Genética de corte e leite: nem tudo é farinha do mesmo saco

Com objetivos tão distintos, elencamos os principais critérios e diferenças de seleção genética para reprodutores em rebanhos de corte e leite.

Genética - Gado de leite

Finalizaremos a série de genética falando sobre as particularidades do melhoramento genético na pecuária de corte e de leite.

Para melhor aproveitamento do conteúdo desta série, sugerimos a leitura dos outros três textos que a compõem: i) aborda o melhoramento genético e a reprodução de bovinos e a importância dessas  técnicas para a pecuária, ii)  traz informações sobre a maneira mais eficiente e rápida de transmitir os genes superiores entre as gerações e acelerar o melhoramento genético e iii) apresenta os principais programas de melhoramento genético de bovinos no país.

Em todos os textos anteriores, mostramos que a máxima do melhoramento genético é a seleção de animais superiores, sendo que a mecânica de seleção genética é a mesma para bovinos de corte e de leite, constituída pela coleta e análise de dados para definir os valores genéticos dos animais.

Esses valores nada mais são do que a representação numérica da capacidade que o touro tem de transmitir geneticamente sua contribuição aos filhos.Para calcular esse valor genético, são considerados os registros de produção disponíveis dos animais e as informações de seus progenitores e suas progênies.

A diferença é que a avaliação genética de bovinos leiteiros é expressa por meio da PTA (Habilidade Prevista de Transmissão). Já a avaliação genética de bovinos de corte é expressa pelas  DEPs (Diferença Esperada na Progênie).

Em outras palavras, esse valor prevê o desempenho das crias de um touro reprodutor, comparado com as crias dos outros reprodutores incluídos na base genética analisada.

Gado de corte

As DEPs são expressas de acordo com a unidade de medida da característica em questão: quilos (peso ao sobreano), dias (idade ao primeiro parto), centímetros (perímetro escrotal), milímetros (área de olho de lombo) etc.

Vamos interpretar o significado dos valores das DEPs de peso à desmama, por exemplo. Vejamos três touros: um com DEP 10 kg, outro 5 kg e o último com DEP de -5 kg.

Esses valores significam que, no momento do desmame, os filhos do touro A serão 10 kg mais pesados que a média dos filhos dos touros avaliados. Já os filhos do touro B serão 5 kg mais pesados e os do touro C serão desmamados 5 kg mais leves que a média.

Em animais de corte, a conformação corporal também tem importante peso dentro das características de seleção, nesse caso, os animais podem ser avaliados por sua musculosidade ou precocidade, por exemplo.

Lembrando que, como mencionado no primeiro texto desta série, os valores de DEPs, ou seja, da diferença esperada na progênie, em função do ganho genético, podem sofrer alterações em função do ambiente. Por isso, é importante que as questões relacionadas à nutrição e ao manejo, por exemplo, sejam garantidas para o animal expressar o seu potencial genético.

Gado de leite

No caso das raças leiteiras, nas quais as características de produção se expressam apenas nas fêmeas, a partir da informação de avós, mães, irmãs e filhas dos touros, pode-se determinar o potencial genético do macho reprodutor.

Dessa forma, a PTA para a produção de leite de um touro, por exemplo, informa quantos quilos a filha de um touro provado poderá produzir a mais do que a média das filhas dos outros touros provados.

Supondo que a média de produção das vacas em uma lactação de um rebanho é de 4,0 mil kg em 305 dias: se um touro X tem PTA +200 kg, espera-se das filhas desse touro uma média de produção de 4,2 mil kg em 305 dias.

Leia também: Qualidade do leite e reflexos no bolso do produtor

O mérito genético dos animais também é medido para inferir a produção de gordura no leite (PTAG), proteína (PTAP), sólidos totais (PTAST), entre outros.

Existem também características de temperamento e tipo, dentre elas: ângulo da garupa (quanto mais inclinadas, mais facilidade de parto), profundida de úbere (quanto mais fundo, maiores chances de mastite) e inserção do úbere anterior (quanto mais forte, melhor a conformação do sistema mamário da vaca).

Conclusão

Por óbvio, a pecuária da “média” brasileira, ainda precisa evoluir em fatores básicos de produção, contudo, uma das principais causas da baixa produtividade do gado é a qualidade genética do rebanho.

Portanto, melhorar a genética do rebanho nacional é necessário para incorporar genes que possuam características desejáveis para alta produção.

Entretanto, cada sistema deve identificar claramente seus objetivos antes de iniciar o processo de melhoramento genético do rebanho.

Peguemos como exemplo o peso ao nascimento, em que DEPs muito elevadas, que refletem em bezerros maiores e mais pesados, tendem a comprometer os partos de vacas de estatura mais regular.

Ou seja, as melhores DEPs/PTAs não implicam necessariamente nos melhores animais, evidenciando a importância de o produtor conhecer as correlações das características de produção e de reprodução.

Dessa forma, cabe ao pecuarista, seja de bovinos de corte ou de leite, definir qual o objetivo do seu sistema e assim selecionar, criteriosamente, quais serão os pais da próxima geração do seu rebanho.

Para chegar nessa definição, o produtor tem que estar de olho, principalmente, no mercado e na demanda dos consumidores.

Falando na prática, se a tendência é, por exemplo, aumento no consumo de carne marmorizada (gordura entre as fibras musculares que propicia maior maciez ao corte), o pecuarista pode optar por reprodutores que possuam DEPs mais elevadas para essa característica.

Outro cenário para o produtor de leite é a exploração do nicho de mercado do leite A2, que possui propriedades antialérgicas e, portanto, pode ser consumido pela população que tem alergia ao leite.

Para aproveitar o crescimento desse mercado, o pecuarista de leite pode investir nessa genética.

Com este texto, encerramos a série de genética, na qual explicamos os principais caminhos pelos quais passam a genética dos rebanhos bovinos: desde a seleção dos animais superiores, através dos programas de melhoramento, até as ferramentas de transmissão de seus genes (IATF, por exemplo). 

Por fim, destacamos que os investimentos feitos em genética dão resultados em longo prazo, entretanto, os benefícios que o produtor adquire duram gerações.

Os impactos decorrentes em gastos com suplementação, por exemplo, são pontuais, ou seja, afetam os animais que estão na fazenda naquele momento da engorda.  Já os investimentos na base genética do rebanho melhoram a eficiência do gado continuamente.

Marina Zaia – médica-veterinária

Scot Consultoria

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