A relação comercial entre frigoríficos e pecuaristas

Uma análise dessa relação que tem melhorado nos últimos anos, mas ainda precisa ser feito muito para que a cadeia como um todo cresça.

Terminamos o último texto, sobre como são formados os preços da arroba do boi gordo, colocando uma pulga atrás da orelha do pecuarista ao falar sobre o desequilíbrio do poder de negociação entre os pecuaristas e os frigoríficos. Neste artigo, vamos aprofundar mais essa questão que causa divergências dentro da cadeia pecuária.

Características de mercado

Dizemos que a agropecuária é quase que um mercado perfeitamente competitivo, mas o que significa isso? Mercados com essa definição são assim conhecidos por envolverem produtos com pouca diferenciação e por terem elevado número de compradores/vendedores de maneira que nenhum deles é capaz de influenciar individualmente o preço de mercado.

Como mencionamos no texto anterior, os frigoríficos além de serem pouco numerosos são concentrados, portanto, o produtor tem mais restrições para vender o gado.

Vejamos o caso de Mato Grosso, por exemplo, para um estado que possui quase 30 milhões de cabeças de gado, somente 39 frigoríficos possuem serviço de inspeção federal. Sendo que 51% desse total pertence a somente um grande grupo (MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).  

Além da pouca concorrência entre as indústrias, existem muitos produtores de gado no país, cenário que proporciona um melhor ambiente de negociação para o frigorífico.

Já no caso dos pecuaristas, há grande volume pelo Brasil e existem poucas barreiras para entrar na atividade. Muitos profissionais de diferentes áreas começam a criar gado quando o mercado está em alta e fazem disso uma segunda profissão ou até mesmo um hobby. É provável que você conheça algum caso assim ou já tenha ouvido falar de uma história parecida. 

Outro ponto, como todos sabemos, é que a adoção de tecnologia eleva a produtividade e deixa o sistema mais eficiente.

Vamos pensar, por exemplo, em um produtor que descobriu uma nova cultivar de pastagem com maior valor nutritivo e que tem acelerado a engorda do gado. Esse produtor começou a produzir uma arroba a um custo menor e mais rapidamente, fazendo com que suas margens de comercialização aumentassem. O que acontece logo em seguida? A tecnologia se dissemina! Os vizinhos também começam a usar o novo capim e por aí vai…

Frente a esse cenário, a vantagem que o primeiro produtor tinha, não tem mais de maneira tão expressiva. Já que houve aumento da disponibilidade de gado terminado para o frigorífico por causa da melhora generalizada do suporte das pastagens da região.

Percebe-se que essas características do mercado pecuário dificultam que algum produtor receba lucros elevados continuadamente, pois, em um piscar de olhos, a oferta aumenta de novo e o frigorífico consegue comprar gado a preços menores.

Quem já teve a oportunidade de conhecer o setor comercial dos frigoríficos percebeu que o telefone da compra de gado toca várias vezes ao dia, ilustrando o grande fluxo de comercialização desse mercado.

Mais um ponto que faz com que a pecuária seja classificada como mercado competitivo é que os produtos são homogêneos, com poucas especificidades.

Ainda há pouca diferenciação dentro do rebanho brasileiro, sendo que a maioria dos animais abatidos possui idade elevada comparativamente e com acabamento de carcaça insatisfatório do ponto de vista comercial.

Para ilustrar esse cenário no qual grande parcela da pecuária brasileira está inserida, vejamos o seguinte exemplo:

O Sr. Alberto abate animais anelorados, em torno de 40 meses e com mais de seis dentes, ou seja, são animais comuns, sem nenhuma diferenciação, e que, portanto, não geram maior necessidade de as indústrias ofertarem pagamentos acima da referência.

Quando ele foi negociar seus animais com o frigorífico, no final de agosto do ano passado, pedia R$ 148,00/@. Contudo, a indústria conseguiu outros fornecedores com boiadas com características semelhantes às suas por R$ 145,00/@. 

Ou seja, os animais do Sr. Alberto não possuíam nenhum atributo de qualidade ou diferenciação que fizesse com que a indústria pagasse mais pelo seu gado.

