Resíduo de cervejaria (RUC) na dieta de bovinos

A melhor alternativa de uso do RUC para bovinos é na forma de silagem e pode ser fornecido ao gado de corte e leite.

RUC para bovinos

O aumento da produtividade na pecuária passa pelo uso de tecnologias sustentáveis. Dentre elas, destacam-se as tecnologias nutricionais.

A alimentação é o item que tem o maior peso nos custos de produção (60%-80%). Assim, é fundamental buscar alternativas alimentares que possam manter ou melhorar os níveis de produtividade e o custo-benefício.

Aqui entram os resíduos e coprodutos da agroindústria.

Neste artigo, vamos explorar o uso do Resíduo Úmido de Cervejaria (RUC). Os mais importantes, em termos de produção e disponibilidade, são o bagaço de malte ou resíduo úmido de cervejaria e o levedo de cerveja.

RUC na alimentação animal

Quando pensamos em usar um resíduo ou coproduto na alimentação de bovinos, o primeiro passo é o conhecimento das suas características químicas bromatológicas (Tabela 1).

Tabela 1.
Composição química bromatológica do RUC (% na MS).

Item (%)Úmido1Úmido2Úmido3Silagem1
Matéria Seca (MS)24,624,920 – 29,025,6
Proteína Bruta (PB)29,025,932,029,2
Fibra em Detergente Neutro (FDN)48,949,650,057,5
Fibra em Detergente Ácido (FDA)24,120,823,021,0
Extrato Etéreo (EE)9,57,09,57,4
Amido5,65,7
Cálcio (Ca)0,350,300,310,51
Fósforo (P)0,690,580,570,80
Potássio (K)0,150,160,09
Nutrientes Digestíveis Totais (NDT)74,166,176,067,4

Fontes: 1Dairy One, 2Feedipedia, 3CSC

No caso do RUC, vale a pena destacar suas principais características, sempre com base em 100% de matéria seca (MS):

a. Alimento com alto teor de fósforo (> 0,57%), médio teor de cálcio (0,30 – 0,50%) e muito baixo teor de potássio (< 0,16%);
b. Contém alta umidade, que varia de 75% a 80%;
c. O teor de proteína bruta (PB) varia de 26% a 32% e a taxa de degradação no rúmen é baixa, variando de 40% a 50%. Essa proteína é rica em metionina e pobre em lisina;
d. O teor de Fibra em Detergente Neutro (FDN) normalmente fica acima de 49% e o de Fibra em Detergente Ácido (FDA) acima de 20%;
e. A concentração de energia líquida de lactação (ELL) varia de 1,40 a 1,85 Mcal/kg de matéria seca (MS);
f. Baixa concentração de amido (< 6%);
g. Alta concentração de extrato etéreo (EE) (> 7%).

Prós e contras do RUC na dieta

Sempre que é feito uma recomendação a uma determinada alternativa alimentar, a primeira pergunta do técnico ou produtor é: quais são as vantagens e desvantagens desse resíduo ou coproduto? A seguir, são apresentados os prós e contras do uso do RUC para bovinos.

Vantagens

  1. Disponibilidade o ano todo, pois a produção de cerveja não tem sazonalidade.
  2. Alimento muito palatável.
  3. Fonte de proteína by-pass*. No Brasil, não temos muitas opções de proteína by-pass, principalmente para vacas de produção mais elevada, que demandam esse tipo de alimento. Como é rico em metionina, pode ser usado nas formulações em combinação com o farelo de soja, que é pobre nesse aminoácido;
  4. Pelo fato de ter baixa concentração de amido e alto teor de Fibra em Detergente Neutro (FDN), é um alimento estratégico na formulação de dietas com alta densidade energética, com alta inclusão de grãos.

*É uma proteína não degradada no rúmen, permitindo que seja completamente digerida no intestino delgado, consequentemente, melhorando o aproveitamento dos aminoácidos essenciais.

Desvantagens

  1. Variabilidade na composição nutricional, que depende principalmente do tipo de grão usado e do processo industrial.
  2. Palatabilidade cai com o tempo de estocagem, se não for ensilado.
  3. Produto altamente perecível devido ao crescimento de bactérias, leveduras e fungos.
  4. Produto com alto teor de umidade, o que limita seu uso em propriedades que ficam distantes da fonte.

