendada nesse caso. Imagine uma propriedade com pastos formados com diferentes gramíneas como Brachiaria (brizantha e Marandu), Mombaça e Brachiaria Humidicola. Nesse caso, são três gramíneas com diferentes níveis de exigência de fertilidade de solo, portanto, recomenda-se a coleta de amostras das diferentes gramíneas.

Se na propriedade há solos diferentes quanto à cor e estrutura, o ideal é coletarde cada tipo de solo, ao menos, uma amostra. Mais adiante vamos comentar sobre a importância de conhecer o teor de argila do seu solo.

É possível encontrar em uma mesma fazenda áreas mais antigas e áreas de abertura mais recente; áreas que nunca receberam correção e áreas que já foram corrigidas; e, ainda, áreas que já foram de agricultura anteriormente. Nesse caso, cada situação específica também deverá ser coletada individualmente.

4. Mas tem que coletar de tudo?

Muita gente acha que deve coletar amostra somente da área que pretende intensificar. É até possível fazer somente dessa área, mas cabe ressaltar que o recomendado para um bom resultado é conhecer a fertilidade de toda a sua propriedade.

Sabendo como é a fertilidade de todas as áreas produtivas, será possível conhecer com maior clareza as áreas que necessitam ser intensificadas, além, é claro, de poder traçar um plano de recuperação e manutenção que evite futuras degradações. Portanto, mãos à obra!

5. Quais os cuidados que devem ser tomados?

A coleta de um pasto já formado demanda alguns cuidados sobre onde coletar. Isso é importante para que não tenhamos um resultado incorreto. Veja abaixo:

  • Nunca colete amostra de solo junto a resíduos de excremento bovino.
  • Evite coletar próximo aos trilheiros feitos pelo rebanho.
  • Evite coletar amostra de solo em locais nos quais o capim se encontra mais verde.
  • Evite coletar próximo a cupinzeiros ou buracos de tatu.
  • Nunca colete próximo a cochos de sal, bebedouros, árvores e malhadouros.

É muito importante, antes de abrir o buraco, limpar a superfície do solo e retirar resíduos de palhada do capim.

6. Qual a profundidade do solo a ser amostrado?

Normalmente, coletamos a amostra de 0 a 20 cm de profundidade.

Entretanto, quando já se tem na área uma pastagem implantada e a intenção é mantê-la, é importante saber se ela recebeu ou não algum tipo de fertilizante ou corretivo em cobertura nos últimos dois anos. Caso tenha recebido, deve-se realizar uma amostra de 0 a 5 cm e outra de 0 a 20 cm.

Isso se faz necessário, pois com certeza haverá algum resíduo da adubação ou correção realizada nesse período, que deverá estar em até 5 cm de profundidade. Na recomendação, deve-se sempre usar o teor mais elevado das duas análises.

A recomendação de 0 a 20 cm é básica, pois em 20 cm de solo teremos, aproximadamente, 70% do sistema radicular da gramínea. Podemos também realizar uma coleta de 20 a 40 cm de profundidade e teremos um solo mais pobre nessa camada, em que será necessário um investimento maior, caso tenhamos a pretensão de corrigir.

7. Quantos pontos de coleta devo fazer e como distribuir na área?

Bom, agora chegamos a um ponto importante e que gera alguma discussão. Existe um trabalho que mostra que em toda coleta existe um erro e que esse vai diminuindo à medida que coletamos mais pontos.

A partir de 17 pontos, o erro torna-se mínimo. Portanto, a recomendação é que sejam feitas, no mínimo, 17 subamostras para compor uma amostra.

Recomenda-se que seja feito um caminhamento em forma de zigue-zague, sempre evitando os pontos que citamos acima.

8. Quanto de terra devo enviar para o laboratório?

Feita a coleta dos 17 pontos, devemos homogeneizar a terra coletada e encher dois saquinhos com, aproximadamente, 400 gramas em cada um.

