Pastagem limpa x suja: o impacto do manejo na rentabilidade da pecuária

Aproximadamente, 75% das pastagens do Brasil se encontram produzindo até 50% da sua capacidade. Por que manter a pastagem limpa aumenta a produtividade?

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Segundo dados do anuário DBO 2018, mais de 75% das pastagens do Brasil se encontram produzindo cerca de 50% da sua capacidade, sendo que a maioria dessas está abaixo dos 30%. E um pasto produzindo abaixo da sua capacidade diminui a produtividade (em UA/ha), ou seja, o pecuarista termina com menos arroba (por ha/ano) do que poderia, o que reduz a rentabilidade do produtor.

Cenário contraditório das pastagens brasileiras

O fato de as pastagens tropicais terem crescimento acelerado e grande potencial de produção já é de conhecimento popular. A consequência disso é um sistema de produção pecuário a pasto capaz de atingir altas produtividades a um custo relativamente baixo.

Por que, então, os índices dos pastos da pecuária nacional continuam insatisfatórios, provocando uma produtividade abaixo do esperado e que, por vezes, podem diminuir com o passar do tempo?

Várias são as circunstâncias que levam ao decréscimo da produção das pastagens. E a situação se agrava quando é dito que a maioria das áreas vem diminuindo sua capacidade de suporte, e não o contrário.

Grande parte disso está relacionada à forma de utilização da forragem, ou seja, adequação da taxa de lotação nessas pastagens.

Quando usada acima da capacidade de suporte, provoca um superpastejo da forragem e, com isso, o rebaixamento excessivo da pastagem. Nesse caso, com o solo mais exposto e a planta forrageira sem área foliar remanescente suficiente para uma rebrota rápida e vigorosa, o sistema abre espaço para a entrada de plantas daninhas, uma das formas de degradação das pastagens.

Pastagem limpa e o controle das plantas daninhas no aumento da taxa de lotação

Quando as áreas tomadas são pequenas comparativamente ao restante do piquete fica mais difícil visualizar o impacto que a presença das daninhas causa na produção.

Vejamos por outra perspectiva: quanto de forragem é necessário para alimentar uma cabeça por dia?

Se considerado uma pastagem com boa produção de forragem (14 toneladas de matéria seca (MS) por hectare) e a quantidade consumida por 1 unidade animal (UA) (450 kg de peso vivo) como 9 kg de MS por dia, chegamos à necessidade de área de 6,5m² (9 kg de MS por cabeça / (14.000 kg/ha / 10.000 m²)).

Cálculo:

Produção de forragem – 14 t de MS/ha ou 14.000 kg de MS/ha;
Hectare – 10.000 m²
Consumo de MS/UA – 9 kg de MS/dia;

Área necessária para alimentar 1 UA/dia = 9 ÷ (14.000/10.000) = 6,5m² (valor arredondado).

Quando se tem consciência desse valor e se começa a prestar atenção às áreas de pastagens, é mais fácil identificar lugares não aproveitados. Seja pela presença de daninhas ou outros fatores, como galhos caídos.

No segundo caso, uma limpeza da área é suficiente para sua recuperação. No primeiro, o controle dessas plantas pode ser necessário.

As áreas perdidas pela presença dessas plantas podem ir além do espaço físico que as plantas ocupam e se estender a uma determinada distância ao seu redor. No caso de plantas com espinhos, essa distância se estende até um ponto que os animais se sintam confortáveis.

Um estudo realizado por Goulart e Corsi (2006) avaliou a massa de forragem pós-pastejo de capim colonião existente ao redor de plantas daninhas de leiteiro e unha de vaca. O estudo foi realizado em 60 dias durante o período das águas.

Os dados apresentados na tabela 1 mostram que a presença das daninhas nos pastos provocou um obstáculo ao consumo da forragem ao redor dessas plantas, com massas acumuladas ao correspondente de mais de 7 t de MS/ha.

Quando se analisa o quanto se perde de forragem até 1,5 m da planta daninha, chega-se ao valor de 2,6 kg de MS (unha de vaca).

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Bauhinia forficata, mais conhecida como unha de vaca.

