Boi gordo: a lição que o mercado deixou (mais uma vez) em 2020

As cotações não sobem para sempre, e garantir preços em momentos atrativos de venda é uma boa estratégia

O ano que passou não vai deixar saudade para quase nenhum setor da sociedade, mas, em relação aos preços das principais commodities agrícolas, não houve motivos para reclamar.

Mesmo com todos os efeitos negativos da pandemia sobre a economia, o bom ritmo das exportações e os abates em queda deixaram menos carne no mercado doméstico, o que deu espaço para as valorizações do boi gordo.

Gostaríamos de destacar nesta análise dois pontos principais.

O primeiro é que não há mercado que suba ou caia para sempre. Embora essa afirmação seja facilmente assimilada, é muito comum observarmos pecuaristas que seguram o gado indefinidamente, sempre aguardando um preço maior.

Com isso, no último trimestre, o pecuarista reteve o gado à espera de cotações maiores. Quando a margem da indústria chegou a determinado nível, os testes mais fortes de baixa começaram e o produtor aumentou a venda das boiadas, em um cenário de queda.

O segundo ponto é que, enquanto o mercado subia e o vendedor achava que a alta não teria fim, diversas oportunidades estavam à mesa, oportunidades que muitas vezes não foram aproveitadas devido à ilusão de que não havia teto para o mercado.

Vamos tomar o contrato futuro do boi gordo com vencimento em dezembro, na B3, como referência. Para o mercado físico, usaremos o indicador Cepea, que é a referência para fechamento dos contratos futuros. Tanto o indicadorquanto os preços futuros referem-se a cotações à vista, livres de Funrural.  

Desde a máxima observada para o mercado físico, quando a cotação estava em R$ 292,00/@, em 11 de novembro, até o final da segunda semana de dezembro (11/12), a cotação caiu 9,9%, chegando a R$ 263,00/@.

No mercado futuro, considerando o contrato de dezembro, o valor chegou a R$ 294,95/@ em 5 de novembro. Entre essa máxima e a cotação do dia 11 de dezembro, houve queda de 14,7%. Veja a figura 1.

Figura 1.
Preços do boi gordo, R$/@, à vista, livre de imposto, em São Paulo.

Fonte: Cepea / B3

A oportunidade que tivemos

No dia 5 de novembro, no momento da cotação máxima do mercado futuro para dezembro de 2020, a cotação no mercado físico (indicador) estava em R$ 279,90/@. Ou seja, havia a possibilidade, para o pecuarista que quisesse apostar em altas, de travar um valor R$ 15,05/@ maior que a cotação à época.

Ou seja, além de manter o gado em engorda, seja com uma suplementação maior, um semiconfinamento ou mesmo em pastagem, a depender da situação de lotação, o produtor podia garantir “uma alta” equivalente a cerca de R$ 300,00 por cabeça em um boi gordo de 20 arrobas.

O mercado futuro permitiu que o produtor garantisse um preço maior que o da época, o que se somaria ao ganho de peso. Ou seja, mercado e produção a favor de um resultado melhor.

No entanto, ao acreditar que uma alta de R$ 15,00/@ era pouco, o produtor que não travou hoje tem um mercado físico em R$ 263,00/@ e uma projeção de R$ 251,65/@ para o fim de dezembro.  

Considerando o máximo do mercado futuro citado em relação à cotação do dia 11 de dezembro, temos uma diferença de R$ 639,00 por boi de 20 arrobas; e, se considerarmos o contrato futuro de dezembro (11/12), a diferença desde a máxima chega a R$ 866,00 por boi gordo de mesmo peso.

Em resumo, o produtor que queria manter o gado em engorda deveria ter usado alguma das ferramentas de garantia de preços com o mercado sinalizando uma alta importante, como estava. Neste link há um texto explicando algumas das possibilidades que podem ser usadas para garantir as cotações.

A lição que fica

Obviamente, acertar o preço máximo não é o objetivo da trava, mas sim vender ou garantir preços enquanto a situação está positiva.

A trava de preços mínimos, com a compra de uma opção de venda ou diretamente com a indústria, é uma opção se o mercado estiver muito promissor. Mas, como ela tem um custo, o produtor precisa avaliar a sua situação.

É sempre bom lembrar que o mercado não sobe para sempre, e garantir margem e boas noites de sono é uma estratégia melhor do que esperar o rumo do mercado. 

 

Hyberville Neto – médico veterinário, msc.
Scot Consultoria

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