Pragas nas pastagens: lagartas e pulguinha-do-arroz

Entenda sobre as características dessas pragas que podem causar grandes estragos nos pastos, caso não sejam controladas.

A pecuária brasileira é realizada, em grande parte, em pastagens. O Brasil, país majoritariamente de clima tropical, tem o clima ideal para o desenvolvimento das plantas forrageiras: quente e úmido.

Apesar disso, há um contratempo: o clima é favorável não apenas para as pastagens, mas também para pragas.

A infestação das pragas leva às perdas, que podem ser consideradas diretas (menor produtividade) ou indiretas (diminuição da área fotossinteticamente ativa), e, em conjunto com outros fatores agravantes, existe a possibilidade de degradação da pastagem, a tal ponto de haver a necessidade de recuperação ou até reforma da mesma, por isso é tão importante o controle nos ataques iniciais.

Lagarta-militar (Spodoptera frugiperda; lagarta-do-cartucho do milho)

O ciclo biológico dessa lagarta, ou seja, o tempo que ela leva da fase de ovo à fase adulta, é variável de acordo com a temperatura média do ambiente. Conforme a temperatura aumenta, o ciclo diminui. Com uma temperatura média de 20°C, o ciclo dura, em média, 64 dias, mas se a temperatura for 30°C, o ciclo se limita a, aproximadamente, 29 dias.

Figura 1. Lagarta-militar (Spodoptera frugiperda).

Fonte: Embrapa

Cada fêmea, quando atinge a maturidade sexual, pode ovopositar até dois mil ovos, postos em massas de 70 a 90 ovos. Os adultos vivem, em média, por 15 dias e, ao longo do ano, podem existir diversas gerações.

No início de seu desenvolvimento, as lagartas, ainda pequenas, apenas raspam as folhas para se alimentarem. Quando grandes, consomem todo o limbo foliar.

Após ingerirem alimento suficiente, as lagartas empupam no solo ou na matéria morta sobre o solo. Nessa fase, o casulo protege as lagartas do controle químico, por isso é importante entender sobre seu ciclo e obter uma melhor eficácia de aplicação de inseticidas ao conhecer em que momento do ciclo a maior parte das lagartas está.

Quando adultos (mariposas), suas asas são acinzentadas, mas os machos possuem manchas brancas nas asas anteriores: uma no ápice e outra na região mediana da asa. Já as fêmeas têm as asas posteriores brancas e transparentes com bordas levemente escuras.

Figura 2. Adulto de Spodoptera frugiperda.

Fonte: Embrapa

Curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes)

É uma lagarta de fácil diferenciação da anterior: ao se locomover “mede palmos”.

Os ovos são postos sobre as folhas e eclodem de 7 a 12 dias após a postura. Quando completamente desenvolvidas, as lagartas medem cerca de 4 centímetros.

Possuem coloração verde-escura e estrias castanho-escuras e amarelas nas bordas, longitudinalmente ao seu corpo.

Se alimentam, quando pequenas, da parte menos lignificada das folhas e ficam na parte inferior das folhas, dificultando sua visualização.

Figura 3. Lagarta curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes).

Fonte: Research Gate

Sua fase larval (lagarta) dura cerca de 25 dias, depois ocorre a transformação em pupa e sua eclosão como mariposa, depois de 14 dias empupada. Seu casulo fica, geralmente, em folhas secas e é encoberto por elas, ou no solo.

Controle e prevenção da infestação por lagartas

O controle, geralmente, não é feito pelos produtores nos estágios iniciais de infestação do inseto-praga, cujos danos são menores comparados aos das lagartas mais desenvolvidas. Muito se deve à visão de que as pastagens, por possuírem baixo valor por área, não precisam de tratamento, ou têm boa resistência quanto às pragas.

Somado aos fatores acima, temos nas pastagens grandes áreas, muitas vezes de relevos desafiadores, que dificultam a aplicação de inseticidas químicos ou levam o produtor a realizar um controle mais generalista.

Apesar disso, atualmente, há no mercado diversos produtos que combatem insetos-pragas nas pastagens, inclusive os de controle biológico.

O uso de inseticidas deve ser feito com produtos de baixa toxicidade e curto poder residual e sugere-se retirar os animais da área aplicada. São indicados para a lagarta-militar inseticidas fosforados, clorofosforados, carbamatos e piretroides. Já para a curuquerê-dos-capinzais, utiliza-se tiametoxan ou carbofuran granulados nas ninfas (lagartas) e carbaril, triclorfon ou malation nas mariposas.

Para o controle biológico das lagartas utiliza-se a bactéria Bacillus thuringiensis, que não é prejudicial aos animais e é de fácil aplicação. As lagartas são infectadas, mas não morrem imediatamente, o que pode enganar o produtor. Apesar disso, após a lagarta entrar em contato com a bactéria, ela para de se alimentar no mesmo dia.

Para o controle biológico com bactérias e fungos, é ideal que a aplicação seja feita em dias nublados ou em final de tarde para evitar sua inviabilização por raios solares.

