Os reflexos dos 10 dias que pararam o Brasil

Uma das reinvindicações dos caminhoneiros foi o tabelamento do frete. Porém, com a tabela de frete rodoviário, as oportunidades de comercializações que eram geradas em cima das variações dos preços estão perdidas.

A greve dos caminhoneiros foi anunciada em 21 de maio. O estopim foram os sucessivos aumentos do óleo diesel e, durante dez dias, o tráfego de caminhões foi interrompido no Brasil. Apesar dos meses, a paralisação ainda afeta a pecuária. 

Quais os efeitos da paralisação sobre a bovinocultura de corte

Com a greve, os animais que seriam abatidos não foram transportados e ficaram retidos nas fazendas e nos confinamentos, gerando uma oferta reprimida.

Na ponta final da cadeia, a carne não chegou ao varejo. Esse elo, que normalmente trabalha sem estoque, voltou às compras com firmeza, repercutindo em aumento pontual nos preços da carne bovina no mercado atacadista.

Figura 1. Preços do boi gordo (R$/@) e da carne de bovinos castrados no atacado em São Paulo.

Fonte: Scot Consultoria

É bom dizer que a oferta de proteínas de origem animal sofreu uma depressão nesse período, o que contribuiu para uma procura extraordinariamente maior por boiadas.

Efeitos da paralisação sobre a bovinocultura de leite

No período da paralisação, não houve transporte de leite cru. As granjas leiteiras, sem ter como armazenar o produto, tiveram que descartá-lo, com perda total da produção.

Sem leite, os laticínios interromperam ou reduziram a captação. Sem produção, faltaram produtos lácteos no mercado.

Consequentemente, o preço do leite longa vida (UHT) subiu na primeira quinzena de junho, frente à segunda metade de maio. No atacado, o preço médio subiu 22,9% e, no varejo, o aumento foi de 10,4%. 

Além das perdas diretas e imediatas, o setor deverá sentir as consequências em médio e longo prazo, já que nas fazendas faltaram insumos para as vacas. A falta de alimentos e dietas pobres em nutrientes afetou a persistência da lactação das vacas em produção, causando redução de desempenho.

Efeitos da paralisação sobre o mercado de grãos

Na exportação de milho, o faturamento caiu 82,3% em maio, frente ao mesmo período de 2017. Passou de US$ 53,18 milhões no ano passado, para US$ 9,44 milhões neste ano.

Mas os prejuízos não pararam por aí. A indefinição referente ao tabelamento do frete paralisou a contratação de caminhões e o mercado de grãos (negócios com a safra 2018/19) está hibernando. 

Política de Preços Mínimos de Transporte Rodoviário de Carga: o tabelamento do frete rodoviário

O tabelamento do frete foi uma reivindicação dos grevistas com a finalidade de estabelecer um preço mínimo que garantisse o resultado da atividade do transportador e esse pedido foi aceito pelo governo. A tabela foi definida pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT).

O tabelamento do frete interferiu na livre negociação e criou instantaneamente um mercado negro de frete. Os preços mínimos e o pagamento do frete de retorno¹ travaram as contratações.

Existe uma sazonalidade na contratação de fretes, influenciada principalmente pela demanda. Em épocas de colheita, há aumento na procura pelo transporte, implicando no aumento do preço do frete. Em épocas de entressafra, a baixa demanda faz com que os preços caiam. Com a tabela, o contratante perde essa vantagem.

As atualizações da tabela

Segundo a lei, sempre que ocorrer oscilação no preço do óleo diesel no mercado nacional superior a 10%, uma nova norma com pisos mínimos deverá ser publicada.

E foi o que aconteceu. O combustível subiu mais de 10% em 5 de setembro e a ANTT publicou uma nova tabela com os pisos mínimos do frete. O reajuste variou de 1,6% a 6,2%, a depender do tipo de carga e da distância percorrida.

Conclusão

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e outros organismos representativos da agricultura e pecuária pediram suspensão da tabela no Supremo Tribunal Federal. A insegurança estabelecida e a indefinição de soluções para o problema desequilibrou as relações entre compradores e vendedores, interferindo na comercialização da produção.

O frete de retorno, normalmente mais baixo, consiste no aproveitamento do retorno com carga de oportunidade. Por exemplo, o escoamento dos grãos para o porto e o retorno com fertilizantes. Com a tabela, o contratante do transporte terá de pagar o frete de retorno do caminhão vazio após o desembarque no porto.

Autores: Alcides Torres – Engenheiro Agrônomo, Marina Zaia – Médica Veterinária

 

 

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