Driblando a estacionalidade com o diferimento das pastagens

Técnica é utilizada para contornar épocas que não são favoráveis à produção de alimento.

A pecuária brasileira tem em suas pastagens o principal componente nutricional para alimentação do gado e seu mais importante aliado no mercado globalizado, devido ao seu ótimo custo-benefício.

No entanto, a estacionalidade de produção forrageira, que acompanha o volume de chuvas no país (figura 1), é responsável por um dos principais problemas da produção, a taxa de lotação animal ao longo do ano.

Figura 1.
Gráfico de pluviometria com valores médios mensais de 1991 até 2020.

Fonte: INMET / Elaboração: Scot Consultoria

Os avanços em áreas de avaliação, de utilização e manejo de pastagens, permitidos pelo implemento de tecnologias, refletem de forma positiva na viabilidade e na rentabilidade econômica final da atividade pecuária.

As pastagens têm capacidade de produzir grandes quantidades de matéria seca digestível se tratadas como culturas produtivas e se realizado os devidos manejos, que envolvem a adubação, correção de solo e técnicas intensificadas de produção.

Nesse sentindo, uma das alternativas utilizadas para contornar essa estacionalidade é a vedação das pastagens, que refere-se ao acúmulo desse volume com o “fechamento” de uma determinada área, que ficará sem a presença de animais para pastejo.

Técnica de vedação e seu uso

O parâmetro para definir a época do diferimento/vedação pode provocar dúvidas.

Caso a área seja vedada muito cedo, o valor nutritivo da forragem quando for utilizada será baixo. Em contrapartida, um período de vedação curto pode resultar no menor acúmulo de forragem.

A técnica do pastejo em área vedada, na teoria, é bastante simples. Seleciona-se uma área na propriedade que não fará parte da rotação do pastejo de verão, deixando a cultura se desenvolver no solo sem que haja a presença de animais na área e, a partir daí, espera-se o acúmulo de forragem, visto que ela não terá o seu crescimento cessado pelo pastejo.

Na chegada do período da seca, em que consequentemente a capacidade de suporte e a qualidade nutritiva das pastagens são menores, seleciona-se uma parte do rebanho que tem maior demanda nutricional e a deixa alocada nessa área de maior oferta de pasto.

É importante ressaltar o uso de técnicas de adubação, principalmente a nitrogenada, no terço final do período das águas. Busca-se com isso o melhor desenvolvimento da forragem juntamente com aumento de qualidade.

Planejamento

O planejamento em relação à oferta e à demanda de forragem deve ser feito no início de cada ano agrícola, sendo a vedação das pastagens uma estratégia passível de ser adotada pelos produtores.

É interessante que a área seja vedada, em média, de dois a quatro meses antes do fim da época das águas, com o intuito de gerar bom acúmulo de massa verde sem que haja senescência do material.

Com um bom planejamento, há a possiblidade de usar a vedação como estratégia comercial, pela possibilidade de quantificar o volume de matéria acumulada e, consequentemente, quantidade de bovinos que utilizarão as pastagens por um período predefinido.

Uma técnica interessante seria ordenar a vedação, ou seja, realizá-la em diferentes momentos da época de chuva, com foco em obter um material de melhor qualidade.

Parâmetros a serem observados

Para zonear o diferimento de pastagens é necessário saber o ponto ideal de “colheita” desse volumoso – entende-se como colheita o ato dos bovinos pastejarem a área em questão.

A principal preocupação deve ser o acúmulo de elevada quantidade de massa, evitando o tombamento das plantas em virtude de sua altura. O tombamento está ligado à perda de forragem, além da baixa eficiência e aproveitamento do que foi acumulado.

Zonear todos esses parâmetros de forma correta pode ser útil no auxílio a técnicos e produtores que utilizam da técnica de vedação.

Escolha de cultivares

De forma geral, recomenda-se aos produtores o uso de cultivares que melhor se encaixa no seu sistema de produção, não existindo regra.

Porém, recomenda-se, para o uso de vedação, plantas que possuem baixo acúmulo de haste (por diminuir qualidade da planta) e uma maior retenção de folhas verdes, buscando melhores valores nutritivos dentro do período que os pastos serão pastejados em época de seca.

Em gramíneas forrageiras, o alongamento das hastes normalmente se dá concomitante ao florescimento da cultura. Nesse período, a relação folha/haste diminui pelo fato de o crescimento das hastes se tornar maior e a quantidade de folha reduzir após o surgimento de inflorescências.

Como método comparativo, abordaremos algumas situações de um estudo realizado pela Embrapa. O estudo utilizou os capins decumbens e o capim-marandu (Brachiaria brizantha) para comparar a disponibilidade e composição das forragens que foram vedadas no fim de janeiro e utilizadas de junho a setembro.

Há duas formas para a vedação dos pastos: única ou escalonada

Abaixo, apresentamos os resultados para vedação única utilizada para dois tipos de capim e dois períodos.

A pastagem foi vedada em um período de crescimento intenso (janeiro-junho/setembro), resultando em acúmulo de grande quantidade de material, apesar da menor qualidade (setembro).

Tabela 1.
Disponibilidade e composição da decumbens e do capim-marandu vedados no fim de janeiro e utilizados de junho a setembro.

Fonte: Embrapa / Elaboração: Scot Consultoria

Os mesmos capins foram utilizados para realizar uma vedação escalonada, prática esta que requer um manejo mais complexo, possibilitando a utilização de forragem de melhor qualidade, uma vez que os períodos de vedação são menores ou realizados em épocas de menor crescimento da planta.

Tabela 2.
Disponibilidade e composição da decumbens e do capim-marandu vedados em fevereiro e março e utilizados a partir de maio e de agosto.

Fonte: Embrapa / Elaboração: Scot Consultoria

Produzir nas águas para alimentar na seca

A vedação das pastagens é uma técnica relativamente simples, com capacidade de elevar de forma significativa a taxa de lotação animal das pastagens, podendo chegar a acréscimos de 2 UA/ha, se realizada corretamente.

A adubação e o bom manejo das pastagens são capazes de proporcionar melhorias nos índices de produtividade e zootécnicos. Dessa forma, a combinação de todas as alternativas citadas, principalmente o bom manejo no período das águas, possibilitará uma capitalização efetiva no desempenho em épocas de seca.

A estacionalidade na produção das pastagens é um fator-chave para que se realize o planejamento efetivo nas propriedades que têm o capim como forma de explorar a atividade pecuária.

Com a curva de estacionalidade de cada região, é possível determinar a área necessária para produção de alimento voltada para o período seco. Porém, deve-se ainda incluir o clima do lugar (envolvendo temperatura, pluviosidade e luz) e o histórico e uso do solo, como níveis de fertilidade, o potencial produtivo, o que foi plantado anteriormente, entre outros fatores.

A alternativa de vedação das pastagens como forma de driblar escassez de alimento deve ser realizada na época de chuva, garantindo, assim, qualidade e produtividade animal.

Bibliografia consultada

EUCLIDES, VPB; DE QUEIROZ, H. P. Manejo de pastagens para produção de feno-em-pé. Embrapa Gado de Corte-Séries anteriores (INFOTECA-E), 2000.

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