Aprenda a fazer o manejo de diferimento de pastos

A estacionalidade de produção dos pastos é conhecida há muito tempo e não deve mais ser vista como um grande problema da produção animal em pasto.

diferimento de pastos

O período do ano em que ocorre a diminuição da produção dos pastos é conhecido como estacionalidade na produção de forragem. Isso ocorre devido à redução na disponibilidade de fatores ambientais, como luminosidade, temperatura e chuva. Ou seja: quando temos o que chamamos de período das águas, os pastos estão altamente produtivos, desde que bem nutridos e bem manejados. Já a época de seca é o momento em que os pastos tem o seu crescimento reduzido ou, simplesmente, param de crescer.

Figura 1
Estacionalidade de produção de forragem e demanda de forragem pelo rebanho ao longo do ano.

Fonte: GEPF | Esalq

A estacionalidade de produção dos pastos é conhecida há muito tempo e não deve mais ser vista como um grande problema da produção animal em pasto.

É uma característica ambiental, bem descrita, à qual devemos nos adaptar, definindo estratégias para aumentar o sucesso dos diferentes sistemas de produção animal que utilizam o pasto como fonte de alimento.

Desse modo, o planejamento alimentar do rebanho é fator crucial no desempenho do sistema de produção, proporcionando aumento da competitividade da produção animal frente a outras culturas agrícolas, que se expandem cada vez mais por todo o Brasil. Confira a matéria Coprodutos proteicos para uso na alimentação de gado de corte, para saber como complementar a dieta bovina no período de baixa disponibilidade de forragem.

Para a realização do ajuste da oferta de forragem na época seca do ano, pode-se trabalhar com a redução da taxa de lotação (carga animal), que na prática é a venda de animais, ou o armazenamento de alimento produzido na época das águas. Nesse último caso, uma alternativa barata e fácil de implantar para reduzir os efeitos da estacionalidade de produção de forragem é o diferimento dos pastos.

Essa técnica, conhecida também por “vedação dos pastos” ou “feno em pé”, consiste em selecionar determinadas áreas da propriedade e, nelas, deixar de realizar o pastejo, permitindo, assim, o acúmulo de grande massa de forragem. Essas áreas são vedadas de forma programada, do meio para o fim do período das águas, como forma de garantir forragem para ser pastejada no período seco. Tal técnica apresenta elevada quantidade de forragem, porém, com baixo valor nutritivo.

É importante salientar que o diferimento de pastagem não se faz somente impedindo a entrada de animais nas áreas selecionadas. Ações de manejo devem ser planejadas e adotadas, uma vez que o grande acúmulo de massa, por exemplo, pode levar ao tombamento da planta, dificultando o pastejo e, consequentemente, diminuindo o consumo do animal e o aproveitamento da forragem acumulada.

Além disso, pastos diferidos por um período mais longo produzem maior quantidade de massa de forragem, mas com menor valor nutritivo. Por outro lado, pastos diferidos por períodos menores produzem menos massa de forragem, contudo de melhor qualidade.

A escolha da espécie forrageira a ser utilizada é fundamental, uma vez que essa espécie deve apresentar bom potencial de crescimento e capacidade de manter o valor nutritivo durante o período de vedação.

Nesse sentido, as espécies do gênero Brachiaria (ex.: BRS Piatã, Marandu, Braquiarinha) e Cynodon (ex.: capim-coastcross, tifton 85) são as mais indicadas para o diferimento, devido ao hábito de crescimento mais prostrado (plantas rasteiras, decumbentes) e também por acumularem maior quantidade de folha em relação ao colmo.

Pastos de espécies do gênero Andropogon, Panicum (ex.: BRS Zuri, Mombaça) e Pennisetum (ex.: capim-elefante), de crescimento cespitoso (entouceirado), apresentam rápida perda do valor nutritivo, devido à maior quantidade de colmos, que deixarão de ser consumidos, reduzindo, assim, o desempenho dos animais.

Figura 2
Elevada produção de colmos nos capins do gênero Panicum e Pennisetum.

Fonte: GEPF | Esalq

A definição da área a ser diferida é variável, dependendo do tamanho do rebanho em relação ao tamanho da propriedade. Em outras palavras, depende da taxa de lotação.

Deixar grandes áreas vedadas pode acarretar superpastejo nos pastos que serão utilizados durante o período de vedação (pastos que não serão vedados). Por outro lado, vedar pequenas áreas pode não ser suficiente para atender à demanda de alimento dos animais no período das secas. Assim, dependendo do sistema de produção, recomenda-se que 20% a 40% da propriedade seja utilizada para o diferimento.

Os pastos devem ser vedados enquanto têm condições para seu crescimento. Assim, a vedação deve ser escalonada, uma gleba (lote) de cada vez, e próximo ao final do período chuvoso (entre 60 e 120 dias antes do término), o que varia nas diferentes regiões do Brasil. Em grande parte do país, esse período encontra-se entre os meses de fevereiro (para consumo dos animais entre maio a julho) e março (para consumo dos animais entre agosto e outubro).

Deve ser realizado um pastejo intenso imediatamente antes do início do diferimento dos pastos. Desse modo, todo material de baixa qualidade presente nos pastos, como colmos e folhas velhas, será removido, e a rebrotação terá plantas mais jovens e de melhor valor nutritivo.

Além disso, é necessário realizar a adubação para favorecer tanto o perfilhamento da gramínea quanto o crescimento das plantas e, consequentemente, o aumento no acúmulo de massa de forragem.

Vale ressaltar que essa técnica não gerará grandes desempenhos ao rebanho por conta de seu baixo valor nutritivo. Assim, sugere-se que esses pastos sejam pastejados por animais menos exigentes em nutrição.

O diferimento de pastos é uma técnica prática e barata e que, acompanhada de suplementação proteica adequada, possibilita ganhos e também melhor gestão e desempenho do sistema pecuário adotado.

Acesse a matéria “O período seco do ano vem aí: o que isso significa para o seu pasto?” para saber mais sobre manejo de pastagem na seca.

Vitor Del Alamo Guarda – Doutor em Ciência Animal e Pastagens pela Esalq-USP, pesquisador na área de Forragicultura e Pastagens e gestor de Ativos – Forrageiras da Secretaria de Inovação e Negócios da Embrapa. 

 

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