Como a inovação chegou até as vacas leiteiras?

Entre as formas atuais de inovação estão as maratonas de programação, nas quais jovens de diversas áreas desenvolvem soluções para os negócios, incluindo a agropecuária.

Vacathon

As maratonas de programação para buscar soluções relacionadas aos diversos negócios começaram em 1999, nos Estados Unidos. Já faz tempo que o mercado percebeu a necessidade de rapidamente pensar, discutir, pesquisar, testar, apresentar novidades e desenvolver produtos de forma mais acelerada do que nos processos de inovação das empresas. Foi nesse contexto que nasceu a palavra Hackathon, uma mistura de duas outras palavras: “hack”, que significa programar com excelência, e “marathon”, de maratona.

Traduzindo o conceito para o português, Hackathon é justamente uma maratona de programação que movimenta e compartilha conhecimentos em diferentes áreas, podendo durar dias. Hackathons já fazem parte do cotidiano das empresas mais inovadoras e lucrativas do mundo, como o Facebook e o Google.

O processo começa antes da maratona em si. É preciso identificar os problemas enfrentados pelas empresas no seu dia a dia. Com base nisso, são definidos e apresentados os temas aos participantes. Ao final da maratona, a eleição do melhor projeto deve ser feita por um júri composto de acordo com os critérios da empresa ou da organização do evento, sempre de forma imparcial e transparente.

Hackathon na pecuária de leite

Para ajudar a encontrar soluções para a cadeia do leite, mais de 110 estudantes universitários de todo o país ficaram acampados na principal empresa de pesquisa agropecuária do Brasil, a Embrapa, durante cinco dias, entre o final de outubro e começo de novembro deste ano. O evento, denominado Vacathon, foi realizado pelo movimento Ideas for Milk, na sede da Embrapa Gado de Leite em Juiz de Fora, Minas Gerais, em uma área rodeada de mata reflorestada, e foi um sucesso. “Estamos crescendo expressivamente em relação à participação de universidades na edição anterior do Vacathon. Foram 16 instituições em 2018; este ano são 28”, comemora Paulo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite.

Vacathon

Estudantes universitários participaram de mentorias, palestras e visitas técnicas durante o evento.

Martins afirma que o evento surgiu com o propósito de aproximar os jovens da realidade da produção e do processamento de leite, mas ele foi além. Este ano, o Vacathon trouxe resultados importantes gerados pelas equipes. “Muitos chegaram aqui sem conhecer o que é uma propriedade leiteira, outros sem conhecer o que é indústria. Eles receberam mentoria, tiveram a oportunidade de conhecer as ferramentas de transformação digital e, em pouco tempo, geraram soluções interessantes”, destaca.

Vacathon

Estudantes conferiram de perto alguns processos da indústria leiteira.

A programação começou na fazenda. Os alunos de cursos como agronomia, veterinária, zootecnia, administração, economia, engenharias, computação e design conheceram na prática as diferentes áreas de pesquisa da Embrapa ligadas à produção de leite. Depois, empresas líderes do mundo digital apresentaram seus pacotes de soluções para o desenvolvimento de softwares, aplicativos, sensores e equipamentos. Os estudantes tiveram à disposição salas de trabalho, casas de vegetação e laboratórios de pesquisa. Quem tivesse interesse poderia fazer uma visita técnica aos laboratórios. Metade do espaço do prédio de 1.000 metros quadrados foi transformada exclusivamente para o Vacathon. O local abrigava também um camping indoor com barracas individuais.

Durante todo o período de realização da maratona, os estudantes contaram com o apoio de pesquisadores renomados em áreas como genética animal e vegetal, nutrição, sistemas de produção, saúde e bem-estar animal, qualidade do leite, além de profissionais de tecnologia da informação, 24 horas por dia.

Vacathon

Inovações visam melhorar a qualidade da produção de leite.

Foi realizada uma série de palestras sobre tecnologias disruptivas, agro 4.0 e empreendedorismo. Os estudantes ainda pegaram a estrada para aprender sobre pecuária leiteira com pesquisadores da Embrapa em Coronel Pacheco (MG). A fazenda tinha mais de mil hectares, três sistemas de produção, infraestrutura para experimentação em campo, complexo de laboratórios e rebanho com 1.100 animais.

O Instituto de Laticínios Cândido Tostes, da Epamig, também recebeu os participantes para uma visita guiada pela área de produção de lácteos, apresentando os processos industriais. Depois, pesquisadores da instituição fizeram palestras sobre os desafios da indústria laticinista.

Vacathon

Participantes trouxeram soluções para melhorar a cadeia do leite.

No último dia, os times apresentaram as propostas de soluções inovadoras para uma banca. E os três primeiros colocados foram:

– Primeiro lugar: Esalq/USP e IF São Paulo (Piracicaba-SP). Proposta Milcup, uma caneca com sensores eletrônicos para detectar mastite subclínica em apenas sete segundos por teto sem uso de reagentes. Em conjunto, é fornecido um aplicativo que registra todos os dados ao longo do tempo para manejo assertivo e para acompanhamento do laticínio.

“A grande importância do evento foi a integração e os efeitos da multidisciplinariedade de diferentes alunos e cursos focados em um único problema, uma única solução para a bovinocultura leiteira. Foi muito interessante devido à interação entre os estudantes, entre os profissionais, com visões diferentes e cada um dentro da sua área. Todos ganham, os alunos, os professores e o setor leiteiro”, destaca Iran José Oliveira da Silva, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq e embaixador da Milcup.

– Segundo lugar: IF Sudeste campus Juiz de Fora (MG). Proposta Eletromilk, sistema de eficiência energética, que otimiza a engenharia de processos das propriedades para fins de economia de energia elétrica, sustentabilidade e maior qualidade do leite.

Mauro de Oliveira dos Santos Silva, graduando de Engenharia Mecatrônica, fez parte da equipe e conta que participar do Vacathon foi uma experiência inesquecível e positiva,  profissional e pessoalmente. “O evento promoveu mentorias, palestras e visitas técnicas incríveis que abriram minha mente. A Embrapa criou uma atmosfera única, um clima  de competição extremamente saudável, no qual construímos boas amizades e trocamos conhecimento. Um dos momentos que mais me marcou foi no dia da apresentação, quando fomos chamados com a outra equipe finalista para o grande resultado final. Fizemos uma corrente em cima do palco, juntando nossas equipes e isso traduz muito o que é o Vacathon. No fim, conquistamos o segundo lugar geral, uma posição que abriu muitas oportunidades para a nossa equipe. Posso dizer que valeu cada hora imerso no evento, e hoje o sentimento é de saudades”, afirma.

– Terceiro lugar: UFERSA (Mossoró-RN). Proposta Cownecta, uma rede social que integra pesquisadores, produtores e indústrias e promove troca de informações de maneira setorizada e organizada.

Com a finalização dessa edição, o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite revela que agora o desafio é ainda maior. “Estamos fechando uma etapa importante do Ideas for Milk, tanto no hackathon quanto no desafio de startups, e ano que vem a gente tem o plano de internacionalizar esse movimento que criou o primeiro e único ecossistema de inovação do agronegócio brasileiro”, conta Martins.

Parabéns a todos os participantes. E que o evento seja cada vez mais um grande sucesso!

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