Maria Vitória Proença, pioneira em Santa Catarina com a raça Senepol

Acompanhe a trajetória da jovem pecuarista catarinense, hoje um dos principais nomes da raça Senepol no Estado.

Maria Vitória Proença

Dos dois até os 23 anos de idade, Maria Vitória Faé Proença respira o ar da fazenda e tem nos animais seus companheiros diários. Sempre ao lado do pai, que faleceu quando ela tinha apenas 13 anos, a jovem pecuarista cresceu e se especializou no manejo com o gado e em outras atividades da área. O resultado? Hoje ela é proprietária da marca Senepol Vitória, fundada em 2016 e que levou pela primeira vez para Santa Catarina a raça bovina Senepol.

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Natural de Caçador, em Santa Catarina, Maria Vitória é formada pelo Instituto Federal Catarinense no curso técnico em agropecuária e, atualmente, cursa Zootecnia. Confira como foi a trajetória de sucesso percorrida pela catarinense nesta entrevista exclusiva para o blog.

A paixão pela fazenda e pelos bois vem desde pequena, já com dois anos de idade, ao lado do pai, certo? Pode contar quais são as suas principais lembranças daquela época?

Maria Vitória – Com dois anos de idade, aprendi a montar a cavalo e ia junto com meu pai ver o gado no campo. Na época, tinha um cavalo crioulo de nome “Mosquito”, que fez parte da minha infância. Adorava ir para o campo ajudar a trocar as vacas de piquete, trazer para o curral, ver medicar, observar os passarinhos, as árvores, sentir o cheiro da natureza.

Meu pai tinha um gado muito bom, embora criado a campo nativo. Era uma vacada com bom score corporal, cheio de bezerro vermelho nos campos. Achava incrível e sabia que os animais gostavam de mim, tanto é que nunca me machuquei na lida e sempre tudo era diferente e divertido.

Cresci vendo o sucesso de famílias e fazendas do agro na TV, e sabia que um dia poderia contar a minha história baseada no amor que tenho pela minha família e pela pecuária.

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Maria Vitória Proença
A pecuarista Maria Vitória Proença

Quando sentiu realmente que queria trabalhar com a pecuária, viver na e da fazenda?

Maria Vitória – Desde criança, meu pai me incentivava a ser sucessora. Quando saíamos para o campo, ele dizia que um dia eu iria cuidar de tudo. E tudo aconteceu de maneira muito natural… Fui apresentada ao meio rural desde nova, e isso se tornou parte da minha vida. Comecei a amar tudo, as situações novas, a viver em meio à tranquilidade e à beleza da natureza. Isso é um privilégio, então, não teve segredos para despertar o amor pela pecuária e morar na fazenda.

O que não imaginava é que perderia minha base de pecuarista (meu pai) quando tinha 13 anos de idade, no momento que mais precisava de abraços e conselhos. Então, a certeza de que alguém teria que continuar no negócio veio à tona.

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Nestes 23 anos de idade e com uma trajetória já longa pelo agro, um dos principais desafios enfrentados foi, sem dúvida, o falecimento do seu pai. Como foi, aos 13 anos, perder aquele que sempre foi sua referência profissional?

Maria Vitória – Com certeza, foi muito difícil. Era uma menina na época, não tinha noção nenhuma de como eram o mundo e as pessoas. Meu pai era minha referência, meu porto seguro, o gestor da fazenda. Quando faleceu, eu e minha mãe ficamos sem chão, desamparadas.

Não tínhamos noção nenhuma de gestão, pois, era meu pai quem fazia e ele tinha um lado machista e não nos deixava a par de todas as situações. Mas enfrentamos. E prefiro dizer que a vida e as boas pessoas que ela nos apresentou nos auxiliaram a vencer essa dificuldade.

Logo que ele faleceu, entrei no Ensino Médio integrado com curso técnico em agropecuária. Por isso, precisei morar na cidade de favor na casa de conhecidos e minha mãe ficava trabalhando sozinha na fazenda para não deixar faltar nada para mim.

A ausência paterna acabou se tornando um grande e importante incentivo para que você e sua mãe assumissem os negócios. Como foi desde então?

Maria Vitória – Sim, tivemos que nos tornar ainda mais próximas para assumirmos a fazenda. Não tínhamos funcionário fixo, quem nos ajudava era por dia de serviço. Também tivemos que fazer compra e venda de insumos, continuar a declarar impostos, financiar máquinas, implementos, barracão, começar a fazer lavoura de milho para fazer silo e alimentar os animais. Além de investir em pastagem e trocar a genética bovina.

Passamos por muito preconceito por sermos mulheres pecuaristas à frente de uma fazenda. Ninguém acreditava nas nossas competências e que iríamos dar a volta e organizar tudo em meio à grande perda que foi o falecimento do meu pai.

Pioneira no estado de Santa Catarina ao dar início à criação da raça Senepol. Como e quando surgiu a ideia e de que maneira foi possível torná-la realidade?

Maria Vitória – Esse foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Tenho a plena certeza de que foi Deus que encaminhou tudo. Após a perda do meu pai, vivia em depressão, em conflito comigo mesma, não era feliz… Mas sentia que de alguma forma eu precisava fazer algo útil para a fazenda e para a pecuária, afinal, essa era a minha missão de vida.

Em julho de 2014, estava na fazenda vendo TV e, pelas lentes de um leilão via Canal Rural, conheci o Senepol. Como é um gado vermelho e muito dócil, foi amor à primeira vista! Não conhecia a raça e disse para mim mesma que precisava trazê-la para Santa Catarina e que aquilo era o que iria fazer da minha vida.

Como não tinha Senepol no estado, comecei a pesquisar tudo sobre a raça e os criadores mais próximos. A partir daí, surgiu a ideia do novo empreendimento. Em novembro do mesmo ano, fui a Ribeirão Preto, em São Paulo, no Senepol da Mata, para conhecer de perto os animais. Tinha 17 anos na época e foi a minha primeira viagem de avião.

As primeiras fertilizações in vitro foram realizadas na fazenda da família e as três primeiras doadoras foram Fortuna, Preciosa e Riqueza. A partir daí, foi criada a marca Senepol Vitória, em 2016, correto?

Maria Vitória – Sim, em novembro de 2014, quando conheci pessoalmente a raça, já quis comprar 10 (dez) embriões de FIV e implantar nas vacas de corte que tinha na fazenda. A implantação ocorreu no inverno frio e bastante chuvoso de 2015. E, em abril de 2016, as primeiras joias da Vitória – carinhosamente chamadas por mim –, nasceram em solo catarinense. Foram, definitivamente, os primeiros animais nascidos e registrados no estado.

O nome delas fui eu que escolhi, como o de todos os animais que nascem até hoje. O critério foi algo que marcasse a nossa história e acho que realmente marcou (risos): Fortuna (01), Riqueza (02) e Preciosa (03) estão conosco produzindo na fazenda até hoje. Como a fazenda já se chamava Vitória e meu nome é Maria Vitória, a marca teria que ser Senepol Vitória, que, no último 19 de março, completou quatro anos de criação.

Sendo tão nova, mulher e atuando em um segmento ainda, na sua maioria, masculino, quais foram os principais desafios?

Maria Vitória – Quando falava que queria trabalhar com Senepol ninguém acreditava em mim, somente a minha mãe. As pessoas não me respeitavam por ser uma pecuarista mulher, torciam contra, diziam que o gado não iria se adaptar no frio, diziam que iria gastar todo o dinheiro da fazenda e não iria dar em nada. Enfim, comentários maldosos não faltaram e ajuda de fato teve pouca.

Também tive que estudar sobre inseminação artificial em tempo fixo, fertilização in vitro, por que essas técnicas de reprodução não eram comuns no meu estado no gado de corte e os profissionais habilitados tinham custo alto – principalmente com deslocamento. Além de a nossa fazenda nunca ter tido assistência técnica no tempo do meu pai, foi necessário implantar do zero. Os índices de prenhez não eram altos e toda temporada de estação reprodutiva era um desafio: qual receptora selecionar, qual protocolo usar, quando iniciar, quanto iria gastar. Hoje em dia, o meu desafio é melhorar a gestão e os piquetes de pastagem dos animais. Com o apoio de sindicato, cooperativas, estamos vencendo.

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Como um exemplo de inspiração na pecuária, que mensagem gostaria de deixar a outras mulheres atuantes no agro?

Maria Vitória – Sempre tive desafios pessoais e profissionais, mas foram eles que me colocaram no lugar que estou. Portanto, sou muito grata a tudo o que sofri, pois, foi isso que me mostrou que o caminho é longo, mas o final é gratificante, a gente sempre consegue. Se temos um sonho, somos capazes de realizar. Tudo o que precisamos está dentro de nós para fazer acontecer. Tive um sonho e me esforcei para provar a mim mesma e ao mundo que ele dá certo!

Por fim, admiro muito as mulheres que cada vez mais estão ocupando as diversas funções dentro do agronegócio e na sociedade como um todo. A vocês o meu amor e a minha admiração, nós somos guerreiras!

Livro: Mulheres no Agro

Maria Vitória Proença e mais outras 49 mulheres inspiradoras e atuantes do agronegócio brasileiro são as personagens do livro “Mulheres do Agro: Inspirações para Vencer Desafios Dentro e Fora da Porteira”, lançado no ano passado, durante o 4º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio (CNMA), em São Paulo, capital.

Escrita por Roberta Páffaro, Andrea Cordeiro, Mariely Biff e Ticiane Figueiredo, a obra traz a trajetória de vida e profissional dessas mulheres que enfrentaram desafios e tiveram de superar barreiras até se tornarem referências no agronegócio brasileiro. O objetivo foi dar visibilidade e voz a elas por meio de suas histórias, como conta uma das autoras, Ticiane Figueiredo.

“Reunir os nomes foi um dos maiores desafios do livro. Não queríamos deixar ninguém de fora, porém, não seria possível escrever sobre todas as mulheres incríveis que conhecemos. Por isso, optamos por tentar trazer aquelas que mais representavam cada setor, a fim de que as outras se sentissem contempladas e homenageadas também”, explica.

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