Não dependa do mercado para ter lucro, mas aproveite as oportunidades

Produzir de maneira eficiente é obrigação, mas isso não impede que o produtor também ganhe com o mercado.

Oportunidades na pecuária: como o produtor pode aproveitá-las

O foco do pecuarista deve ser a produtividade, otimizando o uso da área, que na maioria dos sistemas de produção é o maior patrimônio imobilizado.                     

A produção de cinco, dez ou quinze arrobas por hectare não afeta apenas a receita. Maior produção significa mais produtos para a diluição dos custos com depreciações e demais custos fixos, que não variam diretamente com a produção (variáveis indiretos), como custos administrativos e, dentro de um certo intervalo, a mão de obra direta.

Com mais produção, cada arroba tem uma parcela menor de custo e “sobra” mais para outros gastos na melhoria do sistema.

Esta é a linha central que deve ser considerada pelo pecuarista. O mercado, no entanto, trabalha em ciclos de alta e baixa de cotações, o que abre oportunidades de um ganho “extra”. Perceba o destaque dado à palavra “extra”. Isto porque o pecuarista não deve depender do mercado para ter resultados.

Querer que o preço de venda suba é algo natural, mas se ao longo dos anos, o produtor está sempre dependendo de altas expressivas para ter lucro, algo precisa ser revisto no sistema.

Os movimentos de longo prazo da arroba

Voltando à possibilidade de melhoria de resultados, vamos a uma breve explicação do ciclo pecuário, que é onde alicerçaremos nossa estratégia.

Em momentos de preços em alta, com a pecuária entregando resultados melhores, o produtor investe na atividade, com retenção de fêmeas, para aumentar a produção.

Este investimento nas fases de alta é comum e, por ser a estratégia de boa parte dos produtores, aumenta a quantidade de fêmeas em reprodução, com acréscimo na oferta de bezerros nos anos seguintes.

O segundo momento, de oferta em alta, possui preços mais frouxos, com menor rentabilidade. Para fechar as contas, os criadores acabam mandando mais fêmeas para o gancho, o que aumenta a oferta de carne e pressiona, tanto as cotações do boi gordo, como as dos bovinos de reposição.

A figura 1 mostra a evolução dos preços do boi gordo e a participação de fêmeas nos abates nos primeiros trimestres. Usamos o primeiro trimestre por serem os dados disponíveis para 2018 até a elaboração desta análise.

Figura 1
Participação de fêmeas nos abates (primeiros trimestres) e preços do boi gordo, deflacionados.
Obs: participação de fêmeas no primeiro trimestre.

Fonte: IBGE / Scot Consultoria

Nos momentos de preços em alta, a tendência é de redução da participação dos abates de fêmeas, enquanto o oposto também ocorre, com produtores vendendo vacas e novilhas para ajudar a fechar as contas em períodos de preços adversos.

A estratégia

Quando se trata de ativos no mercado financeiro, imobiliário ou outros, o certo é comprar na baixa e vender na alta, por que na pecuária seria diferente?

O melhor momento de aumentar o estoque de arrobas é nas fases de baixa do ciclo. Isto pode ser feito com compra de reposição ou foco em melhoria da parte reprodutiva, quando em sistema de cria.

Temos a questão de que nas fases de baixa, normalmente o caixa está enxuto. Aí fica clara a importância de ter um sistema eficiente, que gere mais lucro nas fases de alta e passe menos pressionado pelas baixas.

A figura 2 mostra a relação entre a arroba do boi gordo no momento da venda e o preço pago pela arroba do bezerro 24 meses antes.

As boiadas vendidas em 2018 trazem uma desvalorização do estoque de arrobas de 26,1%, em média, frente às cotações dos bezerros no primeiro semestre de 2016.

Figura 2
Cotação do boi gordo deflacionada (eixo da esquerda) e relação entre preço de venda do boi gordo e compra do bezerro, em arrobas, 24 meses antes (eixo da direita).

Fonte: IBGE / Scot Consultoria

Observe que os momentos de deságio na venda tendem a ser oportunidades de compra. O gado de reposição comprado em junho de 2006, por exemplo, quando o boi gordo registrava a pior cotação da série, iniciada em 1970, foi vendido em 2008 com valorização de 67,7% no estoque de arrobas.

Ou seja, além da produção no período, o próprio estoque teve uma alta forte no intervalo, dando um ganho extra ao sistema.

Considerações finais

 Em momentos nos quais os preços de venda não estão atraentes, como o atual, normalmente temos um cenário de abates de fêmeas, que gera o alicerce de valorizações futuras.

Com isso, além da busca constante pelo aumento da produtividade, o produtor pode aproveitar estas oportunidades para aumentar estoque de arrobas, em um sistema de recria e engorda, ou otimizar a parte reprodutiva para ter mais bezerros para a venda nos anos seguintes.

Aumentar o estoque pode ser feito pelo incremento da capacidade de suporte das pastagens, associada a uma melhoria da suplementação.

A valorização deste volume maior de arrobas ajuda a pagar estes investimentos, além da própria produtividade de um sistema aprimorado, diluindo custos fixos e variáveis indiretos.

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Autor: Hyberville Neto,
Médico veterinário, Msc. em administração de organizações

 

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