Case de sucesso: intensificação pecuária no Mato Grosso

A pecuária no Mato Grosso é um exemplo de que a aplicação de tecnologia no sistema traz resultado à atividade. Saiba por quê.

A pecuária de corte no Mato Grosso é conhecida nacionalmente por seu grande rebanho.  Atualmente, o estado ostenta o maior rebanho de bovinos de corte do país, com 29,7 milhões de cabeças, o que representa cerca de 14% de todo o efetivo nacional (IBGE).

O que chama atenção é que, nos últimos anos, o rebanho do estado cresceu em maior proporção do que as áreas de pastagens. No Censo Agropecuário de 2006, a área de pastagem do estado totalizava 22 milhões de hectares, já em 2017, esse número estava em 23 milhões de hectares, aumento de 4,4% (IBGE). Nesse mesmo período, o rebanho bovino cresceu cerca de 3,6 milhões de cabeças, o equivalente a 14%.

O crescimento da produção em maior proporção do que a área de pastagens mostra que o produtor do estado está produzindo de forma mais eficiente e mais sustentável, tanto que, entre 2006 e 2017, a produção de carne bovina no Mato Grosso saltou de 49,1 kg para 55,6 kg por hectare. 
 
Essa melhoria da produtividade é resultado do maior uso de tecnologia nas propriedades e é demonstrada pela evolução dos índices a seguir.  

Aumento do peso de abate

De 1997 a 2017, o peso médio de abate dos bovinos no estado aumentou aproximadamente 16%, e está atualmente em 266,8 kg de carcaça. Para se ter uma ideia, no mesmo período, o peso médio de abate na média nacional cresceu cerca de 11% e, atualmente, está em 248,9 kg de carcaça, de acordo com o IBGE.

Ou seja, Mato Grosso conseguiu elevar o peso de abate dos seus animais acima da média nacional, e hoje os animais abatidos no estado são cerca de 7,2% mais pesados do que na média do país, ainda de acordo o IBGE.

Figura 1
Peso médio de abate de bovinos, em quilos de carcaça.

Figura 1 - Peso médio de abate de bovinos, em quilos de carcaça.

Fonte: IBGE | Elaborado por Scot Consultoria

Idade de abate diminuindo

Além de serem abatidos mais pesados, os animais estão atingindo o peso ideal para o abate mais precocemente

Segundo dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA), apenas 2% dos bovinos abatidos no Mato Grosso, em 2006, tinham menos de 24 meses de idade; 33% entre 24 e 36 meses e 65% acima de 36 meses. Já em 2017, do total abatido, cerca de 15% tinham menos de 24 meses, 47% entre 24 e 36 meses e 39% acima de 36 meses.

Terminar a boiada mais pesada e em menor tempo é o resultado que todo pecuarista busca, pois dessa forma aumenta o giro da produção e há diluição dos custos fixos e indiretos, o que significa melhora do resultado financeiro.

Muitos devem estar pensando que para chegar a esses resultados sejam necessários grandes investimentos e maior aporte financeiro, o que, de certa forma, limita o processo. Mas o que talvez nem todos saibam é que o dinheiro para intensificar a produção pode estar dentro do próprio sistema. Parece um pouco desafiadora essa afirmação, certo? Pois bem, acompanhe a simulação abaixo e tire suas próprias conclusões.

Simulação da intensificação pecuária

Tomando como base uma propriedade onde um funcionário gera um custo mensal de R$ 2 mil, entre salários e impostos, e a relação de cabeças por funcionário é de 600 animais, o custo mensal de mão de obra será de R$ 3,33 por cabeça ao mês (R$ 2 mil/600).

Nessa propriedade, são comprados bezerros aos 12 meses de idade, com média de peso de
225 kg e os animais são recriados e terminados, com peso final de 500 kg.

Definidos o custo de mão de obra e os pesos de entrada e saída dos animais, vamos simular dois sistemas de produção. No sistema A, o nível de tecnologia aplicado é baixo e gera um ganho médio diário de 200 gramas. Já no sistema B, há maior intensificação e o ganho médio diário é de 600 gramas.

De acordo com o ganho de peso do sistema A, para atingir os 500 kg, o animal permanecerá na fazenda durante 45 meses. Já no sistema B, o tempo necessário para a terminação é de 15 meses.

Se multiplicarmos o tempo de terminação de cada um dos sistemas pelo custo mensal de cada animal com mão de obra (R$ 3,33), teremos os seguintes resultados:

Tabela 1
Custo mensal de mão de obra por cabeça.

Tabela 1 - Custo mensal de mão de obra por cabeça.

Fonte: Scot Consultoria

A redução do tempo de terminação gera uma redução do custo com mão de obra de aproximadamente R$ 100,00 (R$ 152,78 – R$ 50,93).

Supondo que os animais dos dois sistemas foram recriados e terminados em pastos arrendados e considerando um custo de arrendamento de R$ 30,00 por cabeça/mês, os 30 meses a menos na terminação garantiriam ao sistema B uma economia de R$ 900,00.

