Produzir mais com menos área: dados preliminares do Censo Agropecuário 2017

Nossos índices produtivos ainda estão abaixo do que se considera uma pecuária competitiva, mas os dados do último Censo mostram uma tendência de melhora.

O setor agropecuário tem a responsabilidade de atender à progressiva demanda por alimentos, porém, concomitantemente a essa missão, há o desafio de aumentar a produção sem aumentar a área, usando racionalmente os recursos naturais e os insumos. Isso significa nada mais nada menos do que ser sustável.

E o conceito de sustentabilidade não serve somente para o produtor diminuir sua “dívida” com o meio ambiente, ser sustentável também caminha paralelamente a ser economicamente viável.

Isso porque a adoção de tecnologias na pecuária, além de aumentar a produtividade, alivia os impactos negativos que a atividade causa ao meio ambiente.

Por exemplo, o produtor que investe em genética e em suplementação diminui o tempo de terminação do gado. Com isso, além de produzir carne de melhor qualidade, quanto menor a idade de abate, menor a produção de metano (gás do efeito estufa) para cada quilograma de carne produzida.

Outro exemplo é a formação e o manejo correto das pastagens que, além ser uma forma mais barata de engorda dos animais, previne a erosão dos solos, favorece a mitigação dos gases de efeito estufa e melhora o armazenamento de nutrientes no solo.

Além disso, a preocupação da sociedade com questões relacionadas à preservação ambiental tem aumentado a cada geração e, normalmente, a pecuária de corte costuma ser apontada como uma das maiores causadoras de impactos ambientais. Esse estereótipo é reflexo da herança que a pecuária extensiva e extrativista deixou para o setor. A pecuária do desmatamento, do uso acentuado de recursos hídricos, da alta emissão de gases de efeito estufa, da erosão do solo, dentre outros.

Mas será que nosso sistema de produção ainda segue esse histórico?

Censo Agropecuário 2017

Em julho, foram divulgados os primeiros resultados do Censo Agropecuário 2017 do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que mapeou as características de mais de 5 milhões de estabelecimentos agropecuários no país.

Através desse retrato do campo, é possível apontar os rumos das mudanças na produção agropecuária do Brasil.

Em relação ao último Censo (de 2006), indicadores como o número de tratores (aumento de 50%) e o número de propriedades irrigadas (acréscimo de 52%) mostram que a tecnologia tem chegado ao campo, comportamento alinhado ao forte incremento (mais de 1.790%) no acesso à internet.

Porém, aprofundando a análise dos dados do Censo, é possível perceber que as áreas de lavouras permanentes diminuíram 32%, enquanto as de lavouras temporárias aumentaram 13%. As áreas de pastagens naturais caíram 19%, enquanto as de pastagens plantadas aumentaram 9% (Figura 1).

Essa evolução mostra que as pastagens naturais, normalmente com menor produtividade, vêm sendo substituídas por pastagens mais produtivas e que proporcionam maiores ganhos de arroba por hectare.

Figura 1.
Evolução da utilização das terras em milhões de hectares.

Evolução da utilização das terras em milhões de hectares
Fonte: IBGE | Elaborado por Scot Consultoria

Outro dado divulgado que demonstra a evolução do setor agrícola é que, dos 350 milhões de hectares ocupados, 28,5% são utilizados em pastagens apresentando boas condições e somente 3,3% são de pastagens em más condições. Confira na imagem abaixo.

Figura 2.
Participação no uso da terra segundo o Censo Agropecuário do IBGE 2017.

Fonte: IBGE | Elaborado por Scot Consultoria

Durante as entrevistas para o Censo, os produtores foram questionados sobre o manejo realizado nas pastagens. O resultado foi que 55% dos estabelecimentos fazem o preparo do solo. Por mais que ainda sejam necessários maiores investimentos e uso de tecnologia, é um bom começo.

Figura 3.
Aplicação de práticas agrícolas.

Fonte: IBGE | Elaborado por Scot Consultoria

Por fim, o Censo divulgado pelo IBGE nos mostrou que, assim como a taxa de lotação nas pastagens melhora gradativamente (média de 1,1 animais por hectare em 2006 para 1,15 animais por hectare em 2017), o ritmo de adoção de novas tecnologias também anda em marcha lenta.

Conclusão

Nossos índices produtivos ainda estão abaixo do que se considera uma pecuária competitiva, mas os dados do último Censo nos mostram uma tendência de melhora.

Por fim, o desafio para o setor é continuar adotando mais fortemente práticas de intensificação sustentáveis, que contribuam com o abastecimento de produtos e alimentos de qualidade para a demanda crescente de todo o mundo e com o menor impacto possível para o meio ambiente.

Autora: Marina Zaia

 

 

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