Coronavírus e o mercado do boi

Cenário de demanda doméstica lenta e exportações recordes em março.

Demanda doméstica em quarentena e China de volta ao jogo

O alastramento do coronavírus no Brasil a partir do início de março e a turbulência decorrente das medidas de controle da expansão da doença deixou o cenário econômico incerto. Faremos um breve histórico do mercado do boi gordo desde o início da crise, com expectativas para o curto prazo.

No primeiro momento, também sujeitos à incerteza, os frigoríficos pressionaram fortemente as cotações. Na semana iniciada em 16 de março, foram comuns frigoríficos emitindo ofertas de compra entre R$ 15,00/@ a R$ 20,00/@ menores que as ofertas de compra vigentes na semana que terminou em 13 de março, sexta-feira.

Com as pastagens em boas condições, o produtor não se abalou e aguardou. Mesmo alguns frigoríficos tendo decretado férias coletivas, na semana iniciada em 23/3, o cenário foi de mercado voltando à normalidade. A demanda adicional pela carne bovina, com parcela da população fazendo estoques por causa da determinação do “ fique em casa”, teve influência.

Com o fechamento generalizado de restaurantes e bares, uma via importante de escoamento da produção foi interrompida. Para o boi gordo, na semana iniciada em 27/3, especificamente no dia 30, as ofertas de compra abaixo da referência voltaram, justificada pelos compradores em função da dificuldade no mercado doméstico.

Enquanto no Ocidente a situação está piorando, na China, onde o vírus foi detectado primordialmente, o quadro é de volta paulatina à “normalidade”, incluindo importações.

Em março, as exportações brasileiras de carne bovina in natura foi recorde para o mês e no trimestre. O dólar valorizado ajuda os embarques.

Esta semana começou com frigoríficos experimentando o mercado e, devido ao volume menor de abates diários, as escalas não estão apertadas. Com isto, as ofertas de compra observadas na segunda-feira (6/4) deverão continuar nos próximos dias, mas com boa procura pelas categorias que atendem ao mercado chinês.

Atenção à demanda por lácteos

Segmento de food service foi o mais afetado e essa queda de demanda pode tirar a sustentação dos preços do leite e seus derivados em curto e médio prazos.

Nas primeiras semanas de março houve uma “corrida aos supermercados” para abastecimento e estoque, em função das medidas para conter a pandemia de coronavírus, como a quarentena.

A procura aumentou, especialmente por leite longa vida e leite em pó, que possuem prazos de validade maiores.

Consequentemente, os preços subiram. Segundo a Scot Consultoria, em março, no caso do leite longa vida, as altas foram de 9,5% no atacado (preço na indústria) e de 6,9% nos supermercados de São Paulo.

Além da maior movimentação, a oferta de matéria-prima em queda desde o final do ano passado nas principais bacias leiteiras do país deu sustentação ao mercado.

No pagamento realizado em março, foi registrada a quarta alta consecutiva no preço do leite pago ao produtor.

Expectativas

Historicamente, as cotações do leite e derivados tendem a subir nesse período, de início de entressafra.

A questão é que com o fechamento de bares, restaurantes, lanchonetes e hotéis, as vendas de lácteos foram prejudicadas. O mercado de queijos foi o mais afetado, já que 30% da produção nacional é destinada para food service.

Com uma demanda menor, os queijeiros reduziram a produção e vêm ofertando um volume maior de leite no mercado spot, que é o leite comercializado entre as indústrias. Com isso, as cotações do leite spot recuaram na segunda metade do mês passado e deverão seguir frouxas nas primeiras semanas de abril, caso a demanda não reaja.

Essa demanda mais fraca na ponta final da cadeia e a maior oferta no mercado spot deverão “esfriar” o mercado em abril. O viés é de manutenção nos preços do leite ao produtor, mas quedas pontuais não estão descartadas, principalmente nas regiões produtoras de queijos.

Alta nos preços do milho e farelo de soja

Dólar valorizado e boa demanda até então puxaram para cima os preços dos alimentos concentrados. Atenção à demanda, ao clima e ao câmbio.

Os preços do milho subiram no mercado interno, em função do câmbio valorizado, da demanda firme e expectativas de estoques menores nesta temporada (2019/2020).

De acordo com a Scot Consultoria, na região de Campinas-SP, a saca de 60kg ficou cotada em R$ 60,00, sem o frete (6/4), com negócios pontuais até R$ 62,00 no início de abril.

Em relação à média de abril do ano passado, a cotação do milho está 47,3% maior este ano.

Para as próximas semanas, além do clima e situação da segunda safra de milho, em fase de desenvolvimento, outro ponto de atenção é a demanda, já que as vendas fracas de carne no mercado interno poderão levar a ajustes do lado produtivo (aves e suínos), o que resultaria em uma menor demanda interna por milho e farelos.

No mercado físico, os preços perderam sustentação na primeira semana de abril e, em curto prazo, não estão descartadas quedas, em função da menor movimentação interna.

De qualquer forma, não existe espaço para fortes recuos até o início da colheita da segunda safra e aumento da disponibilidade interna.

Lembrando que as exportações brasileiras de carnes de frango e suína estão firmes mesmo diante da pandemia. Essa demanda aquecida para a produção para exportação, somada à menor oferta de milho no ciclo atual, deverá manter os preços em patamares acima dos verificados no ano passado.

No caso do farelo de soja, as cotações acompanharam as valorizações da soja em grão, que, por sua vez, subiu devido ao dólar valorizado e à boa demanda interna e para exportação.

Em Paranaguá-PR, a saca de soja de 60kg está cotada em R$ 100,00 (6/4), uma alta de 29,2% na comparação ano a ano.

No caso do farelo de soja, as referências giram em torno de R$ 1,6 mil por tonelada, sem o frete, no Centro-Sul do país, frente a negócios em até R$ 1,1 mil por tonelada em igual período do ano passado.

A expectativa é de preços firmes para o farelo de soja em curto prazo, mesmo com a maior disponibilidade interna (colheita da soja na reta final) e aumento do esmagamento.

Rafael Ribeiro – zootecnista, msc.
Hyberville Neto – médico veterinário, msc.
Scot Consultoria

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