Água: qualidade e principais pontos de atenção na pecuária

O monitoramento do volume fornecido, da qualidade e do acesso dos bovinos à água é essencial para o bom desempenho animal

A água é indispensável para a vida e de extrema importância na bovinocultura de corte e leite, sendo o ingrediente mais barato da dieta e aquele com maior impacto no desenvolvimento animal. Deve-se atentar à qualidade, quantidade e facilidade de acesso às aguadas para o desempenho animal adequado.  

No país, a bovinocultura de corte é majoritariamente extensiva, com grandes áreas de pasto e baixas taxas de lotação animal das pastagens. As aguadas nesse sistema são, normalmente, fontes naturais, como açudes, lagoas e cacimbas, o que exige atenção do produtor para diversos fatores.

Na bovinocultura leiteira, os sistemas já são mais intensivos, com pastos dimensionados, fornecimento de concentrados e maior controle dos índices zootécnicos. Também existe um maior cuidado com a água fornecida aos animais, já que existe uma dependência maior para a produção de leite e o controle térmico. A utilização de bebedouros também ocorre com maior frequência.

Volume

O volume e o fornecimento de água são importantes para a pecuária. Palhares (2013) propôs o consumo médio diário de água para bovinos de corte e leite tendo como base recomendações técnicas, estudos científicos e legislações ambientais, além de considerar o intervalo de temperatura de 21°C a 32°C. Veja na tabela 1.

Tabela 1.
Estimativas de consumo diário de água por peso e categoria animal.

Bovinos de corte

Consumo (litros/dia)

Até 250 kg

22 a 27

Até 370 kg

30 a 50

Até 455 kg

41 a 78

Bovinos de leite

Consumo (litros/dia)

Vaca em Lactação

64

Vaca Seca

45

Bezerro Lactante

12

Fonte: Adaptado de Palhares (2013), elaborado pela Scot Consultoria

Pode-se fazer a correlação do volume de água consumido pelo animal com o consumo de matéria seca e, consequentemente, com a sua produção de leite.

A correlação é de 4 litros de água consumidos para cada litro de leite produzido, com aumento de até 1,5 litro de consumo para locais mais quentes ou com ambiência não controlada. Lembrando que essa comparação está acima da necessidade basal de uma vaca que não está produzindo, porém, é a mais adequada.

Na bovinocultura de corte, a correlação se dá em relação à quantidade de matéria seca (MS) ingerida, sendo, em média, 5 litros de água por quilo de MS ingerido.

Qualidade

O fornecimento da quantidade de água adequada é imprescindível, mas a qualidade é um fator essencial para o desenvolvimento animal e ganhos produtivos.

A qualidade é determinada pela sua característica físico-química, como o odor, a cor e o sabor. Nos fatores químicos, os principais pontos são a acidez, ligada diretamente à contaminação e à poluição ambiental, e o pH, que está ligado ao contato da água da chuva com rochas específicas (Viana, 2008).

O consumo de água está ligado diretamente com a qualidade, pois, se as fontes de água da propriedade contêm sujidades ou estão com uma grande quantidade de barro, a quantidade ingerida pelo animal é menor.

O controle da qualidade da água também pode evitar problemas sanitários na propriedade. Dois exemplos são a leptospirose, que afeta diretamente a parte reprodutiva dos animais, gerando prejuízos em fazendas, e o botulismo, com a infecção ocorrendo com maior frequência por meio de cacimbas e açudes. Isso acontece em função de um menor controle dessas áreas e pela permanência de carcaças contaminadas no local.

Vale lembrar que pode ocorrer a infecção também por meio de bebedouros, no caso de decomposição de animais no reservatório.

Disposição de aguadas e bebedouros

Em todos os sistemas de produção, é necessário que a água seja ofertada sem restrições ao consumo dos animais.

No sistema de pastejo, a água pode ser fornecida por meio de lagoas, açudes, cacimbas e bebedouros, sendo necessário o controle da qualidade da água, da quantidade e da vazão para atender a todos os animais. Nesse caso, também deve ser observada a quantidade de fezes e urina na água, já que esses resíduos alteram a composição físico-química e, por consequência, diminuem a ingestão de água pelo animal e o ganho de peso, podendo levar uma novilha com acesso à água limpa a um desempenho 23% maior que um animal com acesso à água fora das condições ideais de qualidade (Willms, 2002).

Segundo Bica (2006), em sistemas de pastejo, a presença do bebedouro em vez de fontes naturais melhorou o desempenho dos animais em até 29%, e a frequência com que os animais se direcionaram ao bebedouro também aumentou.

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Em confinamentos, é comum a utilização de bebedouros, sendo a principal fonte de água para o animal. Eles devem ter uma alta vazão para conseguir atender aos animais. O tamanho indicado deve ser de 0,3 m a 0,5 m/animal, e deve ser de fácil limpeza (Ítavo, 2009). Além do dimensionamento dos bebedouros, é importante se atentar ao tamanho dos reservatórios, principalmente nos sistemas mais intensivos de produção.

Recomendações

É importante conhecer a origem da água e sua composição, por meio de métodos analíticos, possibilitando o controle e o tratamento da substância de maior importância para a produção e o desenvolvimento animal.

É essencial a limpeza dos bebedouros no mínimo duas vezes por semana, esgotando toda a água e fazendo a remoção física das sujidades, seja com vassoura ou escovas. Lembrando sempre do enxágue correto quando utilizar produtos químicos para a limpeza.

Em sistemas extensivos, é preciso sempre conferir a quantidade da água em rios, lagoas e açudes, já que a quantidade tem ligação com chuvas e com a evaporação na época de seca.

Outro fator de grande importância é o acesso dos animais a essa aguada, verificando também se há focos biológicos de poluição.

Referências bibliográficas

Bica, Gabriela & Fo, L.C.P. & Teixeira, Dayane & Souza, G.P.P & Probst, R.. (2006). Comportamento e desempenho de bovinos de corte supridos com açude e bebedouro. 43th Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia, João Pessoa (Brazil).

Ítavo, L.C.V.; Ítavo, C.C.B.F.; Dias, A.M. Et Al. Aspectos Relacionados à Terminação De Bovinos De Corte Em Confinamento. In: Congresso Paranaense De Estudantes De Zootecnia, 30., 2009, Maringá. Anais… Maringá: UEM, Associação Paranaense Dos Estudantes De Zootecnia, 2009

Palhares, Julio Cesar P., 2013. Consumo de água na produção animal. Comunicado Técnico, ISSN 1981-206X, novembro de 2013.

Viana F.C. 2008. A importância da qualidade da água na bovinocultura de leite. Anais III Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite, 23-26 set., Recife, PE. p.97-113.

Willms, Walter & Kenzie, Orin & Mcallister, Tim & Colwell, Doug & Viera, D. & Wilmshurst, John & Entz, Toby & Olson, Merle 2002. Effects of Water Quality on Cattle Performance. Journal of Range Management. 55. 452-460. 10.2307/4003222.

Sophia Honigmann, médica veterinária
Raphael Poiani, analista de mercado
Scot Consultoria

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