Cacilda Borges do Valle, a “mãe” da Brachiaria

Entenda por que a engenheira agrônoma e pesquisadora é considerada uma das maiores especialistas nessa espécie de capim

Dia do Engenheiro Agronomo

Citada como uma das 100 pessoas mais influentes do agronegócio (Revista Dinheiro Rural – 2013) e escolhida como um dos 10 heróis da Revolução Verde Brasileira (FAO/ONU, ABAG e ANDEF – 2013), Cacilda Borges do Valle é a nossa entrevistada e homenageada neste Dia do Engenheiro Agrônomo. Confira a trajetória de vida da engenharia agrônoma considerada uma das maiores especialistas no capim Brachiaria, uma das variedades de pastagem mais encontradas no Brasil.

Nascida em São Paulo capital, a escolha por cursar Engenharia Agrônoma veio do exemplo da irmã mais velha, que frequentava o curso na Esalq – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba (SP), e das férias passadas nas fazendas do tio em Descalvado, também em São Paulo. Durante o curso, Cacilda teve seu primeiro contato com pesquisa ao iniciar um estágio em iniciação científica em melhoramento de eucalipto. A admiração pela atividade foi imediata e forte, tanto é que até hoje é realizada pela engenheira agrônoma.

Em 1974, um ano após concluir a graduação, veio o convite para uma vaga de emprego em uma nova empresa que estava sendo criada para desenvolver pesquisas agrícolas: a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Um dos pré-requisitos era que o candidato aceitasse fazer pós-graduação no exterior. Cacilda e o marido, também agrônomo, aceitaram prontamente o convite e a pesquisadora iniciou o mestrado em Agronomia – Fisiologia de Pastagens, na Iowa State University of Science and Technology (1977), nos Estados Unidos. Assim que voltou, em 1978, integrou a equipe que trabalhava em produção forrageira para a época seca. “O objetivo do grupo naquela época era minimizar o efeito sanfona do boi, que ganhava peso nas águas e perdia na seca. Eles eram encaminhados ao frigorífico com cinco a sete anos, tendo passado em muito sua melhor fase em termos de carne”, relembra a pesquisadora.

Desenvolvimento de cultivares e a Brachiaria

Após o mestrado, concluído em 1977, a engenheira agrônoma Cacilda Borges manteve participações em atividades de transferência, palestras em sindicatos e dias de campo. Mas o contato com o desenvolvimento de novas cultivares e a Brachiaria veio durante o doutorado nos Estados Unidos, em 1982. “Naquela época, já havíamos iniciado os trabalhos com Panicum (colonião), cuja coleção africana com 426 acessos acabara de chegar a Campo Grande (MS). Ao mesmo tempo, já havia previsão de chegar uma grande coleção de braquiárias por conta de um acordo entre a Embrapa e o CIAT – Centro Internacional de Agricultura Tropical, na Colômbia, e fez viagens de coleta na África entre 1984 e 1985”, conta.

Ela relembra que trabalhou com biologia básica de Brachiaria no doutorado em Illinois e, quando regressou em 1986, uma parte da coleção africana já havia chegado ao Brasil e estava saindo da quarentena. Em 1987, receberam quase 400 acessos dessa coleção e, no ano seguinte, foi plantado o primeiro campo de avaliação agronômica de uns 300 acessos. A equipe continuou a receber o material da Colômbia até 1991 e, hoje, a coleção conta com 450 materiais perenes de 13 espécies diferentes. Começava aí a dedicação dela ao capim e a trajetória que a tornou uma das mais importantes pesquisadoras especialistas na área.

Dia do Engenheiro Agronomo

Acompanhe abaixo a entrevista com a pesquisadora sobre sua trajetória e o trabalho dedicado à pastagem brasileira e à Brachiaria.

Após o início do trabalho e das pesquisas com a Brachiaria, como continuou o caminho para se chegar ao desenvolvimento de novas cultivares do capim?

Cacilda Borges do Valle – Para chegar aos dias de hoje, foi necessário conhecer a parte biológica como o modo de reprodução, o número de cromossomos, o comportamento reprodutivo para produção de sementes. Esses estudos básicos me tomaram uns bons 10 anos. Enquanto isso, ia avaliando a produtividade sob cortes no campo, a resistência às condições de clima e solo, a produção de sementes e selecionando os melhores para passar para o resto da equipe estudar resistência a pragas e doenças, resposta à adubação, métodos de plantio e, finalmente, desempenho animal sob pastejo. Comecei com cruzamentos também desde 1988 e a primeira progênie de híbridos foram para o campo em 1989. Eram cruzamento de B. ruziziensis com B. decumbens ou B. brizantha e me permitiram estudar a herança da apomixia, que é o modo de reprodução assexuado da maioria das espécies desse gênero.

De que maneira continuou essa trajetória que a tornou uma grande referência em pastagem brasileira e na Brachiaria?

Cacilda – Isso veio do pouco envolvimento de outros melhoristas ou citogeneticistas nesse assunto, pois os desafios eram grandes. Mas o assunto é fascinante e fui totalmente envolvida pelo desafio. Houve ainda muito apoio internacional para se estudar a apomixia e fiz parte de um projeto com a União Europeia por cinco anos (entre 1993-1997). Fizemos grandes avanços nos estudos de genética molecular da Brachiaria. Foram vários simpósios internacionais e workshops e inúmeras viagens entre os parceiros – Holanda, Argentina, País de Gales, Colômbia e México.