Por isso é que existe ágio quando a negociação envolve novilhos precoces, por exemplo. A demanda é grande e a oferta é pequena.

Conclusão

Diante de todos os pontos que foram apresentados ao longo deste texto, é possível compreender que a atividade pecuária não é simples de ser gerenciada. Portanto, o produtor que tem um maior entendimento do mercado no qual está inserido e consegue usar essas características a seu favor, tem mais vantagens.

Porém, também temos os detalhes inerentes à produção que apresentam variados desafios, como, por exemplo, os riscos decorrentes da imprevisibilidade das condições climáticas/ambientais, e também do risco por ser um investimento de longo prazo.  

A duração da engorda é elevada, considerando um sistema de ciclo completo, por exemplo, o intervalo entre a compra da matriz e a venda do boi gordo, pensando em um sistema intensificado, é em torno de quatro a cinco anos! Ou seja, durante esse tempo todo, a produção permanece no campo gerando mais gastos do que renda, para que no momento da venda ainda haja dúvidas a respeito dos preços que serão recebidos.

Por isso, os resultados costumam ser melhores para o produtor que faz o giro rápido do estoque da fazenda. Quanto mais o pecuarista encurtar o tempo de compra e de venda dos animais, mais próximo está o momento de compra e venda novamente, portanto, são menores as chances de o pecuarista enfrentar uma situação de virada brusca e ter uma maior dificuldade de liquidar um estoque caro.

Não podemos deixar de mencionar, também, que a imprevisibilidade de preços é o principal motivo da existência dos mercados futuros, que fornece a possibilidade para os pecuaristas poderem definir antecipadamente o preço de suas mercadorias e, assim, eliminar o risco de preços de suas atividades.

Por fim, a pergunta que fica é: o fato de a pecuária possuir esta característica de mercado competitivo é bom ou ruim para o produtor? Depende! Esse setor é muito peculiar, mas para aquele pecuarista que domina o comportamento dos preços agropecuários e os meios de intensificação da produção, esse desafio transforma-se em oportunidade.

Autora: Marina Zaia – médica veterinária
Scot Consultoria

 

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6 respostas para “A relação comercial entre frigoríficos e pecuaristas”

  1. Avatar jose ronaldo carvalho costa - Alagoas (AL) disse:

    gostei , otimo

    1. Pasto Extraordinário Pasto Extraordinário disse:

      Que legal, Jose. Fique de olho em toda a nossa série sobre a relação dos pecuaristas e os frigoríficos.

  2. Avatar CESAR - Paraná (PR) disse:

    a saida para este funil, seria que os pecuaristas se envolvessem com B3, ou seja, dos 145,00/@ pegasse 2% deste valor (R$2,90) multiplique pelo quantidade de arrobas por animal +- 18@ = R$ 52,20 por animal. Este valor compra-se pelo menos 1 contrato de mini indice e se fizer pelo menos 3 pontinhos por dia aos 30 dias (21 financeiro) e retirando os custos e IR, sobraria +- R$ 485,10. Dividindo este valor por 18@ teria um acréscimo de R$ 26,95/@, ou seja a arroba seria R$ 171,95 e nao os R$ 145,00.
    A dose entre remedio e veneno esta no conhecimento.

    1. Pasto Extraordinário Pasto Extraordinário disse:

      Oi, Cesar! Tudo bem? 😀 Agradecemos o contato! Realmente, usar ferramentas de proteção de preço são excelentes alternativas para fugir das oscilações do mercado. Falamos sobre gestão de risco neste texto. Confira: https://pastoextraordinario.com.br/ferramentas-de-protecao-de-precos/

  3. Avatar Ruy Deglan - Rondônia (RO) disse:

    Olá gostei muito do artigo, foi mto esclarecedor mim tirou uma certa dúvida sobre giro rápido. excelente texto.

    1. Pasto Extraordinário Pasto Extraordinário disse:

      Obrigado, Ruy. Aproveite todos os nossos artigos de mercado e acompanhe de perto as oscilações do mercado.

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