Seu vizinho está comprando mais e isso é bom para o seu bolso

Ficar por dentro da economia do país e acompanhar os indicadores de consumo permitem uma análise do potencial das vendas no varejo e o planejamento estratégico da atividade, com base na demanda esperada.

Consumo de carne bovina no Brasil - Seu vizinho está comprando mais e isso é bom para o seu bolso

Com a crise econômica no Brasil, a demanda interna de maneira geral foi bastante prejudicada e os mercados agropecuários sentiram os efeitos dessa queda do consumo, que se refletiu em dificuldades de evolução dos preços, por exemplo, da carne bovina. A intenção de consumo, bem como outros indicadores econômicos, vem melhorando desde meados de 2017, o que é favorável e deverá pesar positivamente no mercado do boi esse ano.

Alguns indicadores funcionam como termômetros para medir a intenção de compras das famílias brasileiras e a evolução das vendas no varejo. Para quem produz e vende boi para abate, essas informações são úteis e ajudam no planejamento da atividade, com base no consumo. Diante disso, a previsão de retomada do crescimento da economia brasileira em 2019 é um ponto positivo para o setor de carnes de maneira geral.

O PIB (Produto Interno Bruto) é a soma de todos os bens e serviços feitos no país e mede o desempenho da economia brasileira. Segundo o Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do Brasil em 2017 foi de R$ 6,6 trilhões, em valores correntes. Isso significa um crescimento de 1,0% na comparação anual.

O resultado mostra que a economia brasileira começou a se recuperar em 2017, mas ainda não repõe as perdas decorrentes da recessão. Lembrando que, em 2015 e em 2016, o PIB recuou 3,5% e 3,3%, respectivamente, sobre o ano anterior (recessão). Foram os dois anos de maior tombo na história econômica do país.

Pode parecer que essas informações são distantes da realidade do pecuarista e não alteram o dia a dia dentro da porteira, mas a verdade é outra.

Em primeiro lugar, porque o agronegócio foi o setor com melhor desempenho na economia em 2017, sendo o grande impulsionador do crescimento do PIB de 1,0% na comparação anual. Naquele ano, a agropecuária cresceu 13%. Ou seja, em meio às dificuldades vividas pelo país, o setor conseguiu se sobressair, diferentemente dos segmentos “serviços” (+0,3%) e “indústrias” (0%).

Segundo, porque com a economia crescendo, diminui o número de desempregados, aumentam os investimentos e a confiança do mercado interno melhora. Todos esses fatores resultam em aumento do consumo, incluindo a carne bovina.

Para o setor da agropecuária, quando o frigorífico consegue vender mais carne, aumenta a procura por boi gordo e, mercadologicamente falando, o aumento de demanda gera aumento de preço.

Portanto, acompanhar os passos da economia do país dá uma boa ideia do potencial de resultado que a produção entregará e permite a elaboração mais precisa do planejamento estratégico da atividade.

Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF)

Para ajudar nas projeções, alguns indicadores monitoram o sentimento dos consumidores. Um deles é a Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) da Confederação Nacional do Comércio (CNC), composta por sete itens, sendo:

Quatro deles (emprego atual, renda atual, acesso ao crédito e nível de consumo atual) comparam a expectativa do consumidor em relação ao mesmo período do ano anterior. Os outros três itens são: perspectivas de melhoria profissional, expectativas de consumo e avaliação do momento atual quanto à aquisição de bens duráveis.

O consumo depende da renda (capacidade) e também das perspectivas futuras da economia (predisposição). Mais otimismo e confiança quanto ao futuro geram aumento nos gastos, enquanto mais pessimismo e insegurança geram contenção de gastos.

Na tabela 1, são apresentados os itens que compõem a Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias e as variações desse indicador na comparação anual e mensal. Tomando como exemplo o item “acesso ao crédito”, houve variação positiva de 8,4% em novembro de 2018, em relação ao mesmo mês no ano anterior, e incremento de 1,2% frente a outubro de 2018.

Tabela 1

Variação dos subindicadores da pesquisa de ICF (2018). Referência: novembro/18.