Além disso, considerando o fato de que essa área poderia ser pastejada a cada 30 dias no período das águas, a perda aumenta para 15,8 kg de MS por planta. Para um consumo total de 1 UA no período das águas de 1.620 kg (181 dias * 9 kg de MS/UA.dia-1), seriam necessárias as produções de 103 plantas/ha (1620 kg totais / 15,8 kg/planta), ou seja, uma planta a cada 100 m².

Nesse caso, se não houvesse a perda de forragem provocada por essas plantas, a taxa de lotação poderia ser aumentada em 1 UA/ha, considerando apenas o período das águas, em que se tem maior potencial de crescimento e quando a produção influencia mais na rentabilidade do sistema.

Essa diferença chama mais atenção quando se compara esse potencial à realidade de que a taxa de lotação das pastagens brasileiras está abaixo desse valor.

Tabela 1.
Massa de forragem pós-pastejo em diferentes distâncias em relação às plantas daninhas em pastagens de capim colonião, na Fazenda Figueira – Londrina-PR – FEALQ

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Fonte: Goulart e Corsi, 2006.

Em outra avaliação, os autores mensuraram a relação folha/colmo da forragem próxima às plantas daninhas com ou sem a presença de espinho (Tabela 2). Nesses casos, nas observações em que havia a presença de daninhas, foi encontrada uma maior proporção de hastes nas plantas, o que indica que essa pastagem cresceu além do ponto ideal de pastejo, ou seja, a pastagem produzida não foi consumida, o que diminui a eficiência de pastejo e, consequentemente, a capacidade de suporte desses pastos.

Isso ocorre devido ao impedimento visual do animal quanto ao restante do piquete e à dúvida de que pode se machucar com as plantas, fazendo com que evite o consumo dessas áreas.

Tabela 2.
Efeito das plantas daninhas na proporção de componentes morfológicos (F/H) da forragem no ponto de amostragem.

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¹Avaliação visual e comparativa – nota 1: baixa relação folha/haste e nota 5: alta relação folha/haste
²Invernada 1 – 2.089 observações; Invernada 2 – 1.479 observações
Letras minúsculas diferentes nas linhas indicam diferença estatística
Fonte: Goulart e Corsi, 2006.

Resumindo o que abordamos até aqui, em uma pastagem limpa (ou seja, sem a infestação de plantas daninhas), a capacidade de suporte das pastagens é maior devido a maior produção de forragem, resultando em aumento de produtividade.

Efeitos do controle de daninhas na competição com plantas forrageiras

O controle tem o objetivo de diminuir a competição da forrageira com a invasora por luz, água e nutrientes. Porém, para manter a situação favorável à forrageira, é preciso que esta tenha condições de se sobressair.

Uma maneira de se fazer isso é realizar o controle durante o período de rápido crescimento da planta forrageira, ou seja, o período das águas. Nessa época, tem-se um maior perfilhamento da pastagem, o que favorece sua recuperação.

Outro aspecto a ser observado é o tipo de invasora presente na área, pois irá determinar a forma mais adequada de controle. Algumas espécies são possíveis de serem controladas com o uso de herbicidas via foliar.

Nesses casos, deve-se aproveitar a rebrota dessas plantas no início do período chuvoso, em que a suscetibilidade das mesmas à ação dos herbicidas é maior devido ao seu estádio vegetativo de desenvolvimento. Nesse período, as plantas estão mais suscetíveis à ação do herbicida, em que a dose utilizada para o controle poderá ser menor comparado à aplicação no final do período chuvoso, no qual será investido um valor maior no controle dessas plantas, porém, com menor retorno devido à época de aplicação, pois a resposta do capim será menor.

Existem espécies (lenhosas) que não apresentam controle foliar e este deve ser realizado com auxílio de herbicidas específicos para aplicações localizadas, seja no toco ou por meio de tratamento basal.

