“O agronegócio não é para amadores, foi feito para profissionais.”

A frase de Mônika Bergamaschi, que acumula um extenso currículo à frente de diversas entidades, é um desafio para quem atua no setor. Confira a opinião dela sobre as oportunidades desse mercado.

agronegócio

Conversamos com a engenheira agrônoma Mônika Bergamaschi, que já foi considerada, pela revista Forbes, a mulher mais influente do agronegócio e que recentemente assumiu mais um desafio, a presidência do LIDE Agronegócio (Grupo de Líderes Empresariais). Ela falou sobre o cenário do setor no Brasil, além de seus principais desafios e oportunidades à frente da entidade. Confira!

Qual a sua avaliação sobre o cenário atual do agronegócio brasileiro?
Mônika: O agronegócio é o maior e mais dinâmico setor da economia brasileira. É o que mais gera e mantém empregos, o que mais contribui para os bons resultados da balança comercial e a principal vocação do país. Em virtude das dimensões continentais e da diversidade das cadeias produtivas, é impossível fazer uma análise única. Dá para afirmar que a confiança dos agentes que atuam no setor está melhorando, e isso tem reflexos positivos nos investimentos de alguns segmentos.

Por exemplo, na cadeia dos grãos, a safra passada foi recorde, e os preços animadores. A deste ano, apesar de ter sido um pouco menor, manteve preços interessantes. Os agricultores estão incorporando tecnologias, melhorando a gestão e ganhando em produtividade. Mas é preciso atenção à guerra comercial entre EUA e China. Os mercados de milho e soja serão afetados. Pode estar configurada uma grande oportunidade para a soja brasileira, pois a China está deixando de comprar dos EUA, mas, ainda assim, carregada de incertezas sobre a manutenção da política entre as duas superpotências.

Já o setor sucroenergético vem sofrendo, há praticamente dez anos, com uma infinidade de problemas. Interferências políticas nos preços que trouxeram prejuízos à Petrobras e destruíram dezenas de usinas no Brasil, desempregando milhares de pessoas; a ausência de uma política interna de biocombustíveis; sucessivos problemas climáticos, queda de rentabilidade, de produtividade por incapacidade de investir, além de questões relacionadas ao cenário internacional, como o dólar, o petróleo, o gás de xisto, para citar alguns. Mas o futuro continua promissor. O Renovabio, em fase de regulamentação, deverá devolver confiança para novos investimentos.

No segmento das carnes, as questões sanitárias, desde a operação “Carne Fraca”, estão sob xeque no Brasil. Além da carne bovina, os respingos na avicultura e na suinocultura, principalmente, têm sido bastante negativos.

Isso sem mencionar os maiores gargalos, ligados ao Custo Brasil, que derrubam a competitividade do agronegócio brasileiro: deficiências logísticas, ausência de políticas públicas, legislações ultrapassadas, falta de crédito e de seguro, carga tributária etc.

E qual a sua expectativa sobre a inovação e sustentabilidade no agronegócio para os próximos anos?
Mônika: A sustentabilidade está alicerçada no tripé econômico, social e ambiental. Não existe só sustentabilidade econômica, só social ou só a ambiental. Para que esse tripé se equilibre, são necessários investimentos em novas tecnologias, e o Brasil precisa aumentar sua produtividade, inclusive a do trabalho, e ganhar eficiência nas searas tributária, fiscal, jurídica, de abertura de novos mercados e educação.

O agronegócio não é para amadores, foi feito para profissionais. Então, a sustentabilidade na parte econômica é aquela sem a qual a empresa não consegue se manter viva para investir nas outras duas. A social envolve, também, questões trabalhistas, mas isso é dever. Acima de tudo deve estar o relacionamento da empresa com os seus empregados, com as comunidades do entorno, com toda a sociedade. E ambiental, que é muito complexa e desperta grandes paixões e ideologias, nem sempre acompanhadas do desejável bom senso.

A sustentabilidade não é uma coisa que o empresário decide ter ou não ter. É, sim, a regra a seguir para os que quiserem se manter no setor. É um processo de melhoramento contínuo, e para isso são fundamentais a inovação, o desenvolvimento tecnológico, o aprimoramento do aparato legislativo, a melhor organização privada, reformas estruturantes e um bom programa institucional para revelar a real imagem do agronegócio.

Como essa tecnologia pode chegar ao produtor?
Mônika: Os grandes produtores têm meios para encontrar as novas tecnologias. Já os pequenos precisam se organizar em associações ou cooperativas e buscar coletivamente conhecer e incorporar as novas tecnologias. O não investimento significa impossibilidade de permanência na atividade.

O Brasil possui empresas do agro que já aderiram à agricultura 4.0. Se por um lado, a internet das coisas é uma realidade no campo, por outro, milhares de agricultores sequer fazem uso da calagem de forma adequada.

Os investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico estão muito aquém do necessário. A agricultura tropical diverge sobremaneira da praticada nos países de clima temperado, e o país será tanto melhor quanto maior for a sua capacidade de investir e desenvolver tecnologias apropriadas, e não meramente adaptadas. Outro ponto é o serviço público de extensão rural, que na maioria dos estados está sucateado, ou nunca existiu. É utopia acreditar que o Estado será provedor desse tipo de serviço. Essa função caberá ao setor privado.

