Projeto traz sustentabilidade à produção leiteira familiar no RS

“Elite a Pasto” ajuda famílias de criadores a manterem a tradição da produção leiteira a pasto na Serra Gaúcha

“Minha mãe e meu pai sempre criaram vacas leiteiras. Depois, com a idade mais avançada, continuam trabalhando, mas deram, a mim e ao meu marido, maior liberdade para tomar decisões. Antes do projeto, estava bem difícil. Mesmo tendo nós dois trabalhando fora, tudo o que a gente ganhava gastava com o sustento das vacas. Não sobrava nada.”

O relato de Ana Lice Silvestrin resume bem a história de tantas outras famílias de Serafina Correa (RS), município da Serra Gaúcha que, ainda que esteja localizado muito próximo da famosa região vinícola do estado, mantém forte tradição agropastoril de característica familiar, entre os pouco mais de seus 17 mil habitantes. Tanto que funciona em Serafina a Cooperlate – Cooperativa dos Produtores de Leite de Serafina –, fundada  por um grupo de pequenos produtores, entre os quais estava o pai de Ana Lice, Claudir Silvestrin.

Embora a atividade leiteira constitua uma das principais cadeias produtivas do estado, tanto do ponto de vista econômico quanto social, o setor tem passado por transformações, acarretando na concentração da produção em grandes propriedades e em sistemas de confinamento. “Os pequenos produtores de Serafina Correa refletem o que está acontecendo em todo o estado e talvez em todo o país, porque se pensa que produzir leite a base de pasto, com as vacas soltas e em pequena escala, não é mais viável, resume o engenheiro agrônomo Leandro Ebert, extensionista da Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e coordenador do projeto.

O Projeto Elite a Pasto foi criado para levar conhecimento e técnicas que possam tornar financeiramente sustentável a criação de vacas leiteiras a pasto em pequena escala, justamente para aquelas famílias que não podem investir grandes somas na transformação do negócio em modelos de confinamento. “O objetivo deste projeto é o que a gente chama de uma terceira alternativa: não precisa nem abandonar, nem investir pesado. É possível tornar a atividade leiteira a pasto viável, com os recursos que cada um já tem – com as vacas que já são da propriedade, profissionalizando a mão de obra, recuperando as áreas de pastagem e, finalmente, adequando e modificando manejos”, explica Ebert. Hoje enxergamos aqui no RS que, pelas características de nossa produção de leite, o sistema a pasto é o que pode trazer maior retorno para os pequenos produtores por litro de leite, por vaca ordenhada e por hectare. Temos condições, como luminosidade e chuvas, que nos permitem produzir pastagens de qualidade nos 12 meses do ano”.

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O Projeto, passo a passo

O Projeto Elite a Pasto teve início oficialmente no ano passado, mas nasceu como derivação de outro projeto: o GT Leite, que visava aumentar a produção de leite no município, a partir das famílias já estabelecidas na atividade. De acordo com Ebert, “O desenvolvimento da produção de leite é uma das atividades principais que a Emater-RS executa nos municípios – dentro dos seus princípios de promover o desenvolvimento rural sustentável do RS”.

A identificação de falta de informações, técnicas e tecnologias adequadas aos sistemas a base de pasto levou à criação de outro projeto, o Elite a Pasto, planejado com base nas demandas dos produtores do município de Serafina Correa, que trabalham com pasto, para que eles possam ter melhores resultados e, assim, continuem produzindo utilizando pastagens, com sustentabilidade financeira.

Inicialmente foram convidadas 12 famílias, que trabalham com cerca de 10 a 60 vacas mas, com os resultados aparecendo, as técnicas empregadas nas propriedades se tornam referência para outras propriedades da região.

E qual é a receita do Elite a Pasto? “O primeiro passo é fazer com que as vacas consumam pasto: o máximo de pasto por dia!”. É assim que Ebert resume a estratégia inicial, como resposta a características locais de criação das vacas, que podem ser alteradas para o aumento e melhoria da produção.