As pulverizações devem ser feitas em área total para não prejudicar a eficiência de controle. A aplicação em faixas, apesar de menos custosa, impacta negativamente a eficiência do produto aplicado.

O controle biológico contra a lagarta-militar também pode ser realizado com o parasita Trichogramma atopovirilia, cuja ação se dá nos ovos da mariposa, impedindo o desenvolvimento e nascimento de novas lagartas. Os ovos do T. atopovirilia são postos dentro dos ovos da mariposa.

A espécie de inseto Dorus luteipes, conhecida popularmente como tesourinha, também atua como controle biológico, sendo um predador dos ovos das mariposas.

O controle mecânico pode ser feito com barreiras físicas que impeçam o avanço das lagartas, ou com rolos-faca que cortam as lagartas.

A prevenção é feita com rotação de culturas com plantas de ciclo anual, assim é quebrado o ciclo das pragas, além do uso de sistemas de integração cujo princípio de controle é igual ao de rotação. O correto manejo das pastagens, como altura de entrada e saída dos pastejos, e boa fertilidade do solo, auxiliam as pastagens a estarem sadias e capazes de recompor sua área foliar após ataques de pragas.

Pulguinha-do-arroz (Chaetocnema sp.)

A pulguinha é um coleóptero (besouro) que, quando adulta, atinge até 2 milímetros de comprimento, de coloração preta brilhante e formato arredondado. As patas traseiras são adaptadas para saltos.

Possui hábito polífago e atinge diversas famílias de plantas, sendo as de importância para a agricultura as brássicas (repolho, couve-flor), as solanáceas (batatas, tomates) e as poáceas (capins, milho, sorgo, trigo, arroz).

Descrita pela primeira vez por Carneiro (1983), como uma praga das folhas de arroz no Amazonas, e depois por Fazolin e Silva (1996), no Acre, a pulguinha-do-arroz tem estado cada vez mais presente no restante do país e atacando outras culturas além do arroz como, por exemplo, as pastagens.

Controle e prevenção da infestação pela pulguinha-do-arroz

Os ataques em pastagens ocorrem durante o estabelecimento do capim, geralmente de 7 a 14 dias após a semeadura, momento de maior vulnerabilidade das plantas jovens.

A depender da infestação, pode ocorrer morte das plantas ou retardos no crescimento, favorecendo o desenvolvimento de plantas invasoras.

Em casos de ocorrência recorrente, o ideal é realizar o tratamento de sementes com inseticida sistêmico como medida preventiva. Tiametoxan e imidacloprido são os princípios ativos recomendados para o combate da praga no milho, mas para pastagens ainda não há estudos sobre sua efetividade, contudo seu uso é permitido pelo MAPA para controle de outras pragas.

Atualmente, recomenda-se aumentar a taxa de semeadura em 30%, assim as chances de sobrevivência das plântulas aumentam.

Referências bibliográficas

CARNEIRO, J. da S. Reconhecimento e controle das principais pragas de campo e de grãos armazenados de culturas temporárias no Amazonas. Manaus: EMBRAPA- UEPAE Manaus, 1983. 82p. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/665086/reconhecimento-e-controle-das-principais-pragas-de-campo-e-de-graos-armazenados-de-culturas-temporarias-no-amazonas. Acesso em: 27 dez. 2021.

FAZOLIN, M.; SILVA, W. S. da. Comportamento de pragas de importância econômica em cultura anuais, componentes de sistemas agroflorestais. Rio Branco, AC: Embrapa Acre, 1996. 26 p. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/492266/comportamento-de-pragas-de-importancia-economica-em-culturas-anuais-componentes-de-sistemas-agroflorestais. Acesso em: 27 dez. 2021.

PEDREIRA, Bruno Carneiro et al. Boas práticas em manejo de pastagens. In: GUERIN, Natalia. Plantar, criar e conservar: unindo produtividade e meio ambiente. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2013. Cap. 4. p. 67-82. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/109898/1/2013-Criar-plantar-conservar-embrapa-agrossilvipastoril.pdf. Acesso em: 16 dez. 2021.

SANTIAGO, Antonio Dias; ROSSETTO, Raffaella. Pragas nas folhas. 2008. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/cana-de-acucar/arvore/CONTAG01_2_272200817514.html#. Acesso em: 23 dez. 2021.

SANTOS, Rodrigo Souza; ANDRADE, Carlos Mauricio Soares de; MOURA, Luciano de Azevedo. Pulguinha-do-Arroz (Chaetocnema sp.) (Coleoptera: Chrysomelidae): nova praga de pastagens no estado do acre. Rio Branco: Embrapa Acre, 2020. 10 p. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/217677/1/27067.pdf. Acesso em: 27 dez. 2021.

VALÉRIO, Raul. Manejo de Insetos-praga. In: REIS, Ricardo Andrade. Forragicultura: ciência, tecnologia e gestão dos recursos forrageiros. Jaboticabal: Funep, 2013. Cap. 21. p. 317-331.

 

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