Nunca podemos desperdiçar uma boa crise!

A crise para que tem uma gestão de custos, pode ser uma oportunidade.

Victor Campanelli
Fazenda: Confinamento Santa Rosa

Município: Altair-SP
Rebanho: Terminação de 55 mil cabeças por ano

Tamanho da propriedade: 10 mil hectares

Como o senhor entrou para o ramo da pecuária de corte?

Era um negócio que já era da família, a família atuava com mais intensidade na agricultura, mas, nos últimos anos, nós estamos investindo mais na pecuária de corte e a pecuária vem se tornando cada vez mais importante no faturamento do grupo. No caso, eu sou diretor executivo da empresa Agro Pastoril Paschoal Campanelli, que é uma empresa familiar que trabalha com agricultura e pecuária, onde meu pai é o da empresa.

Eu tive também experiência fora da empresa, porém, desde 2005 eu me dedico totalmente à Agro Pastoril Paschoal Campanelli.

Quais eram as principais dificuldades quando começou a atuar nesse ramo? E quais as principais dificuldades hoje em dia?

Tanto na agricultura quanto na pecuária sempre existem desafios. Mexemos com commodity e tentamos ao máximo “descomoditizar” o nosso produto, o que não é fácil, por que existe volatilidade de preço. Mas, na verdade, os desafios aparecem como em qualquer outro negócio, você tem que tentar ser cada vez mais eficiente. A agropecuária é uma atividade desafiadora, e a verdade é uma só, você tem que tentar ganhar produtividade. A produção é algo que nos preocupa muito e tentamos melhorar a nossa a cada dia, sendo cada vez mais eficientes.

O senhor sempre utilizou as ferramentas que o mercado disponibiliza?

Antes de trabalhar na Agro Pastoril eu atuei durante sete anos no mercado financeiro, onde tive a oportunidade de atuar em quatro diferentes corretoras, trabalhei em trading, e essas experiências foram para mim como uma escola onde aprendi a usar as ferramentas de mercado para defender a produção. Foi uma boa escola. Porém, quando eu entrei para a Agro Pastoril, a administração já utilizava esses tipos de ferramentas, de uma maneira mais modesta.

De forma geral, meu pai, e a administração da fazenda, sempre utilizaram as ferramentas de risco. Entretanto, como eu atuei no mercado financeiro antes de entrar de cabeça na Agro Pastoril, hoje, graças ao meu know how um pouco maior, nós utilizamos essas ferramentas com maior intensidade.

Quais ferramentas o senhor costuma mais usar?

Depende muito, eu uso desde compra de put (opções)… faço compra de put com venda de call, dependendo do momento, para a venda de call ajudar a financiar a compra da put, e a gente ficar dentro de um preço mínimo e de um preço máximo, para aquele mercado/negócio. Faço venda direta no mercado futuro, ou seja, vendo contrato futuro direto. Aí você tem que ter margem, tem que pagar ajuste, mas também é um negócio. Fazemos negócios a termo com frigorífico. Enfim, procuramos utilizar todas as ferramentas disponíveis no mercado. É necessário apenas saber qual a melhor ferramenta para aquele determinado momento.

E nesse 2017 turbulento, qual foi a estratégia que vocês têm adotado até o momento? 

No ano de 2016, nós estávamos 100% travados, 100% mesmo! Aproveitamos aquela alta que deu em 2016, onde o preço chegou próximo de R$170,00/@, vendemos muito no mercado futuro. Por incrível que pareça, em 2016, como nós tínhamos hedge de boi, foi o melhor ano de nossa história na pecuária. Enquanto muita gente ficou prejudicado por ter comprado insumos caros e depois ter que vender o boi “barato”, nós surfamos uma onda magnífica no ano passado porque estávamos muito bem posicionados, tanto em insumos quanto em hedge.

