Pecuária de corte: uma ilha de calmaria em meio à turbulência?

Enquanto alguns setores pararam completamente devido à pandemia, a pecuária de corte, pensando no elo dentro da porteira, viu seus preços de venda subirem em pleno final de safra.

Entre o fim de fevereiro e o início de março, a pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil. No final de fevereiro, foram divulgados os primeiros casos no país. E, na primeira metade de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente o estado de pandemia.

Com isso, desde a segunda metade de março deste ano, temos observado um cenário inédito. O isolamento social e o fechamento do comércio reduziram drasticamente a movimentação no elo, o que afetou a indústria, isso quando também não foi obrigada a parar.

Cenário geral

Segundo o último relatório Focus, do Banco Central, as projeções apontam para uma queda de 6,5% para o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil em 2020. Já são dezessete semanas consecutivas de recuos para essa estimativa. No início do ano, a projeção era de crescimento de 2,3%.     

Para demonstrar o impacto em diferentes setores, utilizamos os índices de confiança de pesquisas feitas pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e Confederação Nacional da Indústria (CNI). A primeira calcula o Índice de Confiança das Famílias e o Índice de Confiança do Empresário do Comércio, enquanto a segunda gera o Índice de Confiança do Empresário da Indústria.

Para comparação, ajustamos os índices para 100 em janeiro de 2019, para que as evoluções pudessem ser confrontadas neste passado recente. Veja a figura 1.

Figura 1.
Índices de confiança das famílias e dos empresários, do comércio e da indústria.  

pecuária de corte
Fonte: CNC / CNI / Elaboração: Scot Consultoria

Para junho, apenas o índice da indústria já está disponível. Por isso, as demais séries terminam em maio. É possível que tais índices comecem uma reação nos próximos resultados.

Pela evolução da confiança, fica claro o impacto da pandemia nesses setores, sob a perspectiva dos empresários e das famílias, esta última influenciando o consumo.

Obviamente que um consumo menor impacta a demanda, mas, na pecuária, podemos considerar um cenário positivo. Vale o destaque que frigoríficos têm tido dificuldades relacionadas a casos da Covid-19, bem menos que o observado nos Estados Unidos, por exemplo, mas é algo que tem deixado o setor em alerta.

Cenário dentro da porteira

Pensando no pecuarista especificamente, ele passou os últimos meses de maneira, podemos dizer, privilegiada. Não houve necessidade de fechar ou paralisar seu negócio, como um dono de restaurante ou de uma empresa de turismo, por exemplo.

Cabe a ressalva de que essa análise contempla apenas a questão econômica, não a questão de saúde e perdas de vidas relacionadas à pandemia.

Seus preços de venda seguiram firmes, como apresentamos na figura 2. E aqui há uma ressalva importante, de que este intervalo analisado compreende a chegada da seca, quando normalmente há pressão sobre as cotações.  

Figura 2.
Variações de preços, considerando a média de fevereiro e a média dos primeiros dez dias de junho, para todas as praças pesquisadas pela Scot Consultoria.

 

pecuária de corte
Fonte: Scot Consultoria

A fase de alta do ciclo pecuário, com menor oferta de gado para abate, associada à forte demanda no mercado internacional, com destaque para a China, tem compensado a queda do consumo doméstico, afetado pelo impacto do isolamento social, com reflexos na economia, na renda e nos empregos.    

Segundo a Secex (Secretaria de Comércio Exterior), as exportações de carne bovina in natura até maio aumentaram 8,9% em volume, frente ao mesmo intervalo de 2019.  

Na comparação da média parcial de junho com o mesmo período do ano passado, também considerando todas as praças pesquisadas, as valorizações foram de 29,3% para o boi gordo e de 29,6% e 29,5% para boi magro e bezerro, respectivamente.

Considerações

Se o consumo doméstico estivesse melhor, provavelmente, teríamos preços maiores. Mesmo atualmente vendo que os preços trabalharam bem, houve momentos de pressão de baixa e incerteza ainda maior para o produtor, mais no início do período de isolamento, entre outras ponderações possíveis.

De toda forma, poder falar que o preço de venda aumentou cerca de 30% em um ano, que passou por um final de safra firme e com valorizações, sem paralisação das atividades na empresa (fazenda), não é para qualquer setor.

O cenário de consumo doméstico tem que ser acompanhado, assim como as vendas para a China, mas as expectativas, com a oferta de confinamento provavelmente menor este ano, são positivas para os preços na segunda metade do ano, com as informações que temos atualmente.

Hyberville Neto – médico veterinário, msc.
Scot Consultoria

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