Como foi ser reconhecida pela revista Forbes como a mulher mais influente do agronegócio?
Mônika: Foi uma grande surpresa. Assim como o título de engenheiro agrônomo do ano, de profissional mulher da engenharia e de outras homenagens que recebi. Todas injetam ânimo na vida e fazem seguir adiante.

Qual é a sua expectativa em relação à presidência do LIDE Agronegócio e o que você pretende realizar?
Mônika: O LIDE Agronegócio já tem 7 anos. Pretendo dar continuidade ao trabalho extraordinário feito pelo Roberto Rodrigues, que presidiu esse segmento desde que foi criado. E inserir cada vez mais o agronegócio nas pautas dos outros segmentos do LIDE, no Brasil e fora, por entender que tudo está interligado.  

A ideia é seguir mostrando o que é o agronegócio brasileiro, a potência que ele tem, o quão sustentável ele é, o que é uma oportunidade extraordinária para que as pessoas conheçam, entendam melhor e valorizem. Discutir também os problemas internos, e buscar soluções para que o agronegócio ocupe o lugar de destaque que merece. O sucesso do agro brasileiro representa, trocando em miúdos, maior capacidade de investimentos em qualidade de vida para a sociedade brasileira: saúde, educação, segurança, transporte e outros serviços. É o melhor negócio do Brasil, e todos fazem parte dele, só não têm consciência ainda, e é isso que está faltando no Brasil.

De todas as suas experiências profissionais, teve alguma que marcou mais? E por quê?
Mônika: Todas marcaram muito, e todas tiveram importância na formatação da minha carreira e no ser que sou. Na Associação Brasileira do Agronegócio da região de Ribeirão Preto (ABAG/RP), o trabalho desenvolvido é muito interessante e está alicerçado na conjunção educação e comunicação, com o objetivo de difundir o agronegócio. Trabalhamos também na modernização da legislação ambiental. 

Foi na ABAG/RP que tiveram início, em 2001, as discussões sobre a necessidade de rever o Código Florestal e de colocar a luz da ciência sobre o tema. Atualmente, um dos focos do trabalho é a política de uso dos recursos hídricos. A ABAG/RP (Associação Brasileira do Agronegócio da região de Ribeirão Preto) tem 18 anos, e fiquei ausente de 2011 a 2014, quando estive na SAASP (Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), e desenvolve um trabalho estruturante maravilhoso, o Programa Educacional Agronegócio na Escola, que já atendeu mais de 238 mil alunos, uma das ações mais edificantes das quais já tive o privilégio de participar.

O IBISA (Instituto Brasileiro para Inovação e Sustentabilidade do Agronegócio) é muito mais jovem, mas com desafios igualmente relevantes, como a reforma da legislação trabalhista rural, a promoção da inovação e o aprimoramento da sustentabilidade. O LIDE Agronegócio é ainda muito recente para mim. Esses são os três grandes desafios. Parece muito, e é. E, evidentemente, tudo o que foi feito e tudo o que será feito tem o apoio de parceiros, de associados, de equipes de trabalho e colegas de jornada, aos quais cabem todos os agradecimentos e as melhores homenagens.

Quem é Mônika Bergamaschi
Engenheira agrônoma, graduada pela UNESP de Jaboticabal, mestre em engenharia de produção agroindustrial pela Universidade Federal de São Carlos, com MBA em gestão de empresas pela Fundace/USP. Mônika é a atual presidente do Conselho Diretor da ABAG/RP (Associação Brasileira do Agronegócio da região de Ribeirão Preto) e presidente executiva do IBISA (Instituto Brasileiro para Inovação e Sustentabilidade do Agronegócio). Em função dessa experiência, foi convidada recentemente para assumir também a presidência do LIDE Agronegócios. Em 2005, foi eleita pela Revista Forbes a mulher mais influente do setor de agronegócio.


As opiniões expressas aqui são de única e total responsabilidade do(a) entrevistado(a) ou autor(a), não refletindo as opiniões do Pasto Extraordinário ou de seus parceiros. 

Compartilhe

11 respostas para ““O agronegócio não é para amadores, foi feito para profissionais.””

  1. O agronegócio é sem dúvida a força motriz desta potencia chamada Brasil! Parabéns Mônica e fico feliz de vc ter sua base Universitária em minha terra natal: Jaboticabal.

  2. Com tecnología todo sem tecnología nada. Felicitaciones pela manera que enfoca agro-negocios, especialmente num pais como Brasil que se perfila como nación potencia del mundo en un futuro próximo.
    Cesar

    1. Olá Cesar, tudo bem? ? Ficamos felizes que você tenha gostado do nosso conteúdo. Continue nos acompanhando para mais informações sobre o universo da pecuária.

    1. Que bom que você gostou da matéria, Elza. Você também é pecuarista? ? Nos envie uma mensagem privada no Facebook mencionando do que se trata e um telefone para contato. Encaminharemos sua mensagem para a assessoria de imprensa da Mônika.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*