A relação ganha-ganha com o frigorífico é possível

Entenda os motivos responsáveis pelas oposições na relação comercial entre o frigorífico e o pecuarista, e as possibilidades para que as negociações sejam vantajosas para os dois lados.

frigorífico e pecuarista

Nos textos anteriores, falamos como são formados os preços da arroba do boi gordo e quais são as características do mercado que fazem com que a pecuária seja uma atividade desafiadora, porém, cheia de oportunidades para quem compreende seu jogo.

Neste texto, falaremos sobre as fundamentações da relação entre o frigorífico e o pecuarista. 

O primeiro ponto importante a ser compreendido é que o pecuarista está inserido dentro de uma cadeia do agronegócio ampla e dinâmica e que só funciona se houver interação entre todos os elos e uma sucessão de etapas.

Nesse caso, as indústrias de insumos precisam distribuir sua produção ao pecuarista, que, por sua vez, precisa vender sua produção para a indústria. Esta precisa processar tal produção e vendê-la para o varejo. E este elo precisa distribuir até o destino final, que é a população.

Em suma, o que existe é uma relação de interdependência.

Todos esses elos (insumos, produção, processamento, distribuição) possuem algum objetivo dentro da cadeia e quanto mais coordenadas forem essas relações, quanto mais houver atuação em conjunto, melhor é o desempenho como um todo.

Mas, devido às características explicadas no texto anterior, a pecuária enfrenta dificuldades para coordenar a relação entre seus agentes.

Vamos além e pensaremos, por exemplo, no elevado grau de incerteza que envolve o suprimento de produtos, seja na questão de qualidade, quantidade, prazo de entrega ou de recebimento do pagamento.

Imagine receber de seu fornecedor de concentrados ou de fertilizantes cada mês um produto diferente. Como seria planejar toda a produção forrageira durante um ciclo de engorda se o herbicida recebido não atender às suas expectativas? Já falamos aqui no site sobre o retorno econômico com a aplicação de herbicidas e detalhamos os benefícios de manter a pastagem limpa.

Pois bem, os frigoríficos também são prejudicados quando há irregularidade de oferta e despadronização dos produtos que são comprados por eles.

As indústrias compram lotes de vários produtores, com raças diferentes, com acabamentos de carcaça variados, por isso, a desconformidade na produção é grande. Isso vai na contramão do que a indústria precisa, que é previsibilidade e uniformidade, já que ela também necessita atender outros compradores, que têm demandas específicas, sejam de carne, subprodutos ou derivados. Portanto, a qualidade do que a indústria recebe determina seu resultado.

Mas por que então o frigorífico não estreita a relação com os produtores para melhorar a qualidade do gado recebido e lutar pelo ganha-ganha?

Essa é uma pergunta que traz uma reflexão contínua, mas ressaltamos que alguns frigoríficos têm investido para melhorar a relação com os pecuaristas, que, percebendo a existência de incentivos, investem na criação de boiadas que atendem às exigências dos frigoríficos e quebram essas barreiras da relação comercial.

Ainda há necessidade de melhorar o trabalho em conjunto, mas esses tipos de iniciativas colocam uma luz no fim do túnel.  

Para compreender melhor os determinantes dessa parceria, separamos abaixo alguns fatores que dificultam o desenvolvimento do relacionamento entre esses agentes. Veja:

  1. Interesse próprio

O frigorífico quer comprar a arroba o mais barato possível e o pecuarista quer vendê-la o mais caro possível. Por isso, como os interesses são completamente opostos, os preços são definidos pelas leis de oferta e demanda.

  1. Relações de curta duração

A comercialização entre as partes não tem um histórico. O frigorífico compra o gado de produtores que já conhece e é por aí que termina a relação comercial. A grande maioria das negociações é feita no mercado spot, “cara a cara”.

Os negócios feitos com contratos, apesar de serem mais seguros e garantirem o preço para o produtor, ainda são restritos na pecuária. Se quiser conhecer ferramentas para proteger os preços do boi que você produz, não deixe de conferir.

  1. Informação limitada

O grau de informação que o pecuarista e o frigorífico possuem se diferencia ao longo da cadeia e prejudica a integração dos dois elos. Veja um exemplo: um produtor conhece o sistema de produção de todos os seus vizinhos da região e sabe que em determinado período a oferta de gado vai reduzir. Ele se beneficia dessa informação para segurar a boiada e vender mais caro para o frigorífico.

  1. Flexibilidade

Caso um produtor tenha atraso no pagamento de um frigorífico, ele pode mudar para outro parceiro comercial, uma vez que não há compromissos ou amarras na relação entre os dois agentes.

Esses tipos de comportamento estão errados? Não. São característicos do mercado aberto no qual a pecuária está inserida. Mas o objetivo deste texto é mostrar que existem outros mecanismos de coodernação entre o frigorífico e os pecuaristas que podem beneficiar ambos.

Como, por exemplo, políticas de incentivo para fornecedores que entregam a boiada com a qualidade desejada. Esses tipos de relações comerciais têm sido vantajosas para os dois lados.

Ressaltamos que também existem desafios. Por exemplo, o frigorífico percebe que atualmente há demanda pela carne de Wagyu, então, ele estabelece um programa de bonificação e certificação para esse tipo de produção.

Os produtores começam a criar essa raça, contudo, o investimento é de longo prazo e as cadeias sofrem o risco de enfrentar mudanças de mercado e hábitos de consumo, fatores que podem prejudicar a rentabilidade identificada anteriormente.

Por conta de todos esses fatores, existem obstáculos para solucionar conflitos e estabelecer relacionamentos comerciais consistentes e de confiança ao longo da cadeia da carne, mas não é impossível. A elaboração de alianças estratégicas beneficia os dois lados do jogo. Trataremos de mais oportunidades no próximo texto.

Até mais.

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Autora: Marina Zaia – Médica-Veterinária.

Se você ainda não leu as duas primeiras partes dessa série, não deixe de conferir:

Parte 1: Como são formados os preços da arroba do boi gordo?
Parte 2: A relação comercial entre frigoríficos e pecuaristas

 

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