Produtividade na fazenda: suplementação do gado no período de transição seca/águas

O período exige do pecuarista/produtor uma estratégia adequada para manter a produtividade na fazenda

Com a retomada da estação de chuvas no Brasil Central e na região Sudeste, tem início a rebrota do capim e, portanto, a velocidade de crescimento da pastagem depende do volume e da intensidade das chuvas, temperatura, luminosidade, fertilidade do solo, espécie da forrageira e estrutura do pasto.

Nesta fase de transição do período seco para o chuvoso, é demandada maior atenção em relação ao manejo da pastagem, suplementação e estrutura dos cochos, que podem influenciar diretamente no desempenho do rebanho.

Neste ano, em função dos atrasos nas chuvas (veja mais no artigo Atenção ao clima!), a questão da suplementação ganha ainda mais importância, já que a rebrota tardia do capim exigirá a manutenção de uma suplementação proteica por um período maior, até as condições das pastagens melhorarem.

Transição seca para águas

A produção animal no Brasil (pecuária de corte e leite) é baseada em forragem, por isso, é necessário entender a sazonalidade de oferta de capim para que possam ser tomadas decisões certeiras quanto ao manejo do gado.

Na fase seca do ano, ocorre uma menor produção e qualidade de forragem (menores teores de proteína, energia e minerais) e, portanto, um suplemento proteico é essencial para suprir a deficiência nutricional do pasto.

Já o período das águas é o de maior disponibilidade de forragem para os animais, e assim por diante. Nesse período, o uso de suplemento energético ou proteico-energético é uma boa estratégia para otimizar a utilização das forragens, já que as bactérias do rúmen do animal fazem uso do nitrogênio proveniente da forragem e mantêm o equilíbrio ruminal proteico-energético.

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Durante a transição do período seco para as águas, o rebanho encontra-se em uma condição de mudança de um pasto de baixa qualidade para um pasto de alta qualidade e ainda sem disponibilidade adequada de matéria seca para o animal. Por conta disso, a suplementação dos bovinos é fundamental.

Recomenda-se o uso de suplementação múltipla (proteico-energético)1 e/ou proteica2 com o objetivo de maximizar a disponibilidade da proteína advinda da dieta animal, com fornecimento de proteína degradada no rúmen (PDR) e energia para aumentar a utilização da amônia em excesso no rúmen proveniente do nitrogênio não proteico (NNP) do capim.

Nessa fase, o capim encontra-se com níveis elevados de compostos NNP e/ou dos níveis reduzidos de energia de rápida disponibilidade ruminal. Portanto, observa-se baixo aproveitamento dos compostos nitrogenados, como resultado de sua baixa conversão em proteína microbiana. Alguns tipos de alimentos energéticos são comumente utilizados, como o milho, trigo, arroz, casca de soja, polpa cítrica, entre outros, junto com o suplemento mineral, como o cloreto de sódio (sal branco) e as misturas minerais.

Ademais, os principais alimentos proteicos são o farelo de soja, farelo de algodão, farelo de girassol, entre outros, e, assim como as fontes energéticas, a sua utilização depende da disponibilidade do insumo na região, preços e metas de cada sistema produtivo.

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1 Suplementos minerais proteico-energéticos: possuem em sua composição macro e/ou microelemento mineral, pelo menos vinte por cento de proteína bruta e fornecem, no mínimo, trinta gramas de proteína bruta e cem gramas de nutrientes digestíveis totais (NDT) por cem quilos de peso corporal;

2 Suplementos minerais proteicos: possuem em sua composição macro e/ou microelemento mineral, pelo menos vinte por cento de proteína bruta (PB) e fornecem, no mínimo, trinta gramas de proteína bruta (PB) por cem quilos de peso corporal.

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Na sequência, algumas recomendações com relação à suplementação da boiada:

  • A suplementação com milho e ureia para novilhos em pastejo em quantidades próximas a 0,17% por peso vivo proporciona melhor desempenho em relação à mistura mineral (Acedo et al., 2011).
  • O uso de grão de milho triturado ou do farelo de trigo como fonte energética, associado ao farelo de soja ou à mistura ureia/sulfato de amônia, com fornecimento de 1,0 kg/animal de suplemento, atendendo a 35% de proteína bruta (Cavali et al., 2011).
  • Fornecimento de suplementação múltipla de 2 kg/animal/dia, correspondendo a 37% de proteína bruta, influenciam positivamente no desempenho de bovinos recriados em pastejo no período de transição seca-águas (Sales et al., 2011).

 Cuidados diários necessários

Alguns pontos de atenção:

  • Definir as metas de ganhos específicas da fazenda para cada categoria (animais adultos, recria e terminação).
  • Elaborar estratégias quanto ao manejo da pastagem no período de transição, retirando animais pesados para o abate (reduzir a lotação).
  • Planejar e executar a suplementação adequada para cada fase do ano e categoria animal.
  • Atenção ao dimensionamento do cocho: suplemento proteico 10 a 20 centímetros linear/cabeça; proteico-energético: 20 a 35 centímetros linear/cabeça;, sal mineral: 4 centímetros linear/cabeça.
  • Observar a estrutura do cocho (furos e cobertura), pois a ureia fornecida por meio dos suplementos minerais, quando misturada com a água que se acumula no cocho, em grandes quantidades, pode matar os bovinos.
  • O consumo de suplemento pode cair devido à maior busca pela rebrota do pasto, o que exige cuidados quanto à formulação das dietas.

Considerações finais

Na fase de transição (seca/águas), a suplementação com misturas múltiplas ou proteicas é fundamental e visa à maximização da utilização do nitrogênio – energia disponível para o microrganismo ruminal que reflete diretamente no desempenho animal.

Como já abordado em outro artigo, a suplementação deve ser olhada como um investimento.

Além dos cuidados com o suplemento em si, é importante se atentar às condições dos cochos para a estação chuvosa e também para a lotação de animais no pasto nesse período de transição no qual a capacidade de suporte das pastagens ainda é baixa.

Veja neste link o artigo com mais informações sobre os principais pontos de atenção com relação aos cochos.

Tamyres Rodrigues de Amorim, zootecnista, msc.
Scot Consultoria

Referências

ACEDO, T. S.; PAULINO, M. F.; DETMANN, E.; VALADARES FILHO, S. C.; SALES, M. F. L.; PORTO, M.O. Fontes proteicas em suplementos para novilhos no período de transição seca-águas: características nutricionais. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte, v. 63, n. 4, p. 895 – 904, 2011.

DETMANN, E.; PAULINO, M.F.; CECON, P.R.; VALADARES FILHO, S.C.; ZERVOUDAKIS, J.T.; CABRAL, L.S.; LEÃO, M.I.; LANA, R.P.; PONCIANO, N.J. Níveis de proteína em suplementos para terminação de bovinos em pastejo durante o período de transição seca/águas: consumo voluntário e trânsito de partículas. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 34, n.4, p.1371-1379, 2005.

CAVALI, J.; PORTO, M.O.; PAULINO, M.F.; SALES, M.F.; NASCIMENTO, M.L.; RODRIGUES, J.F. Associações de fontes energéticas e proteicas em suplementos múltiplos para tourinhos na fase de recria em pastagens, durante o período de transição seca-águas: desempenho produtivo. In: 48a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2011. Disponível em : https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/115546/1/25388.pdf

SALES, M.F.L., PAULINO, M.F., VALADARES FILHO, S.C., FIGUEIREDO, D.M., PORTO, M.O., DETMANN, E. Supplementation levels for growing beef cattle grazing in the dry-rainy transition season. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 40, n.4, p. 904-911, 2011.

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