A tradição na região é que, após a ordenha da manhã, as vacas ganhem silagem e ração e, só depois, sejam soltas no pasto. Quer dizer: elas chegam no pasto já de ´bucho cheio´, por volta das 9 horas, com o Sol já bem forte, principalmente no verão, e ficam lá até meio-dia, sem ou com pouco consumo de pasto. Depois o pessoal recolhe essas vacas e coloca numa área de descanso, que aqui na região é chamada de ´potreiro´, até o outro dia, só sendo recolhidas para ordenha e alimentação no cocho, sem outra oportunidade de pastejo.”

Essas áreas de descanso, que não são pastagens e não têm comida, muitas vezes não são adequadas para as vacas deitarem e ruminarem, colocando-as também em risco de estresse térmico, devido à exposição sob o Sol forte. Além disso, com o acúmulo de esterco, tornam-se foco de infestação de carrapatos e de moscas, quando não de contaminação ambiental, porque as vacas ficam estercando no local, geralmente próximo ao manancial hídrico, onde há nascentes ou passa um curso-d’água.

“Aos poucos, substituímos este sistema tradicional, em que as vacas tinham apenas 2 ou 3 horas de pastejo por dia, tiramos dos potreiros e as levamos para o pasto, onde elas vão se alimentar por 9 ou até 11 horas no pasto, aproveitando os picos de pastejo diários”, detalha o agrônomo. Além de tornar o pasto a base da dieta das vacas, o projeto ainda incentiva a adoção de outras práticas de melhoria e sustentabilidade, como a reforma das pastagens e a integração lavoura-pecuária.

Ebert explica que, na região, as propriedades, em média, não são tão pequenas: as famílias têm 10, 15, 20 vacas e, ainda, contam com uma área de cultivo de verão, para milho e soja. No inverno, em vez de deixar essas áreas em pousio, é possível cultivar pastagens de inverno como aveia ou azevém para alimentação das vacas. “Alguns até fazem com o azevém que nasce no inverno, decorrente de ressemeadura natural – das sementes remanescentes de cobertura. Mas as vacas não comem, porque não têm acesso a esta área do pousio – ficam lá no potreiro a maior parte do dia. Mesmo no verão, se essas áreas estão ocupadas com grãos, muitos até fazem pastagem com milheto (por exemplo), mas as vacas não comem, por conta de irem para o pasto de ´bucho cheio´ e com o Sol forte, poucas horas por dia”.

Sustentabilidade financeira e social

Segundo o Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite produzido pela Emater-RS, o Rio Grande do Sul conta com 40.182 produtores de leite formais, dos quais estima-se que 38.670 – ou seja, 96,24 % do total, sejam enquadrados como pecuaristas familiares, que vivem em propriedades com área média de 18,92 ha.

Ebert aponta outros dados do relatório: “Nos últimos 6 anos, 52 % de produtores abandonaram a produção de leite no estado. E, quando a gente analisa esses dados, a maior parte é de produtores familiares, com pequena escala produtiva e que criavam as vacas no sistema à base de pasto”, explica o agrônomo. “Em apenas dois anos, tivemos uma evasão na atividade de mais de 10.000 produtores – muitos deles provenientes de famílias que tradicionalmente viviam do leite”.

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No caso da Ana Lice, a propriedade tem área de “meia colônia, o que corresponde a aproximadamente 12 ha, onde a família cria 26 cabeças de gado, entre novilhas e vacas leiteiras adultas. As transformações que o Projeto Elite a Pasto promoveram foram fundamentais para a sustentação da atividade. Conforme informa Ebert, com base em dados do Relatório, A família mais que dobrou a renda mensal obtida com o leite em 2020 em comparação com 2019, obtendo um aumento de 150%”.

“No início, ficamos em dúvida, mas decidimos fazer e os resultados começaram a aparecer”, anima-se a produtora. “Aprendemos que sozinhos não fazemos nada. É preciso procurar a ajuda de outras pessoas.”

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