Você foi citada como uma das 100 pessoas mais influentes do agronegócio (Revista Dinheiro Rural – 2013), escolhida como um dos 10 heróis da Revolução Verde Brasileira (FAO/ONU, ABAG e ANDEF – 2013) e homenageada por isso no Fórum Desafio Brasil 2050, em São Paulo, em outubro de 2013. Como foi trilhar este percurso e se tornar referência no mercado? Quais os seus maiores orgulhos e contribuições para o setor ao longo de sua carreira?

Cacilda – Essa pergunta é intrigante, pois acho que ninguém trabalha pensando em se tornar referência ou almejando prêmios e honrarias. Eu muito menos. Então, quando chegaram, me pegaram de surpresa. Mesmo porque o sucesso é o trabalho da equipe que sempre esteve envolvida nesse trabalho. Era a líder do projeto e das cooperações, mas sem o trabalho de todos não teríamos alcançado o patamar a que chegamos. Meu orgulho maior é ter persistido nesse trabalho, ter formado inúmeros jovens e ter alcançado tantos produtores que hoje usam essas tecnologias. Acho que contribuí tanto para o avanço do conhecimento sobre a biologia e a genética dessas plantas como para a formação de jovens cientistas. E, do lado prático, trouxe alternativas de forrageiras mais produtivas, mais resistentes a pragas e à seca. Com isso, a nossa pecuária é hoje muito mais eficiente e ambientalmente sustentável do que há 40 anos.

Dia do Engenheiro Agronomo

Poderia comentar brevemente sobre os principais projetos já realizados e os em desenvolvimento?

Cacilda – Os projetos iniciais eram de avaliações de desempenho de braquiárias da coleção e desses saíram as cultivares Xaraés, BRS Piatã, BRS Tupi e BRS Paiaguás. Os projetos de melhoramento genético são de médio e longo prazos. Então, como comentei acima, comecei a cruzar em 1988. De um cruzamento que fiz em 1992, lançamos a BRS Ipyporã em 2017, nosso primeiro híbrido. A demora foi também por conta de preparar as outras cultivares pela equipe envolvida, que acabaram saindo na frente do híbrido. Hoje, já temos uma linha de produção e há híbridos em várias fases de desenvolvimento: desde as fases iniciais de avaliação em plantas individuais, passando pelas avaliações em parcelas com repetições, até os ensaios de VCU já visando lançamento. Temos uma forte parceria com a UNIPASTO – Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras, formada por 31 empresas de sementes. Por meio dessa parceria, ganhamos muito em termos de agilidade nos programas de pesquisa e capilaridade na transferência das cultivares não apenas no Brasil mas para toda a América Latina que importa sementes do Brasil.

Quais as principais mudanças percebidas na pecuária brasileira nos últimos anos em relação ao manejo de pastagens e ao melhoramento de plantas? Como os profissionais da área podem otimizar a qualidade do pasto e, consequentemente, aumentar a produtividade?

Cacilda – Os pecuaristas estão assimilando mudanças em um ritmo mais rápido nos últimos anos, fruto da maior facilidade de acesso a informações (mídias eletrônicas), mas também pela pressão econômica. Quem não se inova está perdendo espaço no mercado ou abandonando a atividade. A integração lavoura-pasto promoveu uma grande mudança nas demandas sobre a pesquisa, pois esse produtor está mais aberto a novas tecnologias e acostumado a riscos maiores. Com isso, vem exigindo forrageiras mais específicas para beneficiar suas lavouras, mais produtivas e responsivas ao aumento de fertilidade no solo após a lavoura e que deixem mais matéria orgânica no solo, mais fáceis de dessecar com herbicida para facilitar o plantio direto.

Na pecuária exclusiva, por exemplo, com a melhoria da genética animal, veio também a exigência em melhoria da pastagem e, principalmente, da observação do melhor manejo da pastagem. Hoje, há informações bastante precisas sobre como melhor obter ganhos com cada cultivar. Há aplicativos de celular, como o PastoCerto, que auxiliam tanto na escolha da cultivar como no manejo do pasto, planilhas de gerenciamento da fazenda (Gerenpec), controle de rebanho, reprodução animal, enfim, meios existem para fazer a atividade mais rentável e sustentável. Por isso, os profissionais da área tem um vasto ferramental à disposição para melhor gerir sua pecuária. Tem é que fazer uso de tudo isso e, na dúvida, sempre consultar um agrônomo, veterinário ou zootecnista. Eventos para aprimorar conhecimentos também existem às centenas, basta participar.

 

Os nossos parabéns ao trabalho e à dedicação de Cacilda Borges e tantos outros profissionais engenheiros agrônomos que contribuem para o desenvolvimento e a melhoria da agropecuária brasileira.

Clique e leia a matéria completa

Tags

Compartilhe nas suas Redes Sociais:

Cadastre-se e tenha acesso a conteúdos exclusivos e personalizados

Cadastro

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*