Adubar X Não Adubar?

Em 27 anos fazendo esses cálculos, em 99% dos ambientes avaliados, a fertilidade do solo sempre foi o fator que determinou o potencial de produção dos sistemas acompanhados.

Esta pergunta tem sido formulada há anos pela maioria dos produtores, principalmente os de carne, mas também por muitos técnicos. E não tem como respondê-la se não for baseado nas etapas iniciais de um programa de gestão, que começa com o inventário de recursos, segue com a emissão de um diagnóstico, depois com um plano de metas, uma análise de viabilidade técnica e econômica (VTE) do projeto em questão e termina com um planejamento.

Na etapa de inventário de recursos, considerando que o objetivo principal do projeto é a tomada de decisão entre adubar e não adubar, é fundamental o levantamento e o estudo de dados das normais climatológicas da região onde está localizada a propriedade (volume e distribuição de chuvas; temperaturas mínima, média e máxima; risco de geadas e balanço hídrico) e das classes de solo predominantes (relevo, profundidade e drenagem, mas principalmente fertilidade).

Ainda nessa etapa, recomenda-se inventariar:

  • Dados e informações da propriedade (localização, áreas total e útil; benfeitorias e edificações).
  • Dados e informações das pastagens (espécies forrageiras cultivadas; número, área e formato dos piquetes; método de pastoreio adotado; condição de pressão de pastejo; condição do estande da planta forrageira; taxa de lotação histórica e atual; etc.).
  • Infraestrutura (fonte de água, cochos para suplementos, sombreamento, área de lazer, medidas e estado de conservação).
  • Infestação por plantas daninhas e pragas.
  • Dados e informações do rebanho (atividade, se produção de carne ou de leite; se de carne, qual a fase do ciclo pecuário, se cria, se ciclo completo, se recria e engorda).
  • O calendário de manejo dos animais ao longo do ano.
  • Os pesos corporais médios das categorias animais do rebanho).
  • O mercado regional (preços de terra e de animais; alternativas de uso da terra; etc.).
  • Os índices técnicos, os custos de produção e o resultado econômico da atividade pelo menos do último ano e, por fim, os objetivos e as metas do produtor.

Com base no inventario, o técnico irá elaborar e emitir um diagnóstico da situação atual e do potencial daquele projeto em questão.

Depois disso, é preciso calcular qual é o potencial do ambiente para a produção de forragem (kg de matéria seca/ha/ano), que determinará a capacidade de suporte da pastagem (UA/ha). E esses potenciais, por sua vez, são calculados com base no volume e na distribuição de chuvas associados com a temperatura média do ambiente (para pastagem não irrigada), o balanço hídrico (para pastagem irrigada) e a fertilidade do solo.

Somente para destacar: em 27 anos fazendo esses cálculos, em 99% dos ambientes avaliados, a fertilidade do solo sempre foi o fator que determinou o potencial de produção dos sistemas de produção acompanhados. Detalhe: sempre puxando o potencial para baixo, já que a fertilidade natural dos solos sob pastagens do país é classificada como de muito baixa e baixa.

Na etapa de diagnóstico, é importante avaliar se o produtor já está em um nível de gestão da atividade que possibilita investir na intensificação da produção por meio de correção e adubação do solo e ter sucesso técnico/econômico.

Por exemplo, se as pastagens ainda estão infestadas por plantas daninhas, é preciso primeiro investir no controle, porque mesmo em solos corrigidos e adubados a presença de daninhas reduz a resposta da pastagem à adubação. A produção de forragem em pastagem sem a presença de plantas daninhas foi 21%, 57% e 66% mais alta que nas pastagens com baixo, médio e alto nível de infestação, respectivamente.

Uma vez cumprida a etapa do diagnóstico, é possível dar uma perspectiva para o produtor de qual é o potencial do sistema para, então, estabelecer objetivos e metas no intervalo entre o resultado atual que ele alcança e o resultado potencial. Na maioria das vezes, o produtor tem como parâmetro para estabelecer sua meta a variável “taxa de lotação”, mas é possível e recomendável estabelecer as metas em produto animal que será de fato comercializado, ou seja, quilos, arrobas ou litros de leite/ha/ano.

Após estabelecidas as metas, recomenda-se que o técnico elabore a viabilidade técnica/econômica (VTE) do projeto para cenários de baixa e alta nos preços dos insumos produzidos.

Um parênteses: em minha experiência como professor (desde 1991), pesquisador (desde 1992), gerente de fazenda (entre 1991 a 1994) e consultor (desde 1994), não me lembro de ter feito uma VTE da intensificação da produção por meio de correção e adubação do solo da pastagem cujo resultado tenha sido negativo.

