Abates de fêmeas e final de safra

O período de final de safra aumenta a oferta de boiadas, mas em anos de retenção de fêmeas, este efeito é mais ameno.

Abates de fêmeas

O período de safra pode variar conforme a região, mas, em geral, o período de chuvas começa em outubro e novembro e vai até abril. Com isso, normalmente observamos uma oferta crescente de gado terminado em pastagem a partir de dezembro, que se estende, em geral, até maio.

Obviamente, com os diferentes níveis de pluviosidade nos períodos secos, assim como a possibilidade de suplementação, temos oferta de gado oriundo de pastagens em algum nível durante o ano todo, mas a safra é o período com mais disponibilidade de boi de pasto.

Um ponto importante é que o fato de haver mais boiadas disponíveis para venda neste período não necessariamente facilita a vida do comprador. Isso ocorre porque o mesmo pasto que gera oferta permite retenção em caso de pressão de baixa ou mesmo apenas a manutenção desse gado em busca de um peso adicional com baixo custo.

Lembramos que a arroba produzida em pastagem, via de regra, é a mais barata. Com isso, mais pasto resulta em uma produção com custo mais baixo, estratégia bastante utilizada pelos produtores. 

Leia também: A importância da qualidade do pasto no custo da arroba

Ao final do período de chuvas, diminui essa capacidade de engorda e o produtor precisa optar entre vender e suplementar para manter o gado no pasto com algum ganho. Falamos mais sobre o assunto na matéria Vender ou segurar a boiada engordando no pasto?. Isso costuma gerar o efeito chamado “desova” de final de safra, um aumento das vendas de gado terminado, que normalmente tem efeito sobre o mercado.

Abates de fêmeas, novilhas e machos

Esse efeito de maior oferta com final de safra é modulado pela fase do ciclo pecuário. Como abordamos no texto Entenda a toada do ciclo de preços pecuários, o ciclo de preços é a oscilação das cotações relacionada a momentos de investimentos e desinvestimentos na atividade.

Com isso, o produtor aumenta ou diminui a retenção de fêmeas na propriedade, o que é uma forma de investimento. E o que isso tem a ver com a chegada da seca?

Para abordar isso, devemos nos lembrar do calendário reprodutivo. A estação de monta no Brasil Central ocorre entre pouco depois da volta das chuvas e o começo do ano, com duração que varia conforme a estratégia da propriedade. Mas, geralmente, entre três e quatro meses.

Com isso, o primeiro trimestre, em geral, é o final do período reprodutivo, com descarte posterior de vacas e novilhas que não emprenharam. Mais uma vez, aqui entra a estratégia de descarte de cada fazenda. No entanto, temos essa maior disponibilidade de fêmeas no começo do ano.

Observe a figura 1, que mostra a distribuição dos abates de vacas, novilhas e machos ao longo do ano, considerando a média dos últimos dez anos. A porcentagem demonstra quantas, do total anual de vacas, em média, foram abatidas em determinado mês. Da mesma forma para as outras categorias.

Figura 1. Participação média dos abates de cada mês nos abates anuais das categorias.

Abates de fêmeas
Obs.: Foram considerados os últimos dez anos.
Fonte: Scot Consultoria – www.scotconsultoria.com.br

Perceba que vacas e novilhas têm maior concentração de abates na primeira metade do ano, enquanto os machos se centralizam mais no segundo semestre.

Aqui temos o confinamento e o semiconfinamento ganhando espaço nos abates, com menor oferta de pasto. Como machos, em geral, participam mais desses sistemas, isso ajuda nesse movimento.

Considerações finais

Em anos com preços da reposição em alta e retenção de fêmeas, a tendência é que menos vacas e novilhas sejam enviadas para o gancho, tornando o movimento de pressão de oferta no final de safra menos intenso.

Recentemente, as compras da China têm aumentado a busca por novilhas, pela exigência de idade para esse mercado. Ainda assim, em 2019, tivemos retenção, apesar do aumento de novilhas.

Os dados parciais do primeiro trimestre demonstram redução de abates próxima de 20%, na comparação com o mesmo período de 2019, mais um indicativo de que temos um ano de retenção.

Após a chegada da Covid-19 ao Brasil e todos os efeitos sobre o consumo, temos observado um mercado relativamente firme mesmo neste período de final de safra e com consumo fraco.

Leia também: Impactos da Covid-19 no mercado de carnes brasileiro

Ou seja, muito provavelmente, a associação das exportações a uma oferta menor de final de safra, com menos fêmeas, tem sido o motivo deste cenário de mercado do boi gordo relativamente firme, mesmo com o contexto econômico e de isolamento.

Autor: Hyberville Neto – médico veterinário, msc.

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