Como aumentar a margem da pecuária de corte?

Intensificação da atividade e agregação de valor à produção são algumas possibilidades para o pecuarista, aumentar a margem do negócio. Mas tudo exige planejamento e foco.

margem da pecuária

Nos últimos textos desta série, que abrange a relação entre indústria frigorífica e pecuaristas, comentamos bastante sobre a formação dos preços da arroba, mas lembre-se de que preço não é lucro. Esse é só um lado da balança. E é nisso que focaremos agora. Tão importante quanto avaliar o comportamento dos preços do boi, é avaliar seu custo de produção e tomar as melhores decisões para conseguir aumentar a margem de lucro da pecuária de corte.  Como explicamos anteriormente, quando falamos de commodities, não existe “preço justo”.

Com isso, se beneficia aquele produtor que consegue produzir barato em menos área (não podemos esquecer que na pecuária há um patrimônio importante imobilizado em terra).

A chave: intensificação

O foco é produzir animais mais jovens mais rápido, tornar sua mão de obra mais eficiente, investir na genética dos animais, cortar custos fixos, recuperar ou reformar a pastagem. Uma dessas possibilidades ou a combinação de mais de uma delas.

Seja qual for a origem da intensificação, o que interessa é o ganho em escala, já que a precificação de commodities não beneficia aquele produtor que ganha na unidade, mas sim no volume.

Uso de tecnologia e eficiência produtiva

Para exemplificar os ganhos com intensificação, apresentamos o exemplo a seguir:

Uma fazenda de recria e engorda no norte do Pará tinha 1 funcionário para cuidar de 600 cabeças. Já incluindo os encargos, esse funcionário recebe R$ 2 mil por mês, o que equivale a R$ 3,33 por cabeça ao mês.

Nesse sistema, o ganho médio diário de peso foi 200 gramas por cabeça em 2017, ou seja, demorou 45,8 meses entre a entrada do gado na fazenda e a saída para abate, o que equivale a um custo com mão de obra total de R$ 152,80 por cabeça.

Em 2018, a mesma fazenda decidiu investir em suplementação proteica a pasto. Essa intensificação do sistema permitiu terminar esses animais com 600 gramas de ganho médio diário, em 15,3 meses, a um custo com mão de obra de R$ 50,90 por cabeça.

A fazenda fechou a conta no azul mesmo gastando mais para produzir, pois o que ela economizou com mão de obra foi suficiente para pagar o gasto nutricional.

Essa é uma das maneiras de tornar a fazenda mais produtiva e impulsionar os negócios dentro do competitivo mercado pecuário.

Como comentado no texto anterior, há grande diferença entre o poder da indústria e o poder do produtor, ou seja, por mais eficiente que a fazenda seja dentro da porteira, ter uma boa relação comercial é essencial.

A união faz a força

Uma das maneiras de tentar equilibrar essas forças é a associação entre pecuaristas.

Existem diversos casos de sucesso com esse tipo de atuação coletiva. Mas, como é difícil gerir todas as interações dentro de uma cooperativa, essa forma de coordenação pode acabar não funcionando. No entanto, quando há alinhamento e planejamento dentro do projeto de cooperação, as vantagens são grandes.

O cooperativismo pode aumentar o poder de barganha do produtor, reduzir os custos por meio de compras coletivas (pool de compras) e, mais do que isso, o cooperado faz parte do negócio como um todo.

Em casos mais extremos, a aliança mercadológica é tão intensa e tão alinhada que os produtores se juntam para abrir seu próprio frigorífico.

Deixando de ser commodity

O pecuarista pode tentar diferenciar seu produto e aumentar a margem de comercialização produzindo, por exemplo, um animal que atenda às regras de algum protocolo de certificação de origem e qualidade de carcaça.

Vejamos, como exemplo, a remuneração de produtores que produzem animais de acordo com os pré-requisitos da Cota Hilton¹ (como idade e qualidade de carcaça): eles recebem até R$ 5,00 a mais pelas arrobas produzidas nesse sistema.

Portanto, agregar valor na produção é sim uma saída, mas como tem alto custo, talvez uma estratégia mais acertada e mais simples para garantir a lucratividade na atividade seja intensificar a produção.

Indo mais além, existem produtores que estão posicionados em segmentos específicos do mercado e já trabalham com sua própria marca de carne. Esses produtores têm o giro mais lento das vendas, mas a margem é mais larga.

Eles devem ficar atentos à inovação da produção, exploração de nichos e selos de qualidade, pois quanto mais diferenciada e específica a produção (desde que atenda a uma demanda), mais ele terá poder de precificação sobre o produto.

Conclusão

Existem várias formas de aumentar as vantagens competitivas dentro da pecuária de corte. Cabe ao produtor optar por aquela que melhor de encaixa no seu perfil.

Mas isso deve ser feito com um planejamento estratégico, ou seja, com metas predefinidas. A adoção de alguma tecnologia pode ser um tiro no pé se não for feita com acompanhamento técnico e planejamento (operacional, zootécnico, financeiro e administrativo).

Com este texto, encerramos a série sobre as estruturas do mercado pecuário e as relações envolvendo o frigorífico e o pecuarista.

Um texto completa o outro, portanto, nossa dica é que você leia os outros três artigos que compõem a série para entender melhor as características que fundamentam o mercado e a relação entre o produtor e a indústria.

Parte 1: Como são formados os preços da arroba do boi gordo?

Parte 2: A relação comercial entre frigoríficos e pecuaristas

Parte 3: A relação ganha-ganha com o frigorífico é possível?

Encerramos esta série ressaltando a importância dessa relação e por que existe oportunidade para que seja melhorada. Coordenar melhor a cadeia traz ganhos para todos os lados.

Autora: Marina Zaia – Médica-Veterinária.

 

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