Atualmente, uma alternativa à roçada se dá através do uso dos herbicidas da linha XT, que é uma nova tecnologia desenvolvida pela Corteva Agriscience™  revolucionária para o mercado, pois é o único que controla via foliar a maioria das espécies de plantas daninhas lenhosas e semilenhosas  

Dentro de um sistema de produção, várias são as engrenagens responsáveis pelo sucesso desse processo. Além do controle de plantas daninhas, outros aspectos devem ser levados em consideração para o sucesso de um sistema de pastagem.

Em pastagens já estabelecidas, a escolha do local a ser realizado o controle deve considerar áreas com melhor potencial de resposta, onde o capim esteja melhor estabelecido e que sejam exploradas mais intensivamente.

Essas características permitem uma retomada de crescimento mais rápida do capim e a consequente retomada de áreas antes colonizadas por plantas invasoras. Em conjunto com essa operação, podem ser feitas outras práticas de recuperação como a correção de solo e a adubação da pastagem, além da adequação da taxa de lotação utilizada.

Em um estudo realizado por Dobashi et al., 2000, que avaliou o controle de áreas com quatro níveis de infestação de daninhas: Alto(> 6 plantas/m2 e com 49% de sombreamento); Médio (2 plantas/m2 e 36% de sombreamento); Baixo (<0,5 planta/m2 e 13,5 % de sombreamento); Sem infestação (testemunha)) e submetidos ao uso ou não de adubação após o controle, observou-se que as áreas que receberam adubação após o controle de daninhas produziram mais matéria seca de forragem do que os locais onde o controle foi feito, porém, sem o uso de adubação.

Para a implantação de pastagens, fatores como a quantidade de semente e o tempo para o controle das novas invasoras são importantes para o bom estabelecimento da planta forrageira. Uma vez feita a semeadura do pasto, o controle das plantas invasoras que nascem junto com a planta forrageira é necessário.

Nesse sentido, a época de controle pode resultar em grandes diferenças de produção, o que irá refletir na taxa de lotação dessa pastagem.

Um trabalho realizado por Simões et al., 2008, mostra que quando as forrageiras cresceram sem a convivência com plantas daninhas, suas produções foram superiores às situações em que forrageiras e daninhas conviveram em conjunto (figura 2).

Outro dado similar obtido por Santos et al. (2001) mostra a influência da época do controle das daninhas na formação do pasto para a produção de matéria seca aos 90 dias de implantação. O estudo mostrou que, quando o controle é realizado aos 15 dias após a emergência das plantas, a forragem obtém uma produção de 2.658 kg/ha. Já o atraso no controle para os 30 dias após emergência diminui esse valor para 1.373 kg/ha.

Como resultado, essa diferença de 1.285 kg/ha quando considerada uma eficiência de pastejo de 60% e um consumo de 9 kg de MS/cabeça, a capacidade de suporte onde as plantas foram controladas mais cedo é de 0,95 UA/ha (1.285 kg * 60% de eficiência de pastejo / 90 dias / 9 kg MS UA/dia = 0,95) a mais do que quando se atrasa o controle das plantas.

Essa diferença, quando transformada em produção de @/ha, é de 2,2 @, (0,95 UA/ha * 0,750 kg / UA.dia * 90 dias / 15 * 0,52), o que nos patamares atuais de R$ 150,00/@, daria uma diferença de R$ 330,00/ha.

Nessa situação, vale ressaltar que em ambos, porém, no primeiro caso, com eficiência muito maior que no segundo, otimizando o resultado da operação.

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Época de controle de plantas daninhas no estabelecimento do pasto.
Fonte: Autor

Essas informações mostram que o benefício do controle de daninhas e a manutenção da pastagem vai além do custo da operação em si. Esse manejo permite um maior aproveitamento da forragem já produzida, além da possibilidade de se aumentar sua produção. Como consequência, ocorrem ganhos de produtividade do sistema, melhorando os patamares de produção atuais desse sistema.

Autores:

Moacyr Corsi possui graduação em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP (1967), mestrado em Agronomy – Ohio State University (1970), doutorado em Ciência Animal e Pastagens pela ESALQ/USP (1972) e PhD em Agronomy – Ohio State University (1984). Possui dois pós-doutorados, um em West Virginia University (1991) e outro em Massey University (2002).

Lais Bellodi Arruda possui graduação em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP (2016).

 

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