Exportação de carne bovina: cenário atual e impactos no mercado global

A demanda por proteína bovina está aumentando e acontecimentos recentes podem mudar a dinâmica dos principais agentes do mercado.

exportação de carne bovina

Em 2018, o mundo todo produziu 62,2 milhões de toneladas de carne bovina. Para 2019, as projeções indicam que a produção global de carne deverá crescer 0,6%, saltando para as 62,6 milhões de toneladas, segundo informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

O volume parece grande, mas, se dividirmos essa quantidade por todos os habitantes da Terra, que são aproximadamente 7,6 bilhões de pessoas, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o resultado é a quantidade de 8,1 kg de carne por habitante por ano.

Ou melhor, é como se cada habitante consumisse somente 160 gramas de proteína bovina por semana, isso se dividido igualitariamente.  

Portanto, a primeira impressão quando analisamos a produção total de forma isolada é de que produzimos uma imensa quantidade de carne, contudo, ainda há oportunidade tendo em vista a nossa elevada densidade populacional.

Em suma, a população tem crescido em ritmo muito maior do que a produção. E não podemos deixar de mencionar que, além desse acréscimo populacional, há também o aumento da renda per capita, fator que impacta diretamente no consumo de carne bovina.

Dessa maneira, países com vantagens competitivas na produção de gado, com recursos naturais disponíveis, por exemplo, são fundamentais para suprir a demanda global por meio da comercialização internacional.

Em 2018, foram exportadas 10,5 milhões de toneladas de carne bovina no mundo e, para 2019, as projeções indicam que o total será de 10,8 milhões.

Ao longo deste texto, você vai conferir os principais países envolvidos no comércio global da proteína, bem como suas características de produção e de mercado.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e de toda a carne que “viajou” pelo mundo em 2018, 20% era brasileira. Mas, além dele, outros países têm se consolidado no comércio internacional como grandes exportadores de carne.

De acordo com o desempenho das exportações no ano passado, o segundo lugar foi ocupado pela Índia com 16% do mercado, seguido pela Austrália com 15% e Estados Unidos com 14% do mercado (USDA). É interessante observar o quão competitiva a Austrália é considerando seu tamanho, já que apenas 32 municípios brasileiros equivalem a todo o rebanho australiano.

Veja no gráfico abaixo a evolução da exportação de carne bovina dos quatro principais países exportadores nos últimos 20 anos.

Figura 1.
Evolução da exportação de carne bovina, por país, em mil toneladas.

Exportação de carne bovina

Fonte: USDA | Elaborado por Scot Consultoria

Índia, Austrália e EUA brigam pelo segundo lugar, contudo, o Brasil segue como líder isolado, respaldado por suas vantagens competitivas relacionadas, principalmente, ao baixo custo de produção.

Em outra oportunidade, já falamos sobre a exportação brasileira de carne bovina, bem como suas particularidades e oportunidades em comparação ao mercado mundial.

A Índia, segunda maior exportadora, possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 300 milhões de cabeças, composto também por búfalos. Contudo, abatem somente algo em torno de 38 milhões de animais por ano, ou seja, a taxa de desfrute do rebanho indiano é baixa. A produção de carne, em 2018, foi de 4,3 milhões de toneladas, sendo que 1,6 milhões foram exportadas.

O consumo interno na Índia é reduzido porque grande parte da população, aproximadamente 80%, segue o hinduísmo, religião que prega que a vaca é um animal sagrado, portanto, o consumo da carne é proibido.

Em alguns estados, o abate também é proibido, mas alguns deles possuem leis mais flexíveis que permitem. Além disso, também existem inúmeros abatedouros ilegais que processam e vendem a carne bovina no país.

Por lá, os consumidores de carne bovina fazem parte do grupo não hindu, composto principalmente por muçulmanos, os quais consomem aproximadamente 12 kg da proteína bovina por ano (Meat & Livestock Australia – MLA).

No mercado externo, o país atende compradores de baixa exigência, que procuram por carne “mais barata”. Dentre seus principais importadores, estão principalmente países do Sudeste Asiático como Vietnã, Malásia, Indonésia, além da Arábia Saudita e do Egito. Em média, a carne indiana foi exportada por US$3,90/kg em 2017 (MLA).

Assim como o Brasil, a Índia não possui o status de país livre de Febre Aftosa, o que limita seu acesso a diversos mercados.

Na Austrália, terceira maior exportadora, o cenário é completamente oposto.

O país possui algo em terno de 26 milhões de cabeças de bovinos e abate em torno de 8 milhões de animais por ano, o que corresponde a uma elevada taxa de desfrute.

A produção total de carne bovina, no último ano, foi de 2,3 milhões de toneladas e quase 70% desse volume foi exportado. O consumo doméstico é elevado: cerca de 25,4 kg por habitante ao ano.

Os maiores compradores da proteína australiana são mercados exigentes e de alto valor como o Japão, EUA, Coreia do Sul, China e Indonésia.

Levando em consideração todas as exportações, a carne australiana foi vendida por uma média de US$ 5,41/kg no ano passado.

os Estados Unidos ocupam o quarto lugar no ranking dos maiores exportadores, apesar de ser o maior produtor de carne bovina.

Em 2018, os norte-americanos produziram 12,2 milhões de toneladas de carne e dessa quantidade 1,4 milhão foi exportada. No entanto, os Estados Unidos também são um dos maiores importadores de carne bovina. 

Eles importam carne barata para produção de produtos industrializados, como hambúrgueres por exemplo, e exportam carne de elevado valor agregado.

O Japão e a Coreia do Sul são grandes importadores da carne bovina norte-americana. Em 2017, o preço do quilo da carne vendida para os japoneses foi US$ 5,69 e para os sul-coreanos foi US$ 6,25.

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Cenário atual e perspectivas futur1

Até o momento, esse é o cenário que conhecemos sobre o mercado global da proteína bovina, mas fatos recentes não podem ser ignorados.

O primeiro deles são as inundações que afetaram grandes regiões pecuárias na Austrália, no início deste ano, e dizimaram uma parcela do rebanho do país.

Diante de um cenário no qual a Austrália não consiga atender a demanda de seus importadores, é provável que os EUA se beneficiem desse vácuo. Para exportar para o Japão e para a Coreia do Sul, um dos principais clientes da Austrália, é preciso atender a pré-requisitos quanto à qualidade, segurança alimentar e sanidade animal, o que impede atualmente o acesso do Brasil a esses mercados.

Além desse fato, há o déficit na produção de suínos na China que, devido ao surto da Peste Suína Africana, pode perder até 20% do seu rebanho.

Considerando que a China é responsável por quase metade do consumo global de carne suína, essa queda no plantel do principal país produtor e consumidor de suínos tem grandes chances de abalar toda a dinâmica do mercado de proteínas de origem animal.

Os impactos causados pela doença ainda não foram completamente mensurados, mas de qualquer forma será um desafio para a produção de proteínas de origem animal tentar sanar o buraco deixado pela queda da produção de suínos no gigante asiático.

Autora: Marina Zaia – Médica veterinária

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