Escreva o nome da área coletada, fazenda, profundidade de coleta, gramínea existente – ou que será plantada – e se a área é de recuperação ou formação.

Uma das amostras você deverá encaminhar ao laboratório e a outra deve ser guardada como testemunha, pois, caso o resultado laboratorial venha fora do padrão, você terá a mesma terra para encaminhar a outro laboratório para conferir. Além disso, se ocorrer algum tipo de extravio, não será necessário coletar novamente.

9. Que tipo de análise deve ser solicitada ao laboratório?

Vamos considerar que você coletou dez amostras de solo. Selecione três dessas e solicite uma análise completa, ou seja, macronutrientes, micronutrientes e análise física do solo. Quanto às outras sete amostras, você solicita somente macronutrientes.

Não esqueça de informar ao laboratório que você quer também o enxofre e a matéria orgânica. Existem muitos laboratórios que só realizam essas duas análises quando solicitado e ambas são importantes.

10. Como escolher o laboratório?

Existem alguns programas de controle de qualidade feitos pela EMBRAPA e pelo IAC que avaliam a qualidade do laboratório e emitem um selo de qualidade. Procure verificar se o laboratório faz parte desse programa e se possui os selos. Essa informação pode ser facilmente encontrada tanto no documento de análise do solo como no site do laboratório.

11. Devo solicitar as análises com qual metodologia?

No Brasil, existem diversas metodologias de análise, sendo as mais usadas a Mehlich-1 e Resina, ambas muito eficientes. Um cuidado que deve ser tomado é em relação à interpretação e recomendação, pois os parâmetros mudam. O agrônomo que for realizar a interpretação deverá avaliar os dois parâmetros.

Leia também: Nitrogênio na adubação de pastagens no período das águas 

12. Por que a recomendação varia tanto?

Se a recomendação é feita pela fórmula correta, não existe variação, mas pode, sim, haver uma segunda recomendação que o técnico considere pertinente.

O tipo de calcário é um ponto muito importante em que se deve avaliar a relação Ca/Mg (relação Cálcio para Magnésio). Para pastagem, o recomendável é que ela esteja em 3/1. Dependendo dessa situação, pode-se optar por um calcário com mais ou com menos Cálcio.

13. Para que analisar os micronutrientes se raramente os aplicamos?

Para saber se eles estão em níveis de deficiência ou não.

Na agronomia, existe uma lei que se chama “Lei dos Mínimos”. Em resumo, ela nos diz que se existir algum nutriente ou micronutriente em níveis de deficiência, não importa que os demais estejam em níveis ótimos, a planta não irá produzir no seu máximo, pois ficará limitada ao que está em deficiência. Portanto, temos que avaliar todos os nutrientes.

14. Qual instrumento de coleta devo usar?

Existem diversos equipamentos de coleta: enxadão, cavadeira, trado, sonda, entre outros.

Não é necessário comprar um equipamento sofisticado para realizar a coleta, pois um bom enxadão ou uma cavadeira proporciona uma ótima amostragem.

O importante é você evitar contaminação, como já foi falado, e coletar de diversos pontos para compor uma amostra.

Comentários finais

Sabemos que a fertilidade do solo é um ponto fundamental para o sucesso da pecuária e de qualquer outra cultura. Também sabemos que o investimento em corretivos e fertilizantes é considerável e não pode ser desperdiçado, portanto, se o pecuarista pretende fazer, que seja dentro da técnica e com precisão.

O sucesso depende da atenção e do comprometimento do pecuarista com a operação.  O pasto é uma cultura e deve ser tratado como tal, portanto, vale a pena mensurar corretamente o fertilizante e o corretivo a serem utilizados, pois todos nós queremos e primamos pelo sucesso.

Autor: Wagner Pires, engenheiro agrônomo, pós-graduado em Pastagens pela ESALQ / USP. Consultor e CEO da Wagner Pires Consultoria & Treinamentos.

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