Já em 2017, nós tínhamos uma leitura quanto ao ciclo pecuário onde o preço do boi daria uma “sentida”, e nós ficamos fazendo conta para comprar boi magro. Mas, acho que assim como todo mundo, nós não estávamos esperando por essa catástrofe que aconteceu. Ela não nos pegou “totalmente” desprevenidos, mas a gente também não estava 100% protegido como estávamos em 2016. Tínhamos uma visão de que o mercado estava com uma perspectiva de baixa, porém, não tivemos a leitura prévia dos escândalos que ocorreram. Não tinha como sabermos.

Foram eventualidades que, quem tivesse proteção, passaria por toda essa turbulência bem mais tranquilo. Nós tínhamos alguma coisa de put comprada, mas não a totalidade do nosso negócio, bem longe disso. Então, pra gente, esse será um ano em que a rentabilidade será menor do que o ano passado, mas também estamos longe de ter prejuízo.

Como o senhor faz essa análise para saber se irá utilizar as ferramentas de trava, e qual a ferramenta utilizar?

Nós sempre discutimos internamente qual estratégia adotaremos. Quando a margem está próxima de um nível que achamos aceitável, realizamos a venda no mercado futuro direto. Quando julgamos que o mercado está com um preço que ainda pode ter alguma reação, talvez a compra da put seja mais estratégica, por exemplo. Em um momento como o atual, se você quiser comprar o seu break even para não perder dinheiro, você compra uma put e se o mercado começar a demonstrar uma reação, você surfa a onda da alta. Hoje, eu não faria, em nenhuma hipótese, uma venda futura direta através de termo ou mercado futuro. Hoje, a única coisa que eu faria é a compra de put.

O mercado futuro, na última quinzena de junho, caiu bastante, onde, na minha opinião, ficou precificado tudo de ruim que pode acontecer no mercado do boi. Mas o pior pode não acontecer. Portanto, a venda futura direta eu não faria e não estamos fazendo. O que dá pra ser feito é a compra de put.

Qual a importância dos custos de produção, na utilização dessas ferramentas?

Se você não sabe o seu custo, você vai travar o quê? A primeira coisa que você tem que ter SUPER apurado é a gestão do seu custo. Isso, nós fazemos em absoluto. Porém, se você não tem gestão do seu custo você não consegue travar, né? Você vai travar no escuro?

Vale ressaltar que o mercado financeiro pode ser tanto usado como uma referência de negócio, como por exemplo, para decidir se vai confinar ou não. O mercado futuro é o que você tem de ferramenta, porém, se você fizer uma análise, o mercado futuro erra muito. Então, qual a chance de a arroba do boi gordo ser de R$124,50 em outubro, que é o preço vigente? É grande? Não, é pequena. É bem provável que ele esteja ou acima ou abaixo disso. A acertividade da bolsa, olhando pra trás, é muito pequena, mas é o que você tem na mão. Nós utilizamos bastante, o de insumos (para ter uma ideia de qual vai ser o preço do milho e da soja lá na frente) enfim, é uma ferramenta fantástica que dá pra utilizar pra fazer a sua lição de casa. Aí, travar ou não travar é uma decisão de cada um, se a pessoa quiser correr o risco.

Por fim, o senhor tem alguma sugestão para os demais pecuaristas que estão receosos ou que não sabem como utilizar esse tipo de estratégia?

Como pecuarista, minha maior sugestão é para que os produtores utilizem mais a calculadora. Mais razão e menos paixão!

Nós não podemos nunca desperdiçar uma boa crise. Quem sobrevive a uma crise, sai dela mais fortalecido!

Está claro que, para a pecuária de corte brasileira, é necessário ter uma maior profissionalização. Tem muita gente que leva a atividade apenas com paixão. Precisamos de paixão também, mas a proporção precisa ser mais pro lado da razão do que da paixão.

Contextualizando, temos que esperar o melhor, mas sempre nos prepararmos para o pior. Porque, como diz o americano: “Shit happens”.

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