A alta do dólar e os impactos na pecuária

O câmbio em alta pesa nos custos de produção da atividade, mas por outro lado aumenta a competitividade da carne bovina no mercado internacional, favorecendo as exportações

Em 2020, o dólar apresentou forte valorização em relação à moeda brasileira. Os principais motivos  incluem questões domésticas, como os juros baixos no Brasil, o que diminui a entrada de capital externo especulativo (investimentos estrangeiros visando ao retorno rápido); as discussões em torno de como pagar o programa Renda Brasil; além das incertezas econômicas geradas pela pandemia da Covid-19 e as eleições nos Estados Unidos, entre outros fatores.

Observe na figura abaixo que o câmbio iniciou este ano próximo de R$ 4,00/US$ e subiu até próximo de R$ 6,00/US$ em meados de maio. Em junho, recuou para baixo de R$ 5,00//US$ e, em outubro, a cotação alcançou R$ 5,60/US$, destacando-se a grande volatilidade nos últimos meses, mas sempre em um patamar bem acima do registrado em 2019 (média de R$ 3,945 por dólar).

Figura 1.
Cotação do dólar em real.

Fonte: Banco Central do Brasil | Compilado pela Scot Consultoria

Reflexos do dólar na pecuária brasileira

O dólar impacta diretamente os preços das commodities agrícolas, como o milho e a soja. Neste cenário de câmbio valorizado, os produtos brasileiros se tornam mais competitivos no mercado internacional, o que favorece as exportações. Neste ano, além do câmbio favorável, a boa demanda interna e para exportação, especialmente de soja pela China, puxou os preços desses insumos para cima.

Para uma comparação, em relação ao mesmo período do ano passado, a soja está custando 79,9% mais este ano. Para o milho, a diferença é de 71,8% na comparação anual, conforme pode ser visto no gráfico abaixo.

Figura 2.
Cotação do dólar em real e preços do milho (Campinas-SP) e da soja em grão (Paranaguá-PR), em R$ por saca de 60 quilos.

Fonte: Banco Central do Brasil | Compilado pela Scot Consultoria

O farelo de soja, principal alimento concentrado proteico utilizado na nutrição animal, subiu no embalo da soja em grão e da demanda interna. O insumo está sendo negociado, em média, por R$ 2,3 mil por tonelada em São Paulo; no mesmo período, em 2019, o valor era de R$ 1,3 mil por tonelada.

O milho e o farelo de soja mais caros puxaram para cima as cotações de outros alimentos concentrados, tais como o sorgo, a polpa cítrica, o DDG, o caroço de algodão e outros farelos (algodão, amendoim, etc.).

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Além dos insumos para nutrição, os fertilizantes também ficaram mais caros em 2020 devido às altas do dólar. No ano passado, o Brasil importou 81,4% de todo o adubo entregue ao mercado, o que totalizou 36,24 milhões de toneladas.

No mais, as cotações de alguns produtos, como o fosfato bicálcico, que entra na composição dos suplementos minerais, também sofrem influência do câmbio, devido ao país importar o produto ou a matéria-prima para sua fabricação.

Preços firmes da arroba do boi gordo e alta nas exportações de carne bovina

Se, por um lado, o dólar valorizado reflete nos custos de produção, por outro, as exportações de carnes também ganham competitividade com o câmbio favorável.

Isso, somado à demanda aquecida por carne da China, fez aumentar os embarques brasileiros de carnes bovina, de frango e suína, o que colaborou para os preços firmes desses produtos no mercado interno, possibilitando preços maiores para os produtores.

No caso específico da carne bovina, considerando o produto refrigerado ou congelado, o volume exportado pelo Brasil, de janeiro a setembro deste ano, aumentou 14,3% em relação ao mesmo período do ano passado, colaborando para a firmeza dos preços da arroba do boi gordo em 2020. Veja mais sobre o mercado do boi gordo neste link.

Considerações finais

Para o fim de 2020, o Banco Central do Brasil estima que o dólar esteja custando R$ 5,35 e, para o fim de 2021, a expectativa é de um câmbio de R$ 5,10/US$.

Ou seja, o câmbio deverá seguir pesando sobre os custos de produção da atividade pecuária, exigindo do pecuarista estratégias para a aquisição dos insumos e/ou busca por ferramentas para se proteger das variações no câmbio (trava de preços no mercado futuro, antecipação ou postergação das compras de insumos, operações futuras com câmbio, etc.).

Mas, pensando no preço do boi gordo, as exportações de carne bovina também deverão seguir com bons volumes em 2021, e, junto com outros fatores, tais como a oferta de gado comedida, deverão colaborar para preços firmes no mercado interno.

Em resumo, quanto maior a participação do pasto na dieta, menor é o impacto do dólar pelo lado dos custos de produção da pecuária. Para mais informações sobre pastagens (manejo e mercado) confira as outras publicações nesta plataforma.

Rafael Ribeiro de Lima Filho – zootecnista, msc.
Scot Consultoria

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