ESG estimula o uso de práticas sustentáveis na pecuária de leite

Sigla que representa indicadores de sustentabilidade para reduzir impacto das mudanças climáticas no mundo é a base do projeto Net Zero da Nestlé

Três letras prometem mudar a vida dos pecuaristas de leite nos próximos anos: ESG. São iniciais em inglês de Environmental, Social e Governance, que expressam os indicadores de sustentabilidade ambiental, social e de governança como resposta das empresas e do mercado financeiro às mudanças climáticas.

Cada vez mais, as organizações que investem nos princípios preconizados pela ESG obtêm vantagens de investidores, instituições bancárias e consumidores, o que aumenta a sua lucratividade e o valor no mercado. Em um movimento em cadeia, corporações de vários setores econômicos estão não só investindo em práticas sustentáveis, mas incentivando seus fornecedores e parceiros a seguir o exemplo. E essa tendência está começando a alcançar a pecuária de leite.

“O mercado financeiro percebeu que a sociedade quer um outro tipo de desenvolvimento que, além de inclusivo, exija que as empresas pensem a longo prazo”, explica o economista Paulo do Carmo Martins, chefe-geral da divisão de Gado de Leite da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). “Por isso, o mercado pressiona os conselhos de administração das empresas. Num efeito cascata, a pressão passa para CEOs, diretores e gerentes, chegando a fornecedores, colaboradores e compradores”, complementa.

O conceito de ESG não é novo. Já nos anos 1990 o economista britânico John Elkington dizia que a missão das empresas extrapolava a geração do lucro e residia na promoção da sustentabilidade ambiental, transparência na governança e redução das desigualdades sociais. A sigla voltou ao cenário econômico no começo de 2020, quando Larry Fink, CEO do fundo de investimentos BlackRock, responsável pela gestão de ativos da ordem de US$ 9 trilhões, convocou o mercado financeiro a inserir em seu portfólio apenas empresas com práticas sustentáveis, a fim de reduzir a emissão de gases que provocam o efeito estufa e mitigar o impacto das mudanças climáticas.

Embora tenha origem no mercado financeiro, o princípio da governança sustentável inserida no ESG está em plena sintonia com as cobranças da sociedade civil sobre o agronegócio. De olho nessa demanda, a Embrapa Gado de Leite, por exemplo, inaugurou em 2020 um campo experimental do sistema Compost Barn, no município de Coronel Pacheco, em Minas Gerais.

A iniciativa integra a pesquisa “Vacas e Pessoas Felizes”, sobre a produção sustentável. A experiência é realizada em um galpão fechado dotado de câmeras e sensores, que monitoram o ambiente, controlam a temperatura, a atividade das vacas e a luminosidade. Além de promover o bem-estar animal, o ambiente torna a rotina de trabalho mais confortável para o produtor e os empregados.

Produção de leite Net Zero e baixo carbono

Para ampliar suas credenciais verdes, a gigante suíça Nestlé fechou parceria em fevereiro de 2021 com a Embrapa para a criação do protocolo nacional para pecuária de leite de baixo carbono, desenvolvido em diferentes fases, como a validação das métricas e indicadores de sustentabilidade até a etapa de criação de uma calculadora, que medirá o balanço de carbono equivalente das propriedades leiteiras. A partir dessa calculadora, será possível direcionar, de forma personalizada, ações para que o produtor consiga reduzir suas emissões.

Em julho, as duas entidades firmaram um acordo para pesquisa e desenvolvimento das primeiras fazendas de produção de leite Net Zero e baixo carbono do país, por meio de recomendações técnicas e suporte em propriedades produtoras que iniciarão a conversão para redução ou neutralização de carbono.

O projeto integra o compromisso global da Nestlé de neutralizar todas as emissões de suas operações, incluindo suas cadeias de fornecimento, até 2050, com metas intermediárias de redução de 20% até 2025, e de 50% para 2030.

“A iniciativa é parte de um grande trabalho da Nestlé dentro do seu pilar de agricultura e pecuária sustentáveis, que a companhia conduz em todos os países em que atua e em suas principais cadeias de fornecimento, com um olhar para questões como o bem-estar animal, emissões e mudanças climáticas e uso de água e energia nas propriedades”, declara Barbara Sollero, gerente de Desenvolvimento de Fornecedores e Qualidade da Nestlé Brasil.

O economista Paulo do Carmo Martins afirma que o compromisso da Embrapa com a Nestlé é implantar o projeto em duas estruturas próprias, pasto e Compost Barn; acompanhar 20 propriedades de fornecedores da Nestlé em São Paulo, Minas Gerais e Goiás e, ainda, promover cursos de capacitação, presenciais e a distância, sobre práticas para mitigação da emissão de carbono e adoção de agricultura regenerativa na produção de leite. Por último, a Embrapa vai elaborar desafios de inovação para encontrar startups capazes de oferecer soluções aos problemas encontrados.

Não sabemos ainda como fazer. Estamos reunindo as competências de Nestlé e Embrapa para construir este ambiente de produção de leite com baixo carbono e carbono neutro”, diz Martins. O aprendizado inclui a medição da pegada de carbono, o rastreamento da cadeia do leite, a reciclagem de materiais, o reúso de recursos naturais e a redução do desperdício. “Um outro desafio será aprender a realizar essas ações em um ambiente tropical”, observa.

A pecuária leiteira no Brasil em números

O Brasil está entre os cinco maiores produtores de leite de vaca no mundo, ficando atrás de União Europeia, Estados Unidos, Índia e China. Dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o país produziu 33,5 bilhões de litros de leite em 2017, 74% a mais que o registrado em 2000, que foi de 19,2 bilhões.

O crescimento resultou do aumento da produtividade por animal, que subiu de 1,6 mil litros em 2006 para 2,6 mil litros em 2017. De acordo com o Censo Agropecuário, o Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional de produtividade com 4.301 litros de leite por vaca por ano. Em seguida, vêm Santa Catarina (4.062 litros por vaca/ano) e o Paraná (3.826 litros por vaca/ano).

O mercado interno de leite responde por mais de 95% da demanda total e, ainda assim, a produção local não consegue suprir toda a demanda. Em 2020, o país importou 171 toneladas de leite, principalmente leite em pó, oriundos da Argentina, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Chile e Finlândia. Nesse mesmo período, exportou 28,9 toneladas de leite, principalmente leite em pó, seguido do leite UHT e queijos. Os maiores consumidores foram Argélia, Venezuela, Estados Unidos, Argentina e Uruguai.

Leia também: Mercado do leite: de olho nos custos de produção e na demanda interna 

Embora as vendas para o mercado externo sejam dependentes das oscilações do câmbio, o Brasil tem tudo para ser um grande exportador de lácteos, por causa de sua sólida estrutura produtiva, clima favorável e parque industrial distribuído pelo território nacional. O relatório do Cadeia Agroindustrial do Leite, do Ministério da Indústria, Comércio e Serviços, vincula o crescimento da produção do leite ao maior consumo interno de lácteos e às exportações. A ampliação do mercado interno depende do aumento de renda do consumidor ou queda dos preços do produto final. E o incremento das exportações está associado ao custo da matéria, escala de processamento e produtos inovadores.

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