Sendo viáveis as etapas anteriores, vamos para a etapa do planejamento em cenários de curto, médio e longo prazo; apresentação deste planejamento para a equipe da propriedade e, a partir daí, um programa de treinamentos frequentes para que a equipe execute cada etapa com procedimentos padronizados e controle os resultados.

Na etapa de execução, recomenda-se iniciar o manejo da fertilidade do solo (correção e adubação) por uma pequena área da propriedade (na maioria delas, as áreas intensificadas representaram entre 1% e 3% da área útil da pastagem) e nas melhores áreas (em piquetes com o melhor estande da planta forrageira, com pressão de pastejo ajustada, sem plantas invasoras e pragas de solo ou com baixos níveis de infestação; com adequada infraestrutura de piquetes, cochos, fontes de água, sombreamento e área de lazer).

Após a escolha das áreas cujos solos serão corrigidos e adubados, o programa de manejo da fertilidade de solos deverá contemplar as seguintes etapas:

  • Escolha da área cujo solo terá sua fertilidade corrigida e adubada.
  • Medição e mapeamento dessa área.
  • Amostragem de solo e de planta e envio das amostras ao laboratório.
  • Análise laboratorial.
  • Interpretação dos resultados de análises de solo e de planta e recomendações de correção e adubação.
  • Planejamento e execução do programa.
  • Práticas corretivas: calagem, gessagem, fosfatagem, potassagem, correção de micronutrientes, correção de matéria orgânica.
  • Práticas de adubação: com cálcio, magnésio, fósforo, potássio, enxofre, micronutrientes, nitrogênio.
  • Tipos de adubação: química, orgânica, organo-mineral.
  • Métodos de aplicação: manual, tração animal, tratorizado, aéreo, foliar, fertirrigação.
  • Avaliação dos resultados: resposta técnica e econômica.
  • Avaliação de impacto ambiental.

A seguir está demonstrado como se pode fazer uma VTE para a tomada de decisão entre “adubar x não adubar” e, se for adubar, qual o nível de adubação.

Na tabela a seguir, estão alguns resultados de VTEs de nove propriedades (1 no Mato Grosso do Sul, 3 em Goiás, 2 no Tocantins e 3 em Minas Gerais). Na segunda coluna da tabela, estão os índices que os pecuaristas alcançavam antes de investirem na correção e adubação do solo.

Figura 1
Indicadores de sistemas de produção de carne em pasto, explorados sob diferentes níveis de intensificação, por meio de correção e adubação do solo, entre 2015 e 2017.

Observa-se que, desde o início, os índices técnicos e econômicos alcançados por aqueles pecuaristas (segunda coluna da tabela) já estavam acima dos alcançados na média pelos pecuaristas brasileiros, já que as taxas de lotação atuais estão em 1,08 cabeça/ha e 0,7 UA/ha, produtividade da terra de 3,47 @/ha/ano e lucro, quando há algum, abaixo de R$ 120/ha/ano.

Na terceira coluna, estão os índices reais das nove propriedades após o início do programa de correção e adubação do solo da pastagem e, nas colunas seguintes, os índices são simulações para a análise de VTE de níveis de intensificação.

Com base nesses resultados, concluiu-se que, para saltar do nível de exploração que os pecuaristas alcançavam para o primeiro nível de intensificação, o custo da arroba produzida aumentou enquanto a lucratividade reduziu, apesar de o lucro por hectare ter aumentado e a relação benefício/custo da correção e adubação ter sido positiva. A partir desse primeiro nível de intensificação, conclui-se que quanto maior é o nível de intensificação, maiores são os ganhos em:

  1. Redução no custo médio da arroba produzida.
  2. Aumento no lucro por hectare.
  3. Aumento da relação benefício/custo da correção:adubação.
  4. Aumento da lucratividade.

Veja que para ir para o primeiro nível de intensificação o pecuarista gastou R$ 5,10 com a compra de animais para cada R$ 1,00 gasto na correção e adubação. Já no nível máximo avaliado, para cada R$ 1,00 gasto na correção e adubação, o pecuarista teria que gastar mais R$ 7,60 na compra de animais.

Autor: Adilson de Paula Almeida Aguiar – Zootecnista, Professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC – Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda.; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.

 

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2 respostas para “Adubar X Não Adubar?”

  1. Avatar Valdir Ilídio Mardegan - Paraná (PR) disse:

    Gostei muito da matéria, vou iniciar um estudo de planejamento para recuperar as pastagens na fazenda Ribeirão Bonito , Grandes Rios- PR.

    1. Pasto Extraordinário Pasto Extraordinário disse:

      Que bacana, Valdir! Depois volta pra contar pra gente como foi esse planejamento. Agradecemos seu comentário e desejamos sucesso! ?

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