Somando as economias com mão de obra e arrendamento, chega-se ao montante de R$ 1 mil por cabeça. Se aplicarmos essa economia no próprio sistema, o pecuarista terá disponível para investimentos em tecnologias, R$ 66,66/mês ou R$ 2,22/dia, a mais. Essa quantia é suficiente para pagar os custos das tecnologias para reduzir a idade de abate dos animais.

Em outras palavras: a diluição dos custos fixos e indiretos gerou economia capaz de financiar o próprio sistema, garantindo ao produtor giro mais rápido dos animais.

Na mesma área, em 45 meses, ao invés de terminar um animal, o produtor passa a terminar três animais, incrementando a produção de arrobas/hectare/ano e, consequentemente, elevando a receita da atividade.

Essa simulação foi feita de acordo com parâmetros médios, que podem variar de fazenda para fazenda, mas é um bom indicador para analisar o retorno que a intensificação traz ao sistema. E aí, se convenceu?

Produto com valor agregado = mais oportunidades para o pecuarista

Além do maior ganho por área, outro ponto a ser destacado é que a melhora da qualidade dos animais produzidos agrega valor ao produto e facilita a negociação da boiada na hora do abate. Afinal, que frigorífico não quer um animal de melhor acabamento em sua escala de abate?

Lembrando que, animais de maior valor agregado despertam interesse para exportação, gerando mais um canal de escoamento para o pecuarista e melhoria da receita, devido ao pagamento de bonificações para esse tipo de negociação. E conforme a produtividade aumenta no Mato Grosso, o volume de carne bovina exportado pelo estado também se eleva.

Em 2003, por exemplo, o volume de carne bovina embarcado pelo estado foi de cerca de 90 mil toneladas equivalente carcaça (tec). De lá pra cá, esse volume mais que triplicou e, em 2017, foram exportadas cerca de 350 mil (tec), de acordo com a Secretaria do Comércio Exterior (SECEX).

Ou seja, o aumento na produtividade também permitiu ao estado aumentar o escoamento da produção por meio das exportações, o que contribuiu para o aumento da renda gerada pela bovinocultura de corte.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o valor bruto da produção (VBP¹) da bovinocultura de corte no Mato Grosso, acumulado de janeiro a outubro de 2018, é de aproximadamente R$ 12 bilhões, maior valor entre todos os estados, com representatividade de 15,7% do total.

Quando comparamos os valores desde o início da última década (2010) até aqui, o VBP da bovinocultura do estado cresceu 35,8%, aumento superior ao observado pelo país no mesmo período, que foi de 24,9%.

Conclusões

Antes caracterizada por propriedades com baixa aplicação de tecnologia, hoje a pecuária do Mato Grosso se destaca não só pelo tamanho de seu rebanho, mas também pela capacidade produtiva.

Esse cenário só foi possível graças ao produtor mato-grossense, que fez e faz a lição de casa da porteira para dentro, aumentando o investimento em genética, nutrição, sanidade, controle de plantas daninhas em pastagens, melhorando, assim, a gestão das fazendas. Ainda há muito a ser feito, mas as mudanças de gestão já estão se mostrando eficazes, resultando em mais geração de renda, o que beneficia toda a cadeia pecuária.

O pecuarista ganha, porque consegue melhorar o seu resultado financeiro. As empresas e os profissionais do setor ganham, porque o investimento do pecuarista aumenta. E os frigoríficos ganham com a maior oferta de animais de valor agregado em suas escalas.

¹O Valor Bruto da Produção (VBP) mostra a evolução do desempenho das lavouras e da pecuária, ao longo do ano, e corresponde ao faturamento bruto dentro do estabelecimento. Calculado com base na produção da safra agrícola e da pecuária e nos preços recebidos pelos produtores nas principais praças do país, dos 26 maiores produtos agropecuários do Brasil. O valor real da produção, descontada a inflação, é obtido pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Sua periodicidade é mensal com atualização e divulgação até o dia 15 de cada mês. A estimativa do VBP é elaborada pela Coordenação-Geral de Estudos e Análises (CGEA) do Departamento de Crédito e Estudos Econômicos (DCEE) da Secretaria de Política Agrícola (SPA).

Referências
Banco de dados Scot Consultoria
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA)
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)

Autor:  Breno de Lima – Zootecnista

 

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8 respostas para “Case de sucesso: intensificação pecuária no Mato Grosso”

  1. Avatar Gustavo Grando Spanholi - Mato Grosso (MT) disse:

    Que material magnifico…Colocações e exemplos muito bem organizados, de fácil compreensão de muita valia. Rico material parabéns.

    1. Pasto Extraordinário Pasto Extraordinário disse:

      Agradecemos seu comentário, Gustavo! Ficamos muito felizes que tenha gostado da matéria. Esperamos ter a sua participação mais vezes por aqui.

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