Itens do ICF

Anual

Mensal

Nível de consumo atual

23,9%

2,5%

Perspectiva de consumo

12,2%

3,4%

Renda atual

9,9%

0,2%

Acesso ao crédito

8,4%

1,2%

Momento para duráveis

6,2%

0,2%

Perspectiva profissional

5,9%

1,0%

Emprego atual

4,0%

-0,3%

Fonte: CNC / Scot Consultoria

Observe que, no geral, os subindicadores do índice ilustram que as famílias estão consumindo mais em relação ao ano passado, tendo em vista a melhora de 23,9% no nível de consumo em 2018. Já a figura 1 apresenta o ICF total e sua variação ano após ano.   

Figura 1
Evolução do Índice de Consumo das Famílias (ICF) e sua variação anual.

Fonte: CNC, elaborado por Scot Consultoria

Conforme ilustrado no gráfico, em 2015 e 2016, a crise atingiu o bolso da população e o índice de consumo foi o pior desde o início da série histórica analisada (janeiro de 2011). Quedas na produção e nos salários, altas taxas de desemprego, de inflação e outros inúmeros fatores abalaram a economia do Brasil.

A partir de 2017, algumas políticas macroeconômicas foram revistas pelo governo de transição, e medidas como a PEC dos gastos públicos ajudaram a trazer fôlego novamente.

Por mais que, atualmente, o índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) esteja bem abaixo dos valores observados na primeira metade desta década, de 2017 para cá, já são 21 meses consecutivos de variações positivas. Isso demonstra que, após um período turbulento, os consumidores voltaram a ter confiança e perspectivas positivas quanto os rumos econômicos do país. Portanto, em longo prazo, de acordo com a tendência projetada no índice, o rumo para a economia é de recuperação.

Voltando para a tabela 1 e analisando o cenário em curto prazo, os componentes do indicador que tiveram a maior melhoria em novembro, comparado com outubro, foram: perspectiva de consumo e nível de consumo atual.

Isso está relacionado ao fato de as famílias reconhecerem que a conjuntura melhorou e também ao acréscimo na renda com o recebimento de décimo terceiro salário, férias, bonificações e todos os outros fatores que ajudam a aquecer o consumo no fim do ano. Apesar das questões sazonais, de um modo geral, o indicador está em recuperação desde junho de 2016.

Esses índices não são aplicados exclusivamente para a carne bovina, mas ajudam a clarear o cenário para o pecuarista. Inclusive já é possível perceber valorizações nos preços dos cortes vendidos pelas indústrias e na expectativa de aumento da demanda típica de fim de ano. Cortes como a picanha, por exemplo, acumularam valorização de 13% ao longo do acumulado de novembro de 2018.

Os dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) ajudam a consolidar essas expectativas. De acordo com a Associação, o Índice Nacional de Vendas envolve aproximadamente 100 empresas de supermercados, que possuem de mais de 2.800 lojas e representam aproximadamente 60% das vendas totais do setor varejista no Brasil.

Em outubro de 2018, as vendas do setor supermercadista em valores reais apresentaram alta de 0,45% na comparação com setembro. No acumulado do ano, as vendas cresceram 1,90%. Para uma comparação, em outubro de 2017, o índice apresentou queda de -0,6%, frente a setembro do mesmo ano, e subiu 0,9% no acumulado de janeiro a outubro.

A figura 2 ilustra a série história do Índice desde 2012. Os valores atuais estão abaixo dos praticados no período pré-crise (2012-2014), mas acima dos vales observados ao longo de 2015 e 2016. Ou seja, ao que parece, o pior já ficou para trás.

Figura 2
Índice Nacional de Vendas no varejo (12 meses), em %.

Figura 2 - Índice Nacional de Vendas no varejo (12 meses), em %
Fonte: ABRAS | Compilado pela Scot Consultoria

Por fim, ficar atento aos indicadores de consumo pode ajudar no entendimento do mercado com relação às expectativas de vendas na ponta final da cadeia (varejo), principalmente em uma situação de retomada do crescimento do país. Para 2019, as expectativas são positivas, de maior movimentação também no mercado de carne bovina.

Autora: Marina Zaia – Médica-Veterinária

 

 

 

Clique e leia a matéria completa

Tags

Compartilhe nas suas Redes Sociais:

Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos e personalizados

Cadastro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*