Considerando a composição química e bromatológica e as vantagens e desvantagens, no caso do RUC, fica um saldo muito positivo.

Esse alimento pode diminuir consideravelmente o custo da ração e manter ou até melhorar a produção de leite ou carne. É importante sempre verificar a disponibilidade do produto na região e custos com frete.

Uma outra pergunta que sempre surge quando tratamos desse assunto é: vale a pena usar o alimento e como devo usá-lo?

Em seguida, as recomendações mais importantes relacionadas ao uso correto do RUC:

a. Se o RUC não for ensilado, o produto deve ser usado em, no máximo, 4 dias. No caso de regiões muito frias, esse período pode ser um pouco mais longo, mas deve ter monitoramento da qualidade do material;
b. A melhor alternativa de uso é na forma de silagem. O material deve apresentar pelo menos 25% de MS e o processo deve seguir as mesmas regras usadas para silagem de milho. Logo após o resfriamento do material, deve-se proceder ao processo de ensilagem;
c. Para materiais com mais de 25% de MS, a adição de milho desintegrado com palha e sabugo (MDPS) em nível de 2,5% melhora significativamente a qualidade da silagem produzida. Para abrir o silo, deve-se esperar pelo menos 15 dias (Aronovich, 1999);
d. Faça silos pequenos, dimensionados para cortar, diariamente, pelo menos 30 cm em profundidade. Isso ajuda na preservação da qualidade do RUC.

Considerando tudo que já abordamos sobre o RUC, é importante passarmos às recomendações de quantidades a serem utilizadas.

Mas, antes, não se esqueça: os percentuais e as quantidades são sempre considerados com base na matéria seca. Como o RUC tem somente de 20% a 25% de matéria seca, as quantidades em MS (kg) são multiplicadas por 3 a 4.

Leia também: Subprodutos do etanol de milho como fonte de proteína mais barata

Exemplo:

Se uma vaca consome 15 kg de matéria seca e queremos substituir 20% com o RUC, devemos fornecer de 9 a 12 kg desse alimento diariamente.

Para vacas leiteiras, o nível de inclusão é de 20% a 25% do concentrado e de 15% a 20% da dieta total (MS). Contudo, muitos técnicos e pesquisadores recomendam até 30%.

Dietas de vacas leiteiras podem conter até por volta de 15% de silagem de RUC sem prejuízo do consumo de MS, da produção e da qualidade do leite. O RUC pode substituir parte da silagem de milho.

Para gado de corte, o consumo de até 2 kg de RUC (base matéria seca) não altera o desempenho. Isso significa algo em torno de 6 a 8 kg com base na matéria natural.

Se considerarmos com atenção a questão da qualidade do material, como vimos ao longo desse artigo, o RUC é uma excelente alternativa alimentar para bovinos.

Quando as recomendações dadas (nível de inclusão na dieta, tempo de estocagem, entre outros) não são seguidas, o uso do RUC pode ser prejudicial, como descrito em vários artigos científicos, tais como:

  • De acordo com Okwee-Acai & Acon, 2005, o uso de RUC na dieta de bovinos confinados por longo período (1 ano) aumentou significativamente os casos de laminite;
  • Segundo Loretti et al. 2003, a contaminação do bagaço de malte por fungos, especialmente por cepas de Aspergillus clavatus produziu desordens neurológicas em bovinos;
  • Já Haagsma, 1991, mostrou que mesmo que não seja uma intoxicação comum, casos atípicos de botulismo tipo B ocorreram na Holanda durante o período de 1977 a 1978, causados pela suplementação alimentar de grãos de cerveja.

Autor: Antonio Ferriani Branco, possui graduação em Zootecnia pela FCAV-UNESP Jaboticabal, mestrado e doutorado pela FCAV-UNESP Jaboticabal e doutorado pela University of Kentucky, na área de produção e nutrição de ruminantes, pós-doutorado pela Pennsylvania State University na área de nutrição de ruminantes.

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