Integração lavoura-pecuária-floresta cresce como opção de recuperação de pasto a baixo custo

Sistema gera ganhos ambientais, aumento da produção e ainda agrega valor à carne

Sistema ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta)

As áreas de pecuária degradadas são a nova fronteira do agronegócio. Pelos cálculos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa de Agropecuária), elas representam mais da metade dos 200 milhões de hectares de pastagens nativas ou implantadas no país. A estratégia de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), também denominada Sistemas Integrados de Produção Agropecuária (SIPA), vem crescendo no território nacional como forma de recuperar pastagens com baixo custo, tornar a produção mais eficiente, reduzir o impacto do agronegócio sobre o meio ambiente e agregar valor à carne nacional.

A Associação Rede ILPF, uma parceria público-privada que visa o aumento da adoção do sistema agrossilvipastoril, estima que as áreas integradas ocupem hoje 17 milhões de hectares do território nacional, o equivalente a 25% da área cultivada, que corresponde, segundo a Embrapa, a 66 milhões de hectares. A expansão do sistema integrado é impressionante porque supera em quase 50% o total registrado no último levantamento da entidade, em 2015. Na ocasião, foram contabilizados 11,5 milhões de hectares.

A modalidade mais tradicional de integração é a Lavoura-Pecuária (ILP), que ocorre em rotação, consórcio ou sucessão, na mesma área e em um mesmo ano agrícola ou por múltiplos anos. A ILP corresponde a 85% da área integrada no Brasil e é usada para recuperação do solo, renovação da pastagem e aumento da capacidade produtiva da propriedade. Os custos da implantação do sistema são amortizados com a venda da produção de culturas como soja, milho ou arroz. Outras modalidades são Pecuária-Floresta (IPF), Lavoura-Floresta (ILF) e, a mais completa, Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).


Foto: Maurel Behling/Embrapa

Produtividade e sustentabilidade juntas

A Base Experimental da Embrapa Agrossilvipastoril, na cidade de Sinop, no Mato Grosso, conduziu um experimento para aferir a produtividade com o sistema integrado. Considerando que a média de produção da pecuária naquele estado é de quatro arrobas por hectare/ano, o experimento apresentou os seguintes resultados:

  • Com a pecuária mais intensiva, bem manejada e com adubação de pasto (0,1% peso vivo/dia e 50 kg/ha de NPK – fertilizante com Nitrogênio, Fósforo e Potássio), a produção aumentou para 19 arrobas por hectare/ano.
  • Caso a Integração Pecuária-Floresta fosse implantada, a produção de 19 arrobas por hectare/anos se manteria e os ganhos cresceriam com a venda da madeira.
  • No sistema mais intensivo de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, a produção alcançou 31 arrobas por hectare/ano.

Os números mostram o potencial do sistema ILPF. “À medida que promove a integração dos recursos e o manejo de forma correta, o pecuarista consegue quadruplicar a produção, reduzir o consumo de água com o bem-estar térmico dos animais e ter mais estabilidade financeira porque, com a diversificação, fica menos à mercê das oscilações do mercado”, afirma o agrônomo Maurel Behling, pesquisador da Embrapa especializado em ILPF. Na sua visão, os pecuaristas “são os produtores rurais que mais procuram adotar o sistema integrado, para atender principalmente a mercados exigentes como os da Europa e dos Estados Unidos. O objetivo é garantir que a carne comercializada tenha origem em animais que tiveram as emissões de metano entérico compensadas pelo crescimento das árvores”.

Outras vantagens do sistema são:

  • Redução da perda de solo – o escorrimento de água gera, ao longo do tempo, um impacto negativo. Quanto mais amigável for o sistema de produção em relação ao solo, ou seja, com o meio ambiente, melhor será sua conservação. Além disso, o solo ajuda a reter parte da água da chuva, proporcionando maior resiliência às propriedades em relação aos reflexos das mudanças climáticas, como os períodos de seca e a redução nos reservatórios hídricos dos municípios, por exemplo.
  • Controle de pragas – na monocultura, a aplicação de inseticidas resulta na baixa de uma grande população de insetos. O sistema integrado cria nichos de refúgios para os inimigos naturais que ajudam a combater os insetos-pragas.
  • Ciclagem de nutrientes – o consórcio lavoura-pecuária com o plantio de forrageiras, como a braquiária, melhora o perfil do solo porque traz à superfície nutrientes como potássio e nitrogênio – processo conhecido como “ciclagem biogeoquímica”. Apenas com a braquiária, esse processo acontece por um curto período. Mas, quando a integração associa também a floresta, o sistema pereniza a ciclagem biogeoquímica, tornando o uso de nutrientes mais eficiente.

Além desses benefícios, os sistemas de integração contribuem para a sustentabilidade social e a geração de empregos. Profissionais precisam manejar as árvores da floresta, realizando práticas como a desrama (poda dos ramos) e o desbaste para aumentar a luminosidade para culturas intercaladas, seja a pastagem ou a lavoura. Se a propriedade produzir madeira, uma serraria local provavelmente vai precisar aumentar a mão de obra, e assim por diante.


Foto: Maurel Behling/Embrapa

Como implantar a integração

Os sistemas de integração dependem de vários fatores, entre eles o bioma, o clima, o solo e outras aptidões naturais, além das características econômicas da região. Por exemplo, não faz sentido plantar eucalipto onde não se consome madeira. A falta de meios de escoamento pode impossibilitar a integração com a lavoura se a meta for a comercialização da produção. Mas o cultivo passa a ser viável caso o objetivo do pecuarista seja fazer a silagem de milho, por exemplo, para suplementar a alimentação do gado.

Por isso, a opção pelo tipo ideal de integração deve ser realizada com base em critérios técnicos e na assistência de profissionais das áreas de agronomia, veterinária, zootecnia e, especialmente, da engenharia. Esta última, cujo Dia Nacional do Engenheiro Florestal é celebrado em 12 de julho, assume um grande protagonismo na implantação, na condução e no manejo da floresta, que pode ser formada por diferentes espécies, de acordo com o bioma e a finalidade de uso. Segundo o anuário 2020 da IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores), associação de representação institucional da cadeia produtiva de árvores plantadas, do campo à indústria, o Brasil detém cerca de 9 milhões de hectares de florestas plantadas. Desse total, 77% são representados pelo cultivo do eucalipto, e isso se deve às características da espécie, tais como o rápido crescimento, o ciclo curto de corte quando comparado a outras espécies, fácil adaptabilidade edafoclimática, potencial econômico pela diversidade de uso da madeira, alta produtividade, entre outras. Apesar da popularidade do eucalipto, outras espécies florestais também possuem relevância econômica. Na Região Sul, por exemplo, concentram-se as maiores áreas cultivadas com pinus; no estado do Rio Grande do Sul, têm-se a acácia; já no Mato Grosso, encontram-se plantios de teca, e a seringueira se destaca nos estados do Mato Grosso do Sul e Roraima. Espécies nativas do Cerrado, como baru, pequi, açaí, chichá e palmeiras, que têm produtos valorizados e não demandam muito manejo, também são populares. No Nordeste, o foco são as árvores forrageiras, como a algaroba, gliricídia e leucena, e as frutíferas, como cajueiros, coqueiros e babaçus.  

A meta de todas as modalidades é integrar os recursos agrícolas e naturais para proporcionar um ganho de eficiência à propriedade.

Plano ABC pode financiar implantação

Para incentivar a adoção de práticas sustentáveis, o Governo Federal disponibiliza o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), que visa à promoção de uma agropecuária mais adaptada às mudanças climáticas e que reduza a emissão de gases do efeito estufa. O programa contempla a ILPF e outras tecnologias, como recuperação de pastagens degradadas, florestas plantadas, tratamento de dejetos de animais, etc. Como incentivo, o plano oferece uma linha de crédito com taxa de juros menor que a fixada para o crédito rural.

O engenheiro agrônomo Renato Watanabe, vice-presidente do Conselho Gestor da Associação Rede ILPF, ressalta o esforço da entidade em relação ao financiamento privado. “A Rede tem um trabalho muito forte com o produtor rural. Numa primeira frente, organizamos eventos, palestras e congressos para promover a transferência de tecnologia. Agora estamos pensando em incentivar o sistema, abordando os principais gargalos existentes, como o crédito”.

Em 2015, a Embrapa lançou a Certificação Carne Carbono Neutro (CCN), que visa atestar a carne bovina produzida em sistemas de IPF ou ILPF por meio de uso de protocolos específicos que possibilitam o processo de certificação. Em fevereiro de 2020, a Associação Rede ILPF lançou o Protocolo ILPF, uma certificação que prevê novos componentes de avaliação e o diferencial de realizar o monitoramento constante e dinâmico. Ao atestar a origem do produto, ambos os selos conferem um valor agregado à carne nacional.

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