Como garantir o preço de venda da boiada

Dentre os fatores envolvidos no resultado da pecuária, o risco de mercado pode ser limitado com o uso de ferramentas de garantia de preços.

Autor: Hyberville Neto, Médico veterinário, Msc. em administração de organizações

Buscar a eficiência na propriedade é fundamental. Por outro lado, mesmo com meses de busca por produtividade, diluição de custos e ajuste fino da produção, um solavanco do mercado pode espremer ou mesmo extinguir o lucro.

Aí entra a importância do uso de seguros de preços, para garantir que o trabalho não vá se perder por causa de um embargo, uma delação premiada ou outro susto. Em geral, há três maneiras de garantir o preço de venda das boiadas.

 

Contratos futuros

Nesta modalidade, o produtor acessa a bolsa (B3) por meio de uma corretora para vender contratos futuros de boi gordo, para o mês no qual pretende entregar as boiadas.

Este tipo é o que demanda mais conhecimento e acompanhamento do produtor, embora muitas corretoras possam realizar esse serviço de acompanhamento.

Neste caso, o produtor vende contratos futuros de boi gordo. Caso o mercado ceda, ele recebe a diferença entre o preço travado e a cotação no vencimento do contrato (que também deve ser a época da venda da boiada). Isso ocorre com base nas cotações em São Paulo (Indicador CEPEA).

Um ponto importante é a necessidade de que o produtor possua um montante na corretora, como margem de garantia, para ajustes diários, caso o mercado suba na B3.

Nesta modalidade, a menos que o produtor reverta a operação, ele terá que pagar o quanto o mercado subiu acima do preço travado. Por outro lado, seus bois também se valorizarão, então, na prática, ele venderá por um preço acima, mas os ajustes tirarão a valorização. Ou seja, ele terá ao final o valor originalmente travado.

Aqui temos a ressalva de que os preços têm como referência São Paulo e os ajustes ocorrerão com base nesta praça. Se na região na qual ele vai efetivamente vender o gado o preço ceder mais no intervalo, ou seja, o diferencial aumentar, ele não estará completamente protegido.

Exemplo, se o produtor vendeu contratos futuros em quantidade equivalente ao gado que ele pretende entregar na época, por R$150,00/@, ele trava este preço.

Se o mercado subir R$10,00/@, ele receberá cerca de R$160,00/@ na negociação com o frigorífico (com possibilidade de valores acima ou abaixo da referência), mas terá pago R$10,00/@ de ajuste, tendo os R$150,00/@ travados como saldo da operação.

Para outras praças, a mecânica com a B3 é a mesma, mas como os valores têm como referência São Paulo, há o risco de ocorrer uma queda maior na sua região. Este risco é o chamado de risco de base, que é a possibilidade de que as cotações caiam mais na sua região frente aos preços em São Paulo (base).

Analogamente, também é possível que o mercado na região não ceda tanto como em São Paulo e ele receba mais que o planejado inicialmente.

Mercado de opções

Outra possibilidade, que também é feita por meio de uma corretora, é a compra de uma opção de venda de contratos futuros de boi gordo. Neste caso, o pecuarista compra uma put (opção de venda), que garante um preço mínimo.

Se o mercado subir, o produtor ganha com a alta, porque a opção o garante contra quedas, mas não há desembolsos caso o mercado suba, como ocorre com a venda de contratos de boi gordo.

Com isso, não há perda do poder de compra de reposição pelo produtor, se o mercado decolar. Por outro lado, se o mercado ceder, ele garantiu um preço mínimo.

O ponto negativo é que há o desembolso no momento da compra da opção, assim como um seguro. Ela é comprada e, se houver necessidade, é usada. Se não for usada, houve um custo.

Como elas são opções relacionadas aos contratos futuros, também são preços de São Paulo, com margem para movimentações um pouco distintas, a depender da praça em questão.

 

Termo

A negociação das boiadas a termo é a forma mais simples de garantir os preços de venda. É feita diretamente com o frigorífico, como a venda comum, no mercado spot, mas com maior antecedência.

Entre os pontos positivos podemos destacar a possibilidade de negociação do diferencial de base para negócios feitos fora de São Paulo, enquanto quando o pecuarista usa a B3 (mercado de opções ou contratos futuros) ele ainda fica sujeito ao risco de base, citado anteriormente.

Outro ponto importante é a escala de abate. Uma vez que o negócio já foi fechado, tanto o pecuarista, como o frigorífico se programam para o abate dos lotes. Nos casos anteriores, o produtor precisa sair ao mercado para a venda da boiada e a negociação na B3 o garante apenas contra as variações indesejadas.

Há o ponto de que em anos de muito gado negociado a termo, os frigoríficos, com parte importante da escala já garantida, podem pressionar as cotações para a aquisição do gado “que falta”, uma vez que é uma parcela menor.

Realmente este movimento é observado em algumas situações, mas não afeta o produtor que optou por travar as cotações.

Há algumas variações do termo, como o de preço mínimo, no qual há garantia de um piso a ser recebido pela arroba, mas um custo para o produtor, que normalmente é descontado no pagamento das boiadas. Na prática, o frigorífico usa o mercado de opções e faz a operação para o produtor, descontando o custo destas.

As possibilidades devem ser checadas com os frigoríficos da região, uma vez que em alguns momentos, como em 2017, as indústrias não disponibilizaram o termo de preço fixo em boa parte do ano.

 

Consideração final

Em 2015 e 2016 surgiram oportunidades de trava de cerca de R$10,00 a R$15,00 a mais por arroba, frente à cotação observada no mercado físico. Com boiadas de 20@, isto representa R$200,00 a R$300,00 a mais por bovino.

No caso de 2017, a vantagem teria sido passar pela turbulência com preços travados.

Busque sempre otimizar a produção, mas não deixe de garantir uma remuneração mínima para o esforço produtivo usando as ferramentas disponíveis.

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