Os desafios de ser mulher e negra no agronegócio

Conheça a história da zootecnista Ana Virginia Leal, que administra uma das fazendas mais premiadas do país pela criação da raça Nelore

A zootecnista Ana Virginia Leal, 39 anos, mostra que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na pecuária. Ana Virginia é de uma família sem qualquer ligação com o agronegócio. Porém, como em sua cidade natal (Uberaba-MG) ocorre todos os anos a maior feira de pecuária bovina zebuína do mundo, a famosa Expozebu, tornou-se uma tradição todas as famílias do município irem à feira com os filhos para poderem admirar os belos animais expostos, independentemente de sua situação financeira ou cultural. “Comigo não era diferente; na infância sempre fui levada ao parque de exposições de Uberaba”, relembra.

O sonho

“Na adolescência, eu sentia que queria trabalhar com aqueles animais, mas não tinha noção de nada e nem de como seria isso. Eu ia para a feira e ficava observando os animais, a conduta dos gerentes, dos proprietários, e aquilo me fascinava”, afirma a zootecnista. 

Ana veio de uma família humilde, mas sempre estudou nas melhores escolas da cidade, pois seus familiares não mediam esforços para que isso fosse possível. “Todos queriam que eu fosse médica para melhorar o status da família e a nossa condição financeira. Sem dizer que era a profissão mais respeitada na época. Mas, nos meus sonhos, eu sempre me via nas fazendas, comandando o pessoal, lidando com o gado. Como eu não sabia como conquistar isso, era muita pretensão”, relembra Ana. 

O avô materno de Ana era quem mais a ajudava financeiramente nos estudos. Em certo momento, ele ficou muito doente, e durante uma conversa, a jovem, então com 16 anos, revelou que não queria ser médica. Para sua surpresa, o avô disse que ela poderia ser o que ela quisesse, mas que deveria sempre carregar consigo a honestidade, a humildade e a dignidade. Pouco tempo depois, seu avô faleceu e uma tia se comprometeu com os gastos financeiros estudantis até que Ana se formasse.

“Essa conversa com o meu avô nunca saiu da minha cabeça.”

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Ana prestou cinco vestibulares para medicina, pois não queria se indispor e nem contrariar a família que tanto fazia por ela. Mas, em certo momento, a jovem percebeu que não poderia fingir querer aquilo para sua vida. “Lembrei-me da conversa com meu avô e assumi a minha vontade profissional. Quando revelei para minha família que gostaria de fazer zootecnia, não tive, no primeiro momento, o apoio familiar”, afirma.

Mesmo assim, a jovem insistiu em seu sonho e seguiu adiante. “Depois de um ano que já estava na faculdade, todos da minha família entenderam e perceberam o quanto eu estava certa e feliz com minha escolha”, relata Ana. 

As conquistas

Formada pelas Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu) em 2004, Ana conta que, na sua turma da faculdade, havia apenas cinco mulheres. Ao final do curso, ela era a única da sua turma original. “Eu era a única mulher – e negra – no curso de zootecnia na época, mas isso nunca me incomodou e eu não me lembro de sofrer algum tipo de preconceito por conta disso. Em outros cursos da faculdade, tinham outras mulheres negras, mas em número muito reduzido. Sempre me destaquei estudando muito e, com isso, consegui ser aceita no meio dos colegas. De alguma forma, eu teria que entrar naquela sociedade cheia de homens”, sorri Ana.

 Para ajudar nas despesas da faculdade, a estudante começou a trabalhar e a traçar sua carreira no agronegócio. No terceiro período da faculdade, ela trabalhou como supervisora de projetos de um viveiro de mudas ornamentais e florestais e em uma granja de coelhos voltada para a produção de carne e minhocário. Segundo Ana, esse período foi de muito aprendizado na parte técnica, de gestão, organização e responsabilidade.

Faltando um mês para sua formatura, ela foi chamada para uma entrevista de emprego em um grupo de neloristas no estado de Goiás (GO) e, para sua surpresa, foi contratada. “Era meu primeiro emprego na sonhada pecuária de corte. Eu era responsável pelas provas de ganho em peso de bovinos da raça Nelore. Fiquei apenas oito meses, mas foi o que abriu as portas para outras oportunidades”, explica.

 Quando a zootecnista saiu dessa empresa em Goiás, um amigo, também zootecnista e gerente de uma propriedade em São Paulo, ofereceu a ela uma oportunidade de empego. Ana foi chamada para realizar as funções administrativas e de manejo nutricional na fazenda. “Eu aceitei e mudei-me para o interior de São Paulo toda animada, mas foi quando encontrei o meu primeiro entrave como mulher no agro – ciúme das esposas dos funcionários do campo. Infelizmente, baixei minha guarda e retirei meu time de campo”, conta.  

Ana voltou para sua cidade natal e, menos de um mês após o retorno, apareceu uma nova oportunidade para trabalhar no setor administrativo de uma fazenda de pecuária seletiva de corte Zebuína, raça Nelore voltada para exposições pecuárias. “Mas, no fim de três anos de trabalho, a falta de sucessão fez o projeto acabar”, conta.  

Após esse período, Ana foi convidada para trabalhar em outra fazenda em Uberaba, na qual seria a profissional responsável por toda a parte zootécnica, de documentação do gado, leilões e feiras nas quais o rebanho estava presente. “Tive enormes aprendizados que carrego e utilizo até hoje na minha gestão. Foi nesse período também que fui professora de curso técnico de zootecnia: trabalhava na fazenda durante o dia e dava aulas à noite. Durante esses três anos no curso técnico, percebi que ensinar é também aprender, e ter a satisfação do seu aluno se tornar um profissional é indescritível”, cita.

Ana sempre almejou mais e, há oito anos, ela resolveu buscar uma nova oportunidade. Hoje, ela é zootecnista e gerente-geral de uma fazenda e trabalha com pecuária seletiva de bovinos da raça Nelore e alguns exemplares da raça Angus.

Crédito da foto: Camila Prado

“Não foi assim tão fácil, romântico e perfeito. Passei por inúmeras provações para saber que eu realmente queria e conseguiria desenvolver o meu trabalho, histórias que dariam um livro. No primeiro momento, tive problemas com vários colaboradores que não aceitavam o comando feminino, mas com paciência, resiliência e um pouco de psicologia fui contornando;, não há ‘receita de bolo’. Aqui, realizei muitos sonhos profissionais, em especial as premiações dos nossos animais nas exposições”, ressalta a zootecnista. 

“Nunca tive medo de tentar, mesmo sabendo que às vezes poderia não dar certo.”

Palavras de incentivo 

Ana Virginia gosta de contar sua história e compartilhar os seus desafios profissionais, pois, assim, outras pessoas percebem que, por mais que tenham problemas ao longo do caminho, é possível chegar aonde se deseja.

“Para as mulheres e negras que estão procurando seu espaço no agro, eu sempre digo: não desistam nunca, sonhem sempre e mãos à obra. Sejam entusiasmadas, estudem muito sobre a área em que desejam atuar, nunca parem de buscar conhecimento, procurem alguém para se inspirar, façam contato com pessoas que julguem importantes, tenham um mentor e sejam sempre gratas a tudo que lhes acontecer, pois isso faz parte do crescimento”, finaliza, emocionada.

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Esperamos que essa história sirva de inspiração para você traçar a sua trajetória de sucesso no agronegócio brasileiro. Continue acompanhado o nosso blog!

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