Pastagem suja x pastagem limpa

Basta o produtor fazer as contas para observar que o uso do controle químico é rentável.

Plantas invasoras ou plantas infestantes são plantas indesejáveis em uma cultura específica.

Estas plantas são também conhecidas como ervas ou plantas daninhas (ambos também termos técnicos), inços (termo regional na região Sul), juquira (termo regional na região Norte), capoeira (termo regional nas regiões Sudeste e Nordeste), “pragas” (termo incorreto porque pragas são insetos e nematóides).

As causas do aparecimento de plantas daninhas na pastagem são bem conhecidas porque são as mesmas que causam a degradação da pastagem e do solo da pastagem.

A saber:

  • O plantio de espécies forrageiras não adaptadas às condições climáticas e dos solos da região;
  • O estabelecimento incorreto da pastagem, com erros cometidos desde o preparo do solo, passando pela compra de sementes de baixo valor cultural, terminando com erros na semeadura;
  • O manejo incorreto da pastagem durante o seu estabelecimento e durante a sua condução (com superpastejo ou com subpastejo);
  • A queima frequente;
  • A falta de diversificação que provoca o desenvolvimento rápido de pragas e doenças;
  • O cultivo da pastagem em solos com baixa fertilidade natural ou em solos antes férteis, mas já esgotados.

Todas estas causas ao final levam à uma diminuição do vigor da pastagem e à abertura de espaços que passam a ser ocupados pelas plantas daninhas.

As consequências da presença de plantas daninhas na pastagem também já são bem conhecidas.

Estas plantas competem com a planta forrageira por fatores de crescimento: na sua parte aérea por dióxido de carbono, luz solar e espaço; na sua parte subterrânea por água e nutrientes minerais.

Muitas daninhas excretam substâncias alelopáticas que inibem ou impedem o crescimento da forrageira. As plantas daninhas de folha larga conferem menor proteção ao solo contra o impacto de chuvas e a radiação solar, contra o pisoteio de animais e de máquinas, devido aos seus hábitos de crescimento e morfologia de sistema radicular, favorecendo o adensamento e compactação do solo.

Em consequência desta competição em sequência ocorre: redução, em média, de 55% na produção de forragem por ocasião do estabelecimento da pastagem e entre 38 a 68% em pastagem já estabelecida.

Mesmo em solos corrigidos e adubados a presença de plantas daninhas reduz a resposta da pastagem à adubação. A produção de forragem em pastagem sem a presença de daninhas foi 21%, 57% e 66% mais alta que nas pastagens com baixo, médio e alto nível de infestação, respectivamente.

Em consequência da redução na produção de forragem e pela impossibilidade dos animais colherem a forragem que está sob e dentro das moitas de plantas daninhas, principalmente quando estas possuem espinhos, a capacidade de suporte (unidades animais/hectare) cai significativamente.

O desempenho animal é reduzido por causa da menor qualidade de forragem (empobrecimento da composição química, queda da digestibilidade e redução de sua disponibilidade) por causa da competição da planta forrageira com as daninhas pelos fatores de crescimento.

Em decorrência das reduções na capacidade de suporte e no desempenho animal, ocorre queda da produtividade por hectare (arrobas/ha) com consequente redução na receita da atividade. Ao mesmo tempo em que a receita vai caindo ano a ano, os custos de produção vão aumentando na tentativa de controlar as plantas daninhas, com frequentes casos de insucessos e de frustrações na maioria das vezes por causa da falta de orientação técnica e consequente adoção de métodos de controle inadequados. Com o passar do tempo, o aumento da presença das plantas daninhas leva à desvalorização do preço da terra acima de 50% do valor do patrimônio.

Ainda aparecem as consequências indiretas, tais como ferimento dos animais (olhos, boca, pele, úbere, etc.) pela presença de daninhas que possuem espinhos, intoxicação e morte de animais que consomem plantas tóxicas. Segundo Tokarnia et al (2012) quando o rebanho bovino brasileiro era formado por 160 milhões de animais, morreram 1,12 milhão de cabeças intoxicados por plantas tóxicas.

Se esta proporção foi mantida, em 2017, com um rebanho de 172 milhões de bovinos (segundo a prévia do Censo Agropecuário divulgado pelo IBGE no fim julho de 2018) morreram 1,2 milhão de cabeças, com prejuízo calculado para a pecuária brasileira de R$1,6 bilhão/ano (preço médio em 2017 de machos pesando 10 arrobas e fêmeas pesando 9 arrobas – Anualpec, 2018; Scot Consultoria, 2018).

Ainda ocorre aumento de ectoparasitos (berne, carrapato, moscas) que se abrigam na folhagem das plantas daninhas e dificulta a colheita mecânica de forragem para conservação (ensilagem, fenação e etc.).

O manejo das daninhas é a combinação de uma forma racional de medidas preventivas com medidas de controle e erradicação que tem sido investigado por pesquisas e validado em fazendas comerciais por quase cinco décadas.

As medidas preventivas consistem na adoção de ações que impeçam ou minimizem a introdução e disseminação de plantas daninhas na área. Como medidas de controle se têm os métodos, cultural, mecânico, biológico, o fogo e químico. 

O método de controle químico é realizado com a utilização de produtos denominados herbicidas, que provocam a morte ou impedem o desenvolvimento das daninhas. Os herbicidas utilizados em pastagens, de modo geral, são sistêmicos, ou seja, após a absorção, necessitam ser translocados até o local de ação na planta daninha, por exemplo, até a raiz.

Quanto ao método de aplicação em pastagens, basicamente existem três tipos de herbicidas: de aplicação foliar e de aplicação localizada com aplicação no caule e aplicação no toco.

O controle químico tem se apresentado consistentemente como o mais eficaz no controle de plantas daninhas em todos os experimentos em que se comparou a eficácia dos métodos de controle químico x mecânico com uso de roçada manual e tratorizada, com rolo-faca, etc, principalmente quando a análise é feita num prazo acima de três anos.

As tecnologias validadas em pesquisa e em fazendas comerciais apresentam suas relações de benefício:custo. É uma pena que a maioria dos pecuaristas e muitos técnicos acabam tendo informações apenas do custo das tecnologias, mas não dos seus benefícios. E é compreensível este fato porque é relativamente fácil ter informações sobre o custo de uma tecnologia.

Por exemplo, a do custo do controle químico de plantas daninhas e pastagens é só ir a um distribuidor local, levar um técnico deste na fazenda para ele fazer o levantamento das espécies e da população das daninhas e seus estádios de desenvolvimento para orientar o tipo de produto comercial, sua dose, forma de aplicação, etc., e orçar o custo do controle.

Mas e o benefício da adoção desta tecnologia? A maioria não sabe quantificá-lo!

Para tal, é preciso mergulhar no conhecimento científico, estudando os resultados de pesquisas de especialistas que dedicaram ou ainda dedicam à pesquisa na área da tecnologia em questão por 20, 30, 40 anos ou mais.

Na tabela a seguir estão as relações de benefício:custo do controle químico de plantas daninhas de pastagens baseadas nos resultados de pesquisas e de campo quando se compara a produtividade de carne em pastagem mantidas limpas (sem daninhas) com pastagens sujas (infestadas por plantas daninhas).

Tabela 1.
Relação de benefício: custo do controle químico de plantas daninhas em pastagens nas fases de seu estabelecimento e de sua manutenção em alguns estados das cinco grandes regiões do Brasil.

Fonte: 1. Scot Consultoria, 2017; 2. Rosa, 2001; Dobashi et al. 2001; Victoria Filho; Corsi, 2003; Yabuta et al. 2003; Dias Filho, 2003; Victoria Filho; Ladeira Neto; Corsi, s/d; Aguiar (Dados de Campo).

A amplitude de variação nas relações de benefício:custo da tabela acima entre R$1,1 a R$4,6:R$1,0 são devidas aos seguintes fatores:Fonte: 1. Scot Consultoria, 2017; 2. Rosa, 2001; Dobashi et al. 2001; Victoria Filho; Corsi, 2003; Yabuta et al. 2003; Dias Filho, 2003; Victoria Filho; Ladeira Neto; Corsi, s/d; Aguiar (Dados de Campo).

  • Se a pastagem estava sendo estabelecida ou já estava em manutenção;
  • As espécies de plantas daninhas e a sua população;
  • Seu estádio de desenvolvimento;
  • Os tipos de herbicidas aplicados;
  • O método de aplicação (se manual localizado, se foliar tratorizado, se foliar aéreo).

Por fim, outro dado para a conclusão da relação de benefício:custo do controle de plantas daninhas de pastagens é o quanto este custo impacta proporcionalmente o custo operacional na pecuária de corte. Nas três fases, cria, recria e engorda, representa em média entre 1,7% a 2,9% dos custos da atividade, proporção de custo que não justificaria a não adoção do controle.

Autor: Adilson de Paula Almeida Aguiar – Zootecnista e Consultor Associado da CONSUPEC – Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda.

 

 

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