As queimadas no Pantanal

Como os pecuaristas podem contribuir para o combate ao fogo

O fogo consome o Pantanal. Em setembro, como vem sendo amplamente divulgado na mídia, o país bateu tristes recordes históricos: mais de 16 mil focos de incêndio na região e mais de 2,3 milhões de hectares consumidos pelas chamas – quase 19% da planície – até o final do mês.

Os prejuízos são incontáveis, para o planeta e para todos nós: fauna e flora em perigo, com a perda de grande parte de um bioma único, que constitui a maior área inundável do planeta.

Para os pecuaristas, em particular, as perdas quanto aos danos à infraestrutura causados pelo fogo ainda estão sendo calculadas, como os quilômetros de cercas queimadas, que terão de ser repostas, a destruição de muitas pastagens e a morte de gado.

Como os pecuaristas podem ajudar na prevenção dos focos, de forma a reverter essa situação nos próximos anos? As respostas passam por duas vias valorosas: conhecimento e consciência sustentável – ambas interdependentes e complementares. 

Conhecimento: por que tanto fogo?

O Pantanal atravessa a maior seca dos últimos anos. Segundo a Embrapa Pantanal, o volume de chuvas, de outubro de 2019 a março deste ano, a estação chuvosa, foi 40% menor do que a média histórica dos últimos anos. E o Rio Paraguai, o principal rio que alimenta o Pantanal com suas águas, está no nível mais baixo dos últimos 50 anos, com pontos críticos como na cidade de Corumbá, onde chegou a assustadores 25 cm.

Ainda não é um consenso entre os pesquisadores se a seca deste ano constitui um episódio isolado, como já ocorreram em outros anos (por exemplo, a seca de 2005), ou se esse será o “novo normal” no regime de chuvas da região nos próximos anos, uma vez que o grande volume de GEE – Gases do Efeito Estufa – emitido pelas queimadas, em especial o CO2, pode agravar ainda mais a situação climática.

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Fonte: INPE

Marcia Teles e seu filho Pedro Teles Matias, proprietários e gestores da Fazenda Cachoeira, localizada em Bodoquena, região do Cerrado do Mato Grosso do Sul, muito próxima ao Pantanal, explicam também outro fenômeno natural. “No Pantanal existe uma característica chamada “fogo subterrâneo” ou “fogo de turfa”. Queima sem que as pessoas percebam. Isso acontece porque os sucessivos anos de seca criam uma camada de matéria orgânica sobre o solo, que vai produzindo e armazenando gases combustíveis, como um sanduíche. Essa camada entra em combustão, por alguma ação, mas se alastra sem que se perceba – bastam uma lata de alumínio ou um caco de vidro e o reflexo do Sol para o fogo começar. Quem não fez na escola a experiência de colocar fogo num papel com uma lente?”.

Somado aos fatores naturais, no Pantanal há ainda a dificuldade de acesso para combater o alastramento do fogo, já que “muitas vezes a condução ali é feita por rios, que estão secos, o que impossibilita o alcance ao foco e, ainda, ajuda a alastrar as chamas”. E completa: “há também a falta de conscientização de algumas pessoas, que não fazem a queima controlada, não fazem aceiros adequados, o que contribui para o alastramento desse fogo”, enfatizando a importância de uma consciência sustentável no negócio – como a que orienta todas as ações da sua própria fazenda.

Queimada, só controlada

Tradicionalmente, muitos produtores da região usam o fogo para manter o equilíbrio de palhada antes da estação das secas – o conhecido “fogo para combater o fogo”, que busca reduzir o material inflamável existente no pasto para diminuir o risco de incêndios.

Essas queimadas controladas eram costumeiramente realizadas no final da estação das chuvas – antes da chegada do período seco. Mas, de alguns anos para cá, com a diminuição das chuvas e o agravamento das secas, muitas áreas antes sujeitas a alagamento foram convertidas em pastagens, tornando as queimadas mais frequentes, até mesmo em pleno período de seca, quando o risco de se perder o controle do fogo é muito grande.

Por isso, se você tiver que fazer uma queimada controlada, é importante realizá-la com consciência, adotando todas as precauções necessárias e no período certo, no final das chuvas. E quais são esses cuidados? As respostas estão em Os 10 Mandamentos da Queimada Controlada, lançado pela Embrapa. São regras claras e seguras, que minimizam os riscos de alastramento, com planejamento, consciência e cuidados.

Dez Mandamentos da Queimada Controlada

1º – Obter autorização do Ibama para queima controlada.

– Reunir e mobilizar os vizinhos para fazer queimada controlada e em mutirão, de maneira que um possa ajudar o outro. Assim, o calor será menor e o solo será menos impactado com a temperatura.

– Evitar queimar grandes áreas de uma só vez, pois as distâncias dificultam o controle do fogo.

– Fazer aceiros observando as características do terreno e a altura da vegetação. Em terrenos inclinados, o fogo se alastra mais rapidamente, devendo-se construir valas na parte mais baixa, para evitar que o material em brasa saia da área queimada. A largura dos aceiros deve ser 2,5 vezes a altura da vegetação em regiões de pastagens e/ou Cerrado ou ter, no mínimo, 3 metros, para o caso de queima controlada.

– Limpar completamente o aceiro, sem deixar restos de folhas ou paus, de qualquer natureza, no meio da faixa.

– Prestar atenção à força e à direção do vento, à umidade e às chuvas. Só queimar quando o vento estiver fraco. Nunca comece um fogo na direção contrária dos ventos. Inicie no sentido dos ventos. Se a queima for realizada após as primeiras chuvas, é possível evitar o risco de o fogo escapar e evitar os danos causados pelo acúmulo de fumaça no ar.

– Queimar em hora fria. De manhã cedo, no final da tarde ou à noitinha é mais seguro, pois a temperatura é mais baixa e a vegetação está mais úmida.

– Nunca deixe árvores altas, sem serem cortadas, no meio da área a ser queimada. Elas demorarão a queimar, permitindo que o vento jogue fagulhas a distância, provocando incêndios em áreas vizinhas, sobretudo, se forem pastagens.

– Permaneça na área da queimada, após o fogo, pelo menos por duas horas, a fim de verificar se não haverá pequenos focos de incêndio, na vizinhança, provocados pelos ventos.

10º – Tenha sempre disponível, para ser utilizado, em caso de ter de controlar o fogo, o seguinte material: a) enxada; b) abafador; c) foice; d) bomba costal; e) baldes com água.

 

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