Vender ou segurar a boiada engordando no pasto?

Boi na invernada engordando e seca chegando: é hora de decidir vender ou reter o rebanho.

Vender ou segurar a boiada? - Confira alguns pontos importantes antes de tomar essa decisão

Estamos nos aproximando do período seco do ano e, naturalmente, a pastagem começa a perder qualidade e diminuir o desempenho dos bovinos que nela estão engordando.  

Assim, o pecuarista que tem a boiada com peso já suficiente para o abate vive o dilema de vender os animais agora ou segurar o gado para aproveitar o pasto das águas até o último momento e fazer a venda mais para a frente, com os animais mais pesados.   

Essa decisão não é simples de ser tomada, devido às diversas variáveis que devem ser analisadas.

Pensando nisso, elaboramos o artigo com alguns pontos importantes para auxiliar na decisão do pecuarista, se vai vender a boiada hoje ou ao fim de maio.

1° ponto: Riscos de mercado

Segurar a boiada poderá trazer mais peso aos animais e aumento da receita, mas também traz mais riscos para o pecuarista que ficar mais tempo à mercê do mercado. Ou seja, de nada adianta ter o gado mais pesado lá em maio se a cotação da arroba despencar daqui até lá.

Sabemos que a partir do momento em que os pastos começarem a secar, um maior volume de bovinos será destinado ao abate, provocando a desova de final de safra. Geralmente, essa desova ocorre em maio, podendo ser antecipada ou postergada de acordo com as condições climáticas de cada ano.

Logo, a tendência é de preços menores para a cotação da arroba em maio, mas correr risco de saber o quão menor ela será não é uma estratégia aconselhada. Por isso, uma saída é utilizar as ferramentas do mercado futuro para garantir pelo menos o preço mínimo de venda futura e assim fugir dos riscos de mercado. Se você ainda não sabe como pode proteger os preços da sua produção, confira algumas dicas neste artigo.

2° ponto: Relação de troca com o bezerro

Até a última semana de março, em São Paulo, eram necessárias 8,1 arrobas de boi gordo para a compra de um bezerro desmamado, anelorado (6@).

Quem for reter a boiada corre o risco de encontrar uma troca menos favorável com o bezerro no momento da venda do boi gordo.

De 2000 a 2018, na média de todos os anos, o bezerro de desmama atingiu seus maiores preços em maio. Nesse mesmo período, em apenas quatro anos, a relação de troca em maio foi melhor para o recriador do que em março. Essa tendência de piora na relação de troca também deve ser analisada na hora da decisão.

3° ponto: Capital e fluxo de caixa

 Realizar a venda hoje e ter o dinheiro em mãos também é um fator importante, pois haverá antecipação dos recursos para investimentos e pagamento de contas.

Além disso, o custo de capital do dinheiro no número de dias que a boiada for retida deve justificar a opção de esperar para vender a boiada.

Por exemplo, levando em consideração que hoje a arroba do boi gordo está cotada em R$ 153,50, à vista, livre de Funrural, um boi gordo com 16,5 arrobas geraria uma receita de R$ 2.532,75.

Se aplicarmos esse dinheiro na poupança, considerando o rendimento de 0,3715%¹ ao mês, em 60 dias (período de retenção) os juros renderiam R$ 18,85/por cabeça.

Dessa forma, subtraindo os custos com a retenção (durante 60 dias), a receita com a venda do boi gordo terá que pelo menos ser maior do que R$ 2.551,60/cabeça (R$ 2.532,75 + R$ 18,85).

Mas, afinal, até quanto deve ser o custo de retenção para viabilizar a venda da boiada em maio? Para exemplificar, fizemos a simulação abaixo. 

Tabela 1. Ponto de equilíbrio da retenção.

Venda agora
Preço da arroba mercado físico¹ R$ 153,50
Peso atual (kg de peso vivo) 475
Rendimento de carcaça 52%
Peso atual (arrobas de carcaça) 16,5
Receita por cabeça hoje R$ 2.532,75
Venda em maio
Período de retenção (dias) 60
Ganho diário (kg de peso vivo) 0,5
Peso final (kg de peso vivo) 505
Rendimento de carcaça 52%
Peso final (arrobas de carcaça) 17,5
Preço projetado da arroba (maio 2019)² R$ 151,50
Receita projetada por cabeça R$ 2.651,25
Resultado
Rendimento poupança (60 dias)³ R$ 18,85
Custos de equilíbrio para viabilizar a retenção (empatar com a receita de hoje) R$ 99,65

¹ Cotação da arroba do boi gordo, em São Paulo, à vista, livre de Funrural em 21/3/2019.  
² Preço por arroba projetado pela B3 para o contrato futuro do boi gordo com vencimento em maio de 2019 em 20/3/2019.
³ Considerando o rendimento de 0,3715% ao mês (Banco Central).
Fonte: Scot Consultoria

Considerando os parâmetros de ganho de peso utilizados, os preços da arroba no mercado físico e projetados para o contrato futuro com vencimento em maio (apresentados na tabela 1) e o rendimento do dinheiro da venda de hoje com aplicação na poupança*, o pecuarista que for reter a boiada durante o período de 60 dias deverá ter um custo de produção menor do que R$ 99,65 por cabeça para viabilizar a operação.

*Remuneração dos depósitos de poupança, de acordo com o Banco Central do Brasil, em 20 de março de 2019. 

Conclusões

Os parâmetros adotados na simulação podem ser diferentes para cada propriedade, assim como as cotações da arroba no mercado físico e futuro variam a cada dia. Entretanto, a metodologia para o cálculo é a mesma.

Os custos de produção e o número de dias de retenção devem ser calculados caso a caso. O importante é tomar a decisão de vender ou reter a boiada pautada em um planejamento estratégico, não por achismo.
Faça as contas. Se a retenção compensar, utilize as ferramentas do mercado futuro e minimize os riscos.
Se a retenção empatar ou for menor do que a venda hoje, não pense duas vezes, liquide a boiada agora. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando!

Autor: Breno de Lima – Zootecnista

 

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