Como calcular a taxa de lotação das pastagens?

O cálculo da Taxa de Lotação auxilia no manejo do pasto, na estimativa da demanda por forragem e expressa o número de animais por unidade de área.

Imagem de um pasto.

Quando os bovinos consomem as forragens para sua manutenção e produção, tendem a trazer prejuízos para a planta (capim). Porém, quando alguns componentes são bem “dosados”, tais como lotação animal, massa de forragem, altura de entrada e saída dos animais das pastagens, tanto os animais como a pastagem podem ser beneficiados.                                                  

Assim, os princípios que norteiam a relação solo-planta-animal servem como pilares para a sustentabilidade do sistema de produção de bovinos em pastos. Nesse contexto, o cálculo correto da quantidade de animais por área é fundamental para o sucesso do sistema.

O estabelecimento inadequado das pastagens, a ausência de práticas de conservação de solo e sua compactação, a falta de reposição de nutrientes e o manejo inadequado são lembrados por Zimmer et al. (1994) como os principais fatores causadores da degradação das pastagens, comprometendo sua produção e qualidade nutricional.

Sendo assim, para o autor Blaser (1990), o manejo das pastagens e dos animais tem papel fundamental na produção e visa manter a população e a produtividade das espécies forrageiras; a adequação entre o rendimento e a qualidade do pasto, com base em pastejo controlado; o suprimento de nutrientes em conformidade com as exigências dos animais; e, o atendimento aos princípios do complexo solo-planta-animal-meio ambiente para a produção animal.

Dentre os índices que auxiliam na definição do manejo e no estabelecimento da demanda por alimentos, visando o bom aproveitamento das pastagens pelos animais, encontra-se a taxa de lotação (TL). Para Aguiar et al. (2006), o cálculo da TL auxilia no manejo do pasto, na estimativa da demanda por forragem para o planejamento da propriedade, e expressa o número de animais por unidade de área.

O método baseado na oferta de forragem por kg de peso vivo (PV) tem sido bastante usado para estimar a TL. Seu princípio leva em consideração a quantidade de forragem que deve estar disponível por 100 kg de PV, sendo considerados como adequados os valores de 7% a 12% (7 a 12 kg) para sistemas extensivos ou semi-intensivos e de 6% a 9% (6 a 9 kg) para sistemas intensivos.

Primeiro é necessário determinar a massa seca (MS) e a taxa de acúmulo (TA), para conhecermos o total de forragem disponível para os animais em um determinado período de ocupação, o que é resultado da soma da MS inicial e da acumulada.

Determinação da massa seca inicial (MSI)

A avaliação da massa seca de forragem, ou seja, quanto tem de capim disponível na área em termos de matéria seca, é feita pelo corte da forragem compreendida por uma moldura, ao nível do solo, em diversos pontos de amostragem do piquete. Para isso, pode-se usar uma armação de madeira ou metal, com área conhecida (método do quadrado) e fazer a coleta do capim existente na área.

Para condições de forragem uniforme (padrão homogêneo de crescimento), recomendamos a coleta das informações em cinco pontos de amostragem diferentes a cada 10 hectares de área de pastagem. Para obter o percentual de matéria seca da forragem, é necessário submeter as amostras à secagem em estufa ventilada a 65°C ou, de forma mais prática, usando um forno micro-ondas, conforme explicam os autores Raposo et al. (2015).

Capim - foto blog Pasto Extraordinário

A metodologia para esse processo é a seguinte:

  • Pesar o prato de papelão e anotar o valor.
  • Colocar cerca de 300 g de amostra de capim picado.
  • Colocar um copo de água quase cheio (3/4) no fundo do micro-ondas para evitar danos durante o uso do aparelho.
  • Programar o tempo do micro-ondas para 5 minutos na potência máxima (100%) do aparelho.
  • Após 5 minutos, retirar o prato, pesar novamente e anotar o valor. Revirar o material do prato, tomando o cuidado para não perder nada da amostra.
  • Ajustar o tempo para mais 3 minutos na mesma potência. Retirar, pesar e anotar novamente.
  • Continuar com intervalos de 1 minuto de secagem, sempre revirando a amostra, até que o peso seja constante.

Entretanto, apenas para exercício de campo pode-se usar valores entre 25% a 35% de MS das gramíneas do gênero Brachiaria, dependendo do estágio vegetativo e da época do ano.

Para efeito de exemplo, consideremos como 1.500 kg o valor de nossa MSI.

Determinação da massa seca acumulada (MSA)

Segundo Martha Júnior et al. (2003), para a determinação da massa seca acumulada, são necessárias avaliações repetidas no tempo, corrigindo-se o consumo animal durante o período por meio do uso de gaiolas de exclusão* de área conhecida ou por meio de diferenças de massa entre a data de entrada e de saída dos animais, através da Equação A:

Equação A:
Considere que:
• MFT1 = Massa seca de forragem pós-pastejo medida no tempo 1
• MFT2 = Massa seca de forragem pré-pastejo medida no tempo 2
• T2 = Data inicial (pré-pastejo)
• T1 = Data final (pós-pastejo)

A fórmula, então, seria a seguinte:

Taxa de acúmulo = (MFT2 – MFT1) / (T2 – T1)

Em razão da dificuldade inicial de obtenção desses dados, sugerimos utilizar dados conhecidos e publicados na literatura, ressalvando os devidos cuidados e as características ambientais do local (espécie forrageira, clima, fertilidade do solo, relevo, etc.), como, por exemplo, no trabalho de Teixeira et al. (2011), considerando a Brachiaria decumbens com 71,02 kg de MS/dia no verão e 8,41 kg de MS/dia na seca.

Considerando:
Período de ocupação de 20 dias;
TA média entre os valores citados – 39,71, teremos:
MSA = 39,71 x 20 = 794,2 kg de MS

Determinação da massa seca total (MST)

 A MST é resultado da soma da Massa seca inicial (MSI) com a Massa seca acumulada (MSA), sendo então:

 MST = 1.500 + 794,2 = 2.294,2 kg de MST

Com a informação da MST, é possível estimar a TL aplicando-se as equações B, C e D, conforme Paladines e Lascano (1982) e citado por Martha Júnior et al. (2003). A seguir um exemplo:

  • MST por hectare – 2.294,2 kg
  • Área do pasto – 50 hectares
  • Dias de ocupação – 20 dias
  • Oferta de forragem – 10%
  • Peso vivo médio dos animais – 300 kg

Assim, nesse caso, teremos:

Equação B:
PV/dia = (MS de forragem x Área do pasto x 100) / (Dias de ocupação x Oferta de forragem);
(2.294,2 x 50 x 100) / (20 x 10), ou seja:
PV / dia = 57.355 kg para uma área de 50 hectares ou 1.147,1 kg por hectare

A partir desse valor, aplica-se a Equação C para conhecermos a TL em animal/hectare:

Equação C:
TL (animal/hectare) = (kg PV) / (Peso vivo médio do lote)
(1.147,1 / 300) = 3,8 animais de 300 kg por hectare

No caso de desejar calcular a TL em unidade animal (UA) de 450 kg, utiliza-se a Equação D em substituição à Equação C:

Equação D:
TL (UA/hectare) = (kg PV) / (450 kg)
(1.147,1 / 450) = 2,5 UA por hectare

Para entendermos o resultado acima, podemos fazer as seguintes suposições:

  • Em nossa área, estão sendo adicionados 39,71 kg de MS por hectare.
  • Na Equação C, encontramos o valor de 3,8 animais de 300 kg por hectare.

Caso os animais estejam consumindo 2,0% do seu PV de MS por dia (6,0 kg), o consumo estimado diário de MS por hectare será de 22,8 kg, inferior ao volume produzido sugerido acima, não comprometendo a oferta de forragem ao longo do período, o que provavelmente permitirá oportunidade de seleção do capim (pelo animal) maior do que o esperado inicialmente.

Entretanto, se os valores estimados de MSA fossem da ordem de 8,41 kg de MS ao dia (período da seca), haveria excesso de animais, redução da oferta e prejuízos às pastagens e ao desempenho animal. Nesse caso, novas estimativas devem ser feitas, o que levaria a um ajuste da TL, que iria para 2,78 animais por hectare.

Conclusões

O cálculo da TL deve ser considerado como uma ferramenta a ser aplicada nas estratégias de manejo das pastagens e de movimentação dos animais na propriedade.

O importante é que os dados, quando associados a outras medidas – como ganho de peso individual, produção de kg de PV por hectare, produtividade de massa de forragem ao longo do ano –, permitirão a construção de um banco de dados que será capaz de orientar o produtor sobre as oportunidades de uso de suas pastagens, auxiliando no fluxo de entrada e saída de animais da propriedade, na necessidade de recuperação e/ou adubação de pastagens, entre outras.

*Gaiolas de exclusão: gaiolas de metal com volume conhecido utilizadas para medir o acúmulo de forragem em determinado período, que é a diferença entre a quantidade de massa de forragem no início do período e a massa de forragem dentro da gaiola.

Autores: 
Luiz Orcirio Fialho de Oliveira – Pesquisador – Nutrição Animal, Embrapa Gado de Corte. Possui graduação em Agronomia (UFV, 1985) e em Medicina Veterinária (UFMS, 1997), doutorado em Ciência Animal (UFMG, 2005).

Luana Silva Caramalac – Possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 

 

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