Período seco: chegamos ao segundo tempo do jogo

Os pastos no período seco do ano, apresentam pouca ou nenhuma folha viva, no entanto, mesmo os componentes mortos do pasto, podem ser fonte potencial de energia para suprir parte das exigências nutricionais dos bovinos.

pasto na seca

Autor: Andre Luis da Silva Valente – Doutor em zootecnia e professor da UFG, Campus Jataí

Sendo o Brasil um país tropical, com as estações do ano bem definidas, podemos dividir a produção forrageira em dois tempos. Primeiro tempo (período chuvoso), quando as condições edafoclimáticas são favoráveis ao crescimento da planta (temperatura, luminosidade e precipitação) e o segundo tempo (período seco) quando a escassez de chuvas, baixas temperaturas e menor luminosidade não favorecem o crescimento forrageiro (Figura 1). Sabe-se que esta variação estacional de distribuição da produção é constantemente considerada umas das características mais indesejadas pelos produtores em relação às plantas forrageiras. No entanto, este é um processo que não é passível de intervenção e controle, exceto em casos onde é possível o uso de irrigação, considerando os aspectos econômicos e ambientais da adoção desta técnica.

Figura 1.
Taxa de acúmulo e precipitação média ao longo do ano

pasto na seca

Desta forma, semelhante a uma partida de futebol, tudo que acontece no primeiro tempo influenciará de forma direta os resultados do segundo tempo. Sendo assim, o manejo do pastejo no período seco é reflexo das medidas tomadas durante o período chuvoso, uma vez que toda a forragem disponível para a segunda etapa deverá ter sido acumulada durante o primeiro tempo.

Sendo o objetivo deste texto, discutir as possibilidades de manejo e utilização do pasto no período seco do ano e entendendo que medidas já foram tomadas no primeiro tempo visando preservar forragem para o período seco, surgem alguns questionamentos: é possível utilizar o pasto como recurso alimentar na época seca sem causar degradação da pastagem? Em caso afirmativo, é possível obter bons níveis de produtividade animal? Qual o impacto da utilização do pasto na época seca sobre o rebrotamento na época chuvosa?

Para que a resposta seja positiva às questões levantadas, é necessário que o produtor ajuste o número de animais (TL) no piquete em função da quantidade de forragem disponível (MF), que pode ser calculado, com a seguinte fórmula:

 

 

Em que:
TL: taxa de lotação (animal/ha);
MF: massa de forragem na pastagem no final do período chuvoso (kg/ha de matéria seca);
Valor 0,25: Fator de utilização da forragem disponível
C: consumo diário por animal (% do peso corporal do bovino e em número decimal);
TU: tempo de uso do pasto diferido na época de seca (dias);

A determinação da massa de forragem pode ser feita com o corte rente ao solo da forragem com auxílio de um aro ou quadrado de área conhecida e uma tesoura (Figura 2). Após a coleta, pesa-se toda a amostra e retira-se uma alíquota para determinação da matéria seca que pode ser feita com auxílio do micro-ondas. É interessante que se faça mais de uma coleta por piquete e que as áreas amostradas representem a média de toda a área.

O valor de 0,25 na fórmula representa a eficiência de pastejo, que consiste na porcentagem de forragem consumida em relação à forragem disponível. Alguns autores têm considerado que quanto maior a oferta de forragem disponível, menor será a eficiência de pastejo, isso acontece devido as maiores perdas por pisoteio e acamamento. No entanto, ofertar pelo menos quatro vezes a quantidade de pasto que o bovino consome, ou seja, trabalhar com eficiência de pastejo baixa (25,0%) está fundamentado no fato de que, para um animal expressar alto desempenho, é necessário oferecer três a quatro vezes a quantidade de pasto que ele necessita consumir, principalmente quando se considera o valor nutritivo do pasto diferido.

Figura 2.
Determinação da massa de forragem com auxílio de um quadrado de área conhecida e cutelo.

pasto na seca

Para o consumo diário por animal estipula-se um valor “mágico” de 2,0% do peso vivo corporal. Sabe-se que na maioria das vezes o consumo de forragem no período seco do ano não atinge esses patamares. Sendo assim, se os animais que irão pastejar determinada área possuem peso vivo médio de 400kg o consumo diário que deverá ser considerado é de 8kg de matéria seca/dia.

O tempo de utilização será variado, caso o pecuarista utilize a técnica de deferimento das pastagens outros piquetes serão pastejados durante a estação seca do ano, para efeito de cálculo iremos utilizar o período de utilização em dias.

Dessa forma temos um exemplo: em uma área de 50,00 hectares onde a forragem amostrada possui 8.000 kg de matéria seca por hectare, os animais com 350kg e a área utilizada por 150 dias, quantos animais será possível colocar nesta área?

 

 

 

RESPOSTA: Sendo a área de 50,00 hectares (1,9 x 50), será possível colocar 95 animais de peso vivo médio de 350kg durante 150 dias.

Com base nestas informações, vislumbra-se a possibilidade de se trabalhar com maior taxa de lotação no período seco. Sabe-se que os pastos no período seco do ano, apresentam pouca ou nenhuma folha viva, no entanto, mesmo os componentes mortos do pasto, podem ser fonte potencial de energia para suprir parte das exigências nutricionais dos animais.

Com ajuste da taxa de lotação, espera-se que no final do período seco os pastos apresentem baixa massa de forragem e, consequentemente, baixa interceptação luminosa pelo dossel. Esta condição é favorável ao aparecimento de novos perfilhos uma vez que se aumenta a incidência de luz na base das plantas, favorecendo a recuperação desses pastos, quando as condições climáticas voltam a ser favoráveis (início de um novo jogo).

Além das ferramentas já apontadas, o uso da suplementação durante o segundo tempo também é uma necessidade, uma vez que os pastos não conseguem suprir toda a exigência nutricional dos animais, sendo que o nível de suplementação irá depender do objetivo de cada produtor. Este assunto será abordado numa próxima oportunidade.

 

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*