Aproveite a maré, mas com cautela

Perspectivas são boas, mas instabilidade política reforça a tradicional recomendação de uso de ferramentas de garantia de preços.

Autor: Alex Lopes, Zootecnista, Msc. em administração e consultor da Scot Consultoria.

As expectativas de mais de cem instituições relacionadas ao mercado financeiro do país, divulgadas regularmente pelo Boletim Focus do Banco Central, dão conta de que a recessão ficou para trás. Em termos conjunturais, isso é o que importa para o pecuarista, para o dono de frigorífico e para as empresas de insumos. Afinal, o preço da arroba é formado, em primeira análise, na indústria, de acordo com a venda de carne, que no Brasil é altamente dependente do mercado interno.

Em 2016, quando uma saca de milho valia mais de R$50,00, o boi magro valia R$2,1mil/cabeça e a conta do confinamento ficava difícil de fechar, faltou boi na entressafra, já que a boiada de cocho é a que “faz verão” para os frigoríficos no final do ano. E, mesmo assim, o preço da arroba caiu. A carcaça caiu de R$9,94/kg em setembro daquele ano para R$9,55/kg em novembro, quando o normal seria ter subido entre 5% e 10%, considerando o comportamento médio histórico. Isso pode explicar a queda da cotação da arroba do boi gordo.

Figura 1.
Preços do boi gordo, em R$/@ a prazo, em São Paulo.

Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br

Dito isso, as expectativas para o segundo semestre de 2018 são boas, porque a carne deve ter saída.

A cotação da carne no primeiro trimestre, foi decepcionante. Os preços despencavam mesmo com o país saindo das dificuldades econômicas.

Com os abates crescendo até 10%, dependendo da fonte consultada, não há demanda que aguente. Foi isso que aconteceu entre janeiro e março. As indústrias se prepararam para um cenário que não existiu. Mas foi só se adequarem à realidade que a esperança se tornou realidade. A carne não parou de subir desde abril.

Tabela 2.
Preço médio (R$/kg) da carne bovina, sem osso, em São Paulo.

Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br

A demanda, parece que dará força ao mercado no segundo semestre. Lá, teremos ainda o décimo terceiro e as bonificações, que estimulam sazonalmente o varejo, sem falar das eleições.

Segundo o histórico de preços da Scot Consultoria desde 2000, em anos de eleição a cotação da arroba do gordo subiu, no mínimo, 9,8% e, no máximo, 29,5%, entre maio e outubro.

O confinamento, outro determinante da conjuntura do segundo semestre, está incerto. A expectativa é de dificuldade para crescer frente a 2017.

Os Estados Unidos elevaram a taxa de juros nos primeiros meses do ano e sinalizam que essa política continuará. O barril de petróleo está nos maiores patamares de preço desde 2014 e a economia depende deste combustível fóssil. Os cortes de impostos ajudarão a economia a ganhar fôlego. Tudo isso gera inflação, que é combatida, controlada ou atenuada, com a elevação dos juros básicos.

Isso aumenta os rendimentos dos que compram títulos norte-americanos. É atrativo investir na maior e mais estável economia do mundo quando os prognósticos são de ganhos crescentes. O resultado é redução na oferta de dólares nos outros países, inclusive no Brasil. Assim, o câmbio sobe.

E a soja é precificada em dólares. Além disso, fica mais “barato” comprar commodities do Brasil, incentivando a demanda internacional. Aí tem a China, que se desentendeu com os Estados Unidos, que forneciam soja aos chineses, que por sua vez estão substituindo o fornecedor e encontram no Brasil uma alternativa.

Isso encarecerá o confinamento. Mas ainda tem o milho, que sofreu com os problemas climáticos na safra de inverno no Brasil e deve ser mais exportado, já que a Argentina, importante produtor, que abastece os estoques mundiais, também teve sua safra diminuída.

Isso justifica acreditar que pode haver dificuldade com o confinamento no segundo semestre.

Mas, diante de qualquer cenário, é bom regular o otimismo/pessimismo e não correr risco.

É importante lembrar que vivemos um ano de transição, do momento de inflexão de baixa do ciclo pecuário de preços para a alta, onde o cenário político é instável e abre espaço para imponderáveis, como a recente greve dos caminhoneiros, que fez todos os compradores de boi “saírem da atividade” por dias.

As ferramentas de trava de preços, mais uma vez revelaram-se importantes. Travar o preço mínimo está disponível para qualquer um.

Ao recriador, vale a pena trocar o estoque da fazenda e, quanto melhor vender a boiada, maior o poder de compra. Anos de alta de preços, como previsto para meados de 2019 e 2020, costumam atrapalhar quem precisa de reposição, já que as cotações destes animais costumam tomar a dianteira das valorizações.

Quanto melhor estiver a estrutura da fazenda – pastagem, operação financeira e tudo mais – mais animais caberão na propriedade, mais fácil será para aproveitar o momento interessante para compra e mais fácil será ganhar dinheiro nos próximos anos.

Em resumo, o segundo semestre deve ser “bom de preços”, mas os riscos existem. A gestão destes deve continuar